O Distrito Federal assiste, mais uma vez, a mortes de jovens após espancamentos durante brigas de rua.
Os casos recentes de Rodrigo Helbingen Fleury Castanheira, de 16 anos, e Leonardo Ferreira da Silva, 19, ocorridos com poucos dias de diferença, expõem um padrão que atravessa gerações: discussões banais que evoluem para violência extrema, agressões praticadas por grupos e vítimas que, muitas vezes, nem sequer conseguem se defender.
O roteiro não é novo. Desde o início dos anos 1990, episódios semelhantes marcaram a história da capital da República.
A brutalidade cometida contra Marco Antônio Velasco, em 1993, e contra o promotor de eventos Ivan Rodrigo da Costa, o Neneco, em 2006, são exemplos emblemáticos de como a violência coletiva se repete.
Mudam os rostos e os cenários, mas a dinâmica permanece assustadoramente parecida. A seguir, a linha do tempo desses casos, detalhados com arquivos policiais da época, mostram como a história insiste em se repetir.
10 de agosto de 1993
O assassinato de Marco Antônio Velasco
Em plena tarde, na quadra 316 Norte, o estudante Marco Antônio Velasco (na foto em destaque, o primeiro da esquerda para a direita), de 16 anos, caminhava com dois amigos quando foi abordado por integrantes da gangue Falange Satânica. O grupo era conhecido por intimidar jovens na região central de Brasília.
Os dois colegas conseguiram fugir. Marco caiu durante a tentativa de escapar e foi cercado por cerca de 10 agressores. Chutes e socos foram desferidos de maneira contínua, mesmo depois de a vítima já estar desfalecida no chão.
Ele sofreu traumatismo craniano, rompimento do baço, fraturas no braço e nas costelas e diversas outras lesões internas. Socorrido, ainda resistiu por cerca de 10 horas, mas morreu no hospital.
Gengis Kayne
O líder da gangue apresentou-se à polícia acreditando que responderia por lesão corporal grave. Orientado pelo tio, que era delegado de polícia, Gengis Keyne de Brito, à época com 18 anos, apresentou-se espontaneamente às autoridades, relatando o ocorrido e delatando seus companheiros.
Mas ele não sabia que Velasco havia morrido e acreditava ter participado apenas de um caso de agressão. O criminoso só ficou sabendo do óbito após assinar a confissão.
E o que aconteceu com os membros da Falange Satânica? Keyne e os outros quatro maiores de idade foram presos e condenados a 28 anos de prisão. Mas ficaram apenas seis atrás das grades.
Quatro menores foram apreendidos e levados ao extinto Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje), permanecendo pouco tempo detidos. Outro menor fugiu e nunca mais foi encontrado.
Em 2003, já em liberdade condicional, Gengis Keyne foi preso novamente ao tentar comprar um celular com um cheque falso. Em 2007, passou para o regime domiciliar, mas voltou para a cadeia no ano seguinte, acusado de tráfico de drogas.
O caso marcou os anos 90 e entrou para a memória coletiva da capital como símbolo da violência das gangues juvenis.
21 de agosto de 2006
A morte de Ivan Rodrigo da Costa, o Neneco
Treze anos depois, a violência voltava a chocar o DF. O promotor de eventos Ivan Rodrigo da Costa (foto abaixo), conhecido como Neneco, de 22 anos, saiu de uma casa noturna na Asa Norte para comemorar o aniversário de um amigo.
Ao perceber que o pneu do carro estava vazio, ele e o colega pararam para trocá-lo. Nesse momento, um veículo se aproximou em alta velocidade, quase atingindo os dois. O amigo de Neneco bateu no vidro do carro para alertar sobre o risco.

Segundo o Ministério Público (MPDFT), os cinco denunciados eram praticantes de capoeira ou profissionais de lutas, alguns deles atuavam como professores de artes marciais.
Os agressores “impossibilitaram qualquer gesto defensivo da vítima, pessoa proporcionalmente franzina e não acostumada aos embates corporais”.
Morte na UTI
O gesto desencadeou uma reação violenta. Os cinco ocupantes desceram do carro e passaram a agredir os dois jovens. Neneco recebeu golpes sucessivos na cabeça e no abdome, sem chance de defesa.
Internado na UTI, permaneceu nove dias hospitalizado, mas morreu em 30 de agosto de 2006. Em 2013, os acusados foram condenados por homicídio triplamente qualificado, com penas que chegaram a quase 20 anos de prisão.
O caso evidenciou a desproporcionalidade da agressão e a impossibilidade de reação da vítima.
5 de fevereiro de 2021
O espancamento de João Victor Costa de Oliveira
O estudante de direito João Victor Costa de Oliveira (foto abaixo), de 19 anos, foi morto após uma discussão em um bar em Planaltina. Segundo as investigações, um desentendimento aparentemente banal com um funcionário do estabelecimento evoluiu para agressões físicas. João Victor foi espancado de forma intensa e não resistiu aos ferimentos.

O Corpo de Bombeiros foi acionado, mas a vítima já estava em estado grave.
Quatro réus foram denunciados por homicídio duplamente qualificado e todos condenados a penas que variaram de 12 a 30 anos de prisão. O caso reforçou a repetição do padrão: brigas iniciadas por motivos pequenos que escalam rapidamente para violência letal.
15 de outubro de 2021
Daniel Junio Rodrigues Freitas: morte após aniversário
Daniel Junio Rodrigues Freitas, 24 anos, comemorava o aniversário em um bar na QE 40 do Guará 2 quando houve um desentendimento entre grupos.
Ao deixar o local, por volta da 1h, a discussão se estendeu para a rua. Daniel foi perseguido por vários metros e agredido com garrafadas, socos e chutes.
Um vídeo gravado por testemunha mostra o jovem já caído no chão enquanto continuava a receber golpes de aproximadamente cinco pessoas.
Um policial militar da reserva tentou intervir, disparando para o alto para dispersar o grupo. Daniel sofreu parada cardiorrespiratória ainda no local. Foi reanimado e levado ao Hospital de Base, mas morreu horas depois.

O caso foi investigado como homicídio e roubo, já que o celular da vítima foi levado durante as agressões. No entanto, em 17 de novembro de 2022, o julgamento dos réus acusados pelo assassinato de Daniel teve um desfecho inesperado.
O Conselho de Sentença decidiu pela absolvição de todos os quatro réus e o Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) entendeu não haver provas da materialidade para a condenação. Em 29 de setembro, outros três acusados também foram julgados e absolvidos.
Janeiro e fevereiro de 2026
O caso Rodrigo Castanheira
O adolescente Rodrigo Helbingen Fleury Castanheira, de 16 anos, morreu na manhã do dia 7 de fevereiro, após ser agredido em Vicente Pires, na noite de 22 de janeiro pelo ex-piloto Pedro Turra, 19. O jovem está preso preventivamente no complexo penitenciário da Papuda aguardando julgamento.
Segundo as investigações, o adolescente foi atingido com um soco que o fez bater violentamente a cabeça contra a lataria de um carro. Imagens gravadas por pessoas que estavam no local (assista abaixo) mostram o momento da agressão e os pedidos de quem assistia à cena: “Vai matar ele”.
Rodrigo chegou a voltar para casa, mas passou mal horas depois. Ele foi internado na UTI do Hospital Brasília, onde permaneceu intubado até não resistir às complicações.
Pedro foi acusado de homicídio doloso — quando há intenção de matar. Ele foi preso preventivamente pela Polícia Civil do Distrito Federal e está no Centro de Detenção Provisória da Papuda.
15 de fevereiro de 2026
A morte de Leonardo Ferreira da Silva
Menos de um mês depois, Leonardo Ferreira da Silva, 19 anos, morreu após uma briga de rua no bairro Nova Colina, em Sobradinho I. Ele trocou agressões com um homem de 26 anos em plena via pública.
A luta foi filmada por outro indivíduo, que incentivava os envolvidos com gritos.
Durante o confronto, Leonardo recebeu um golpe conhecido como “mata-leão”. Após a briga, passou mal e foi levado à UPA de Sobradinho II já em parada cardiorrespiratória. Não resistiu.
O agressor e o homem que filmava foram presos em flagrante por homicídio e tiveram a prisão convertida em preventiva.
Padrão que se repete
Ao analisar os casos ao longo de 33 anos, alguns elementos aparecem de forma recorrente:
- Conflitos iniciados por discussões banais
- Ação coletiva contra vítima isolada
- Violência desproporcional
- Golpes na cabeça como fator determinante
- Filmagens ou testemunhas que incentivam
- Jovens entre 16 e 24 anos como principais vítimas
Se nos anos 90 o temor vinha das gangues organizadas, hoje a preocupação envolve a banalização da violência e sua exposição nas redes sociais.
A capital federal, planejada para ser símbolo de modernidade e organização, carrega uma linha do tempo marcada por episódios de brutalidade juvenil que atravessam gerações e que continuam a exigir respostas da sociedade e das autoridades.




