As redes municipal e estadual de ensino já voltaram às aulas em São Paulo, mas um grupo de alunos que vive na zona leste da cidade continua fora da escola. É o que denunciam membros do Conselho Tutelar de São Rafael, bairro da zona leste paulistana, que têm sido procurados, diariamente, por pais de crianças para relatar o problema.
A conselheira Sueli Serafim de Almeida já contabiliza 29 reclamações sobre falta de vagas nas escolas da região, mas diz que o problema pode ser ainda maior: funcionários da Diretoria Regional de Educação (DRE) São Mateus têm dito aos conselheiros e às famílias que há centenas de crianças nas mesmas condições.
“Começaram a chegar pais e mães aqui falando: ‘Meu filho não tem vaga, ele estudou na EMEI [Escola Municipal de Ensino Infantil] e agora não tem vaga na 1ª série’. A gente achou estranho e foi lá na DRE conversar. Uma pessoa falou pra gente que tem quase 600 crianças que não têm vaga no 1º ano”, conta Sueli.
Oficialmente, as gestões Ricardo Nunes (MDB) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) negam o problema (leia mais abaixo), mas o Metrópoles conversou com três famílias que confirmam a situação relatada pela conselheira.


Estudantes em escola municipal de São Paulo
Prefeitura de SP/Divulgação

Crianças acompanham aula em escola na periferia da zona leste de São Paulo
Jessica Bernardo/Metrópoles

Alunos do 2° ano do ensino fundamental são destaque na avaliação
Jessica Bernardo / Metrópoles

Estudantes da rede estadual de São Paulo
Jessica Bernardo / Metrópoles
Espera de semanas
A cabeleireira Jaqueline Galdino, de 36 anos, é uma das mães que tenta, há semanas, matricular o filho.
“Não tem vaga para ele no 1º ano em escola nenhuma. Eu fui na DRE [Diretoria Regional de Educação] e falaram que tem mais de 50 crianças que saíram da creche dele [que estão] sem vaga de escola. Fora as que saíram dos outros lugares que também estão sem”.
Jaqueline disse que já buscou ajuda na Unidade Regional de Ensino Leste 3, braço da Secretaria Estadual de Educação (SES) na região, mas também ouviu que não há disponibilidade de atendimento nas escolas estaduais. “Eu tô tendo que pagar alguém pra ficar com meu filho pra poder ir trabalhar”.
Mãe dos gêmeos Heitor e Alice, de 6 anos, Edileusa da Silva Alves, de 38 anos, tem se revezado com o marido para conseguir cuidar das crianças. “Quando não sou eu que falto no serviço para cuidar deles, é o pai. Não tem como deixá-los sozinhos e eu não tenho rede de apoio.”
Ela conta que a rede estadual ofereceu vaga para apenas um dos filhos até agora, a mais de 2km de distância da casa onde a família vive. “Eles falam que tem vaga para só uma criança. E o que eu faço com meu outro filho?”.
Também moradora da região, Ingrid Collerlari diz que já faz um mês que está à espera de uma vaga para a filha, de 6 anos, no 1º ano do ensino fundamental. “Todo dia, eu vou na escola e falam que não saiu ainda, que tem que ficar esperando”.
Ela tenta, ainda, outra vaga para a filha mais velha, de 9 anos. A única opção ofertada pela secretaria, assim como no caso de um dos filhos de Edileusa, está há 2 km de distância.
A conselheira Sueli diz que já acionou o Ministério Público (MPSP) para pedir ajuda às famílias. Ela diz que os bairros de São Rafael, São Mateus e Iguatemi viveram um boom populacional recente, com a inauguração de conjuntos habitacionais e crescimento das comunidades, o que pode ter ocasionado um aumento na procura por vagas.
Para Sueli, no entanto, faltou planejamento das redes municipal e estadual para abrir novas turmas nas escolas dos bairros. “[Na DRE] eles dizem que já têm um plano de ação. Mas, a realidade é que já começaram as aulas e essas crianças não estão indo para a escola.”
Jaqueline vai além. “Não tem escola pra essas crianças estudarem. Não é só falta de vaga, é falta de escola. Se você tem 100 crianças fora da escola, são três salas no mínimo”, diz a cabeleireira.
Outro lado
O Metrópoles entrou em contato com as secretarias municipal e estadual de Educação.
Em nota, a pasta da Prefeitura de São Paulo disse que a oferta de vagas no ensino fundamental da rede pública ocorre por meio do sistema de georreferenciamento do governo estadual, que prioriza unidades próximas à residência do estudante, conforme a disponibilidade.
“A Prefeitura e o Estado atuam de forma integrada para garantir vagas a todos os alunos da rede pública, com abertura de turmas quando necessário, independentemente da rede de ensino. Todos os estudantes que buscam ingresso são atendidos”, diz a gestão Nunes.
A Secretaria estadual da Educação diz que não há falta de vagas e que todos os estudantes têm matrícula garantida na rede pública de ensino. Segundo a pasta, há previsão de matrícula dos alunos até o fim da semana. “Para atender à demanda, novas salas estão sendo abertas e turmas ampliadas. Atualmente, a rede estadual atende cerca de 3,1 milhões de estudantes em aproximadamente cinco mil escolas”, termina a nota.


