“Me senti humilhado e triste”. Foi assim que o venezuelano Jesus Rumaldo Melendez, 39 anos, descreveu o momento em que, após tentar ir atrás de um ônibus, acabou quebrando a perna.
Cadeirante, Melendez está no Distrito Federal há quatro anos e precisa do auxílio das rampas motorizadas para subir nos ônibus. No dia em que quebrou a perna, em outubro do ano passado, conheceu a falta de empatia por parte dos rodoviários.
“Dei o sinal para o ônibus e o motorista abriu a porta do meio. Mas ele apertou o botão errado, várias vezes, fingindo que a plataforma estava quebrada, só para não me levar”, lembrou.
Quando percebeu a situação, o cadeirante disse que começou a bater no ônibus, falando para o motorista esperar. “Consegui passar por ele, mas acabei me desequilibrando com a cadeira, caí e quebrei a perna. O motorista, mesmo vendo o que aconteceu, só deu ré com o ônibus e foi embora”, recordou.
“Me senti humilhado e triste. Foi algo que, com certeza marcou muito a minha vida, pois, por causa de algo evitável, fiquei dois meses afastado daquilo que amo, que é o esporte”, afirmou.
Assim como ele, quase 10 mil pessoas também fizeram algum tipo de reclamação sobre a forma como cobradores e/ou motoristas agiram durante as viagens. Segundo dados da Ouvidoria do GDF, em 2025, foram 9.221 reclamações sobre a conduta dos motoristas de ônibus — uma média de 25 por dia. Somando os cobradores, a média diária sobe para 27 (9.973 registros).
Comparando com os números de 2024, no primeiro cenário, houve um aumento de 32,8% — passando de 6.944 para 9.221. Em relação às reclamações envolvendo motoristas/cobradores, o crescimento na quantidade de reclamações foi de 31,4%, subindo de 7.592 para 9.973.


Jesus Melendez sente que falta paciência aos rodoviários
Luis Nova/Especial Metrópoles @LuisGustavoNova

Neusa da Aparecida disse que, constantemente, os motoristas não param quando faz sinal: “Pressa”
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Em 2025, foram quase 10 mil reclamações sobre a conduta de cobradores e motoristas
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Impaciência
Neste ano, até as às 19h30 desta sexta-feira (6/2), 676 reclamações sobre a conduta dos motoristas já haviam sido registradas. Se incluir os cobradores, o montante de registros aumenta para 741.
O venezuelano Jesus Rumaldo disse que, além dessa situação, já tiveram várias outras vezes em que ele acabou não conseguindo embarcar, pois disseram para ele que a plataforma não estava funcionando.
“Sei que isso ocorreu só para não me levarem. Sinto que falta um pouco de paciência, por parte dos rodoviários, para lidar com esse tipo de situação. Também falta compreensão com a pessoa com deficiência. Até porque, ninguém escolheu estar nessa situação”, desabafou.
Ele ressalta que, assim como os outros passageiros, também tem o direito ao transporte público. “Precisamos de um serviço digno, não só para mim, para todas as pessoas com deficiência”, avaliou.
Assim como Rumaldo, a moradora do Jardins Mangueiral Neusa da Aparecida, 60, também já passou por situações de má conduta. “Minha reclamação maior é com os cobradores. Agora que eles não precisam mais se preocupar com troco, acredito que poderiam ser mais prestativos com os passageiros”, observou.
Segundo ela, dias atrás, enquanto estava em um ônibus, um passageiro estava tentando descer. “O motorista, talvez por não ter enxergado, fechou a porta nele, deixando-o preso por alguns instantes. Em vez de o cobrador prestar algum tipo de auxílio, ele acabou retrucando as reclamações que o passageiro fez. Achei um absurdo”, comentou.
Neusa disse que, com ela, o que mais costuma ocorrer são situações em que o motorista não para quando é feito o sinal. “Eles passam direto, fingindo que não me viram. Acredito que, quando isso acontece, é porque estão com pressa para fazer as viagens na hora. Só que nós, passageiros, não temos culpa. Se estamos ali, é porque precisamos do transporte público”, pontuou.
Treinamentos
Procurada pelo Metrópoles, a Secretaria de Transporte e Mobilidades (Semob-DF) disse, por meio de nota, que atua em parceria com as empresas de ônibus, no sentido de reduzir os casos de conduta imprópria, por meio de palestras, treinamentos e atividades realizadas periodicamente nas garagens, diretamente com os rodoviários.
“O objetivo é melhorar o atendimento ao passageiro, observando as regras de embarque prioritário, orientação quanto ao uso dos cartões de transporte e informações sobre linhas, horários e rotas das viagens”, afirmou a pasta.
De acordo com a Semob, nos últimos dois anos, 3.393 rodoviários, entre motoristas e cobradores, passaram por treinamentos voltados à conduta de prepostos do sistema de transporte. “Para este mês, há um novo treinamento agendado com os rodoviários”, ressaltou a nota.



