A morte de cinco pessoas que vinham da Bahia para o Distrito Federal reacende um debate sobre o quão comum são viagens clandestinas em trajetos interestaduais. O Metrópoles passou dois dias percorrendo rodoviárias da capital do país e flagrou, com facilidade, carros de passeio oferecendo viagens a passageiros que buscavam soluções mais rápidas para chegar aos seus destinos, bem como famílias e comerciantes aceitando as ofertas.
Logo ao chegar na Rodoviária Interestadual de Brasília, na tarde da última quinta-feira (19/2), a reportagem foi abordada por motoristas que costumam sair da capital até Anápolis (GO), Goiânia (GO), Unaí (MG), Paracatu (MG) e outros municípios próximos. Os loteiros buscam oferecer saídas mais rápidas aos passageiros que não querem esperar pelos ônibus convencionais, como mostram os vídeos acima.
“[Vai para] Goiânia? Anápolis?”, pergunta um motorista. O homem promete rapidez caso a equipe aceite a viagem. “Eu já estou pronto, estou com dois passageiros. Se vocês forem, estou pronto, é só pegar o carro e ir embora”, completa.
Os loteiros estacionam seus veículos em área próxima à Rodoviária e esperam somar quatro passageiros para seguir viagem, cobrando cerca de R$ 90 a cada cidadão. “Se fizer um descontinho vocês já vão agora? Vou fazer R$ 80 pra vocês”, propõe o motorista.
O cenário é parecido na Rodoviária de Taguatinga, visitada pela reportagem também na quinta-feira (19/2). “Anápolis, Goiânia?”, pergunta um dos motoristas, reunido com os demais loteiros. “R$ 100 cada um”, precifica. “Se vocês forem, vai faltar só um [passageiro]. Já estou com um [passageiro confirmado], se vocês forem, vai faltar só um para nós sairmos”, comenta o condutor.
No dia seguinte, na sexta-feira (20/2), o Metrópoles voltou a presenciar o transporte pirata na Rodoviária Interestadual de Brasília. Um motorista chegou a dizer que faria o trajeto Brasília-Goiânia em duas horas. “Se vocês forem agora, vou buscar o carro ali. Querem ir agora”, pergunta.
Pouco tempo depois, o mesmo motorista se prepara para seguir viagem com um homem, uma mulher e uma criança — os passageiros parecem ser uma família. A reportagem flagrou o motorista, de chinelos, repassando uma quantia em dinheiro, possivelmente paga pelos clientes, a outros parceiros de lotação antes de embarcar.


Transporte pirata segue em alta no DF
Hugo Barreto/Metrópoles (@hugobarretophoto)

Metrópoles flagrou situações nas rodoviárias Interestadual e de Taguatinga
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Convite aos cidadãos acontece sem fiscalização alguma
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Loteiros oferecem opção mais rápida em relação aos ônibus convencionais; o homem de camiseta branca e calça jeans azul na imagem, ao centro, é um dos motoristas
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Metrópoles presenciou o motorista (à esquerda) conduzindo uma família que aceitou a corrida ilegal no trajeto Brasília-Goiânia
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Antes de embarcar, o motorista deixou valor possivelmente pago pelos passageiros a outros loteiros
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Reportagem flagrou os homens contando o dinheiro

A reportagem também viu comerciantes voltando de São Paulo
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A viagem é comum: os ônibus saem do DF às segundas, terças, quartas e quintas-feiras
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Ônibus ficam em locais estratégicos de Taguatinga e Ceilândia
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Assim que o coletivo retorna, passageiros vão às feiras descarregar mercadorias
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Compras são feitas nas feiras do bairro do Brás, em São Paulo
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Outro coletivo voltando de São Paulo
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Responsáveis pela viagem descarregando a mercadoria em uma casa na QNN, em Ceilândia
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Comerciantes do DF viajam de ônibus
Além dos carros de passeio que levam cidadãos a municípios próximos do DF, há ainda os ônibus que costumam fazer viagens interestaduais a estados mais distantes. São Paulo, por exemplo, é um destino comum a comerciantes de feiras e lojas de vestuário.
A reportagem também acompanhou a chegada de dois coletivos vindos da capital paulistana direto para a Feira Central de Ceilândia. Lá, os passageiros desembarcam mercadorias e levam aos comércios, como mostram as imagens acima.
O Metrópoles apurou em campo que os coletivos saem quase todos os dias de pontos estratégicos de Taguatinga e Ceilândia rumo a São Paulo. Há ônibus partindo das duas regiões administrativas nas segundas, quartas quintas e sextas-feiras. Os motoristas saem por volta das 9h, deixam os passageiros no bairro do Brás para que eles façam compras e voltam no dia seguinte.
Não há indícios evidentes de irregularidade por parte das empresas de turismo que fazem o trajeto Brasília-São Paulo, mas a prática mostra a preferência do cidadão pelo transporte alternativo em detrimento das linhas convencionais. Os principais motivos, de acordo com fontes que não foram identificadas, são os horários adequados às demandas dos passageiros e os preços especiais em relação às empresas tradicionais.
Tragédia com van no DF
Na terça-feira (17/2), uma van que trazia 17 pessoas de Santa Rita de Cássia, na Bahia, para o DF, bateu na traseira de um caminhão, na BR-020, pouco depois de Formosa (GO), sentido Plano Piloto. Cinco pessoas morreram, e as outras 12 ficaram feridas.
As cinco vítimas que não resistiram ao impacto da batida são Everaldo de Oliveira dos Santos, 52, Laudenice Vogado de Oliveira, 58, Ravy Gael da Silva Vogado, 4, Geneilde da Silva Lima, 39, e Valtim Chaves dos Santos, 64 anos. Todas eram passageiras da van; o motorista do caminhão, único ocupante do veículo, não se feriu.
A Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) informou, horas após o acidente, que a van era clandestina e tinha status “inativo”, portanto não tinha licença para rodar.
Em depoimento à Polícia Civil do DF (PCDF), o motorista da van assumiu que dirigia há mais de 12 horas seguidas no momento em que bateu na traseira do caminhão. A legislação brasileira prevê que condutores de transporte rodoviário coletivo de passageiros ou de cargas podem dirigir por, no máximo, 5 horas e 30 minutos sem parar. Dado esse limite, o motorista precisa tirar ao menos 30 minutos de descanso.
Ônibus fugiu de blitz e capotou com passageiros
Em outubro de 2023, um ônibus de turismo bateu na traseira de um carro de passeio e capotou na BR-070, após o motorista fugir de uma blitz da ANTT em alta velocidade. No dia do acidente, o condutor acelerou após fiscais darem ordem de parada, na altura de Águas Lindas (GO), sentido Brasília. O coletivo, que vinha do Maranhão, estava fazendo transporte clandestino e tinha pneus carecas.
Havia 32 passageiros no ônibus, e cinco deles morreram. As vítimas que não resistiram são Maria Eliete Gomes da Silva, 57 anos; João Freire de Sousa, 57; Maria de Deus Fernandes Crateus, 64; Francisco Ferreira da Silva, 71; e Claudia Maria Moreira, 49.
15 pessoas ficaram feridas. Em dezembro de 2024, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) determinou que a empresa Iristur Transporte e Turismo Ltda, responsável pelo ônibus, indenizasse duas delas, sendo uma mulher e a filha dela.
A mulher fraturou um fêmur e teve traumatismo craniano e embolia pulmonar, o que a impedia de trabalhar após o acidente. Já a filha dela teve traumas psicológicos “por ter apenas três anos de idade e ter vivenciado um desastre junto com a sua genitora”, considerou o juiz de direito substituto José Rodrigues Chaveiro Filho à época da decisão.
O dono do ônibus, Alexandre Henriques Camelo, e o motorista, Felipe Alexandre Gonçalves Henriques, são pai e filho. Eles foram presos por homicídio doloso continuado, com dolo eventual.


