Em setembro de 2025, a Prefeitura de São Paulo anunciou que cumpriria uma demanda fundamental e antiga da sociedade paulistana, hoje marcada por transtornos materiais e humanos com as constantes quedas de árvores agravadas em ciclos de chuvas: a realização de um inventário da arborização urbana da cidade.
Na divulgação, a gestão Ricardo Nunes (MDB) prometeu uma tecnologia pioneira no país, que detectaria detalhes sobre as árvores do município, incluindo até o estado fitossanitário de cada uma.
No comunicado que revelou a ação, a administração municipal enalteceu: “Diferente dos inventários tradicionais, feitos manualmente e que podem levar no mínimo sete anos para a conclusão, São Paulo será a primeira cidade do Brasil a utilizar desta inteligência artificial para garantir precisão, agilidade e ampla abrangência no monitoramento da arborização.”
Conforme apurado com especialistas pelo Metrópoles, a “propaganda” foi inflada, já que o aparato escolhido pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) não cumpre sozinho a análise aprofundada anunciada. Embora o sistema se proponha a catalogar as espécies, pesquisadores afirmam que é impossível identificar corretamente todos os indivíduos apenas por imagens.
Com custo de aproximadamente R$ 19 milhões, a tecnologia contratada capta imagens tridimensionais dos exemplares. Apesar de ser uma iniciativa considerada importante, trata-se apenas de um pontapé, já que a saúde de cada árvore deve ser avaliada por profissionais capacitados, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem.
Tecnologia Lidar
Desde setembro, a reportagem vem contatando a prefeitura para entender como funcionará o esperado inventário de arborização. Inicialmente, o Metrópoles tentou acompanhar presencialmente a equipe que executa o projeto. No entanto, os encontros marcados foram adiados e/ou cancelados.
Intitulada Light Detection and Ranging (Lidar), a tecnologia é acoplada a um veículo que percorre as vias da cidade “medindo a distância entre os feixes refletidos e as superfícies em até 300 metros de distância e 30 de altura”. Simultaneamente, um sistema de navegação registra a localização e a orientação do carro. Com isso, registra-se o georreferenciamento exato de cada árvore.
Para um diagnóstico preciso, de acordo com Gregório Ceccantini, professor de morfologia e anatomia vegetal do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), muitas vezes é necessário analisar ramos, folhas, frutos e/ou flores de perto. Uma avaliação de saúde real exige que um técnico examine cada exemplar presencialmente por no mínimo cerca de 15 minutos, diz.
“Para avaliar o estado fitossanitário, deve ser olhado se a árvore tem machucados, se ela tem áreas de podridão, orifícios, cavidades na base, por exemplo, de roedor, com abelhas, fungos. Você tem que ver esses machucados, tem que ver locais de poda correta e incorreta, com áreas abertas. Depois que se encontrou essas cavidades, você vai fuçar lá dentro para testar se tem fungo, verificar se tem cupins”, explica o botânico.
A execução do projeto para o inventário de arborização será feita pela empresa Metro Cúbico Engenharia, ganhadora de uma licitação da Prefeitura de São Paulo em julho do ano passado. Outras seis concorrentes participaram do certame.
Segundo apurado pelo Metrópoles, embora houvesse propostas mais baixas, a Metro Cúbico foi a única habilitada e que passou por “prova conceito” durante o processo. Competidoras chegaram a ser desclassificadas por ausência de manifestação.
“Aproximações grosseiras”
Durante a análise, ferramentas adequadas — e manuais — devem integrar o trabalho com vistas à análise precisa. Pode-se usar, por exemplo, um boroscópio. “É uma câmera enfiada na cavidade para medir o quanto da árvore está oca por dentro”, detalha Ceccantini.
Medições como o ângulo de inclinação e o diâmetro do tronco à altura do peito (DAP) também foram incluídas na promessa da tecnologia comprada pela prefeitura. O resultado alcançado por meio da tecnologia de georreferenciamento, contudo, é definido pelo pesquisador como “aproximações grosseiras”.
O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), vinculado ao governo estadual, inclusive, já dispõe de tecnologias que proporcionam visão de dentro da árvore e também embaixo do solo, por meio de ultrassom e tomografia do tronco. “A análise aprofundada envolve a atuação humana, então existe tecnologia, mas não tem jeito de não ter um humano operando”, acrescenta o professor da USP.
Aline Cavalari, coordenadora do curso de arborizaçao urbana da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lembra que o georradar deve ser associado a outros mecanismos.
“Principalmente a tomografia, junto com a penetrografia, consegue avaliar a saúde interna da árvore, se está tendo o oco ou não. O oco na árvore é uma coisa natural se essa árvore for muito antiga, mas na maioria das vezes é gerado por patógenos. Então, as tecnologias ajudam muito a detectar isso, mas é muito caro, e, quando a prefeitura não tem, o técnico tem que saber fazer essa análise manualmente, visualmente, com a ajuda de algum martelo, perfurador. Então, são várias coisas juntas”, esclarece a pesquisadora.
Conforme Aline, o mapeamento geográfico é um ponto inicial. “A partir da hora que o radar, o Lidar, passar, mostrar árvores tendenciosas, fisicamente inclinadas, árvores que estão faltando muitos galhos… ali vai dar um desenho 3D. Então, a prefeitura vai ter um olhar mais atento nesses indivíduos que vão estar, inclusive, já referenciados”, destaca.
Outro ponto crucial é a necessidade de análise das raízes dos exemplares. Juliana Gatti, fundadora do Instituto Árvores Vivas, destaca a importância da base de sustentação da árvore. Ela explica que intervenções urbanas, como esgoto e fiação subterrânea, assim como a impermeabilização das calçadas, danificam o sistema radicular, gerando patologias que não são detectadas por imagens externas.
“Pode ser que existam falhas importantes a serem consideradas: de qual é o nível da capacidade de identificação para uma imagem 360. Profissionais muito capacitados na identificação de indivíduos arbóreos devem fazer uma sobreleitura aos dados que o algoritmo vai trazer, isso é essencial”, alerta Gatti.
Invisível aos olhos
Uma árvore pode aparentar estar saudável externamente e, ainda assim, apresentar riscos graves de queda. Segundo especialistas consultados, problemas estruturais e biológicos críticos muitas vezes ocorrem no interior do tronco ou abaixo do solo, áreas que não são visíveis em uma análise superficial ou por fotografias.
“Aquela região pode ter sofrido uma intervenção da área de captação de água da rua, ou de eletricidade, do esgoto, então passou por toda uma nova instalação ali de coisas subterrâneas, que cortou um monte a raiz de árvores antigas”, lembra Gatti.
“Quando se muda um quarteirão de casas para um quarteirão de prédios, afunda o lençol freático; aquela árvore adulta não tem mais acesso àquela água que ela tinha antes, e ela passa a sofrer falta de hidratação, uma falta de recursos gigantesca“, complementa.
Além das cavidades ocultas, as raízes são de extrema importância. Riscos associados ao pivoteamento (falha na estabilidade das raízes) podem levar a quedas repentinas, mesmo em árvores que não apresentem inclinação visível.
De acordo com um estudo publicado em 2024, a queda de árvores na capital paulista ocorre principalmente na forma de queda de galhos (46%), seguida pelo pivoteamento (33%) e pela ruptura do tronco (21%). Os principais fatores associados aos eventos foram a presença de apodrecimento da madeira, compressões no colo da raiz e práticas inadequadas de plantio e poda. Realizada por Aline Andreia Cavalari, professora da Unifesp, e outros colaboradores, a pesquisa analisou 456 casos registrados no centro de São Paulo.
Lógica da prevenção
A cidade de São Paulo registra frequentemente alagamentos, apagões e quedas de árvores. Para evitar tragédias, mortes e danos materiais significativos, o inventário de arborização surge como uma forma de prevenção.
“A única maneira de fazer prevenção é fazendo esse inventário bem feito. Aí, sim, a gente poderia, por exemplo, classificar que árvores têm alto risco, que árvores precisam de poda imediata. A gente poderia identificar quais árvores estão na iminência de interagir com a rede elétrica“, reforça Ceccantini, da USP.
Segundo o professor, trata-se de uma base essencial para fazer políticas públicas. “Quantas árvores eu preciso podar? Quantas árvores eu preciso plantar? Primeiro eu tenho que saber o que eu tenho, quais espécies, que tamanho tem isso, quantas são, onde estão, que tamanho cada árvore tem. Aí eu vou definir as ações e fazer o cálculo“, detalha o pesquisador.
Gatti defende ainda que um inventário não deve olhar apenas para o “indivíduo botânico”, mas para o vínculo com a sociedade. A idealizadora do Instituto Árvores Vivas sugere que o mapeamento deve ser multidisciplinar, de modo que não se baseie apenas em fotos, mas que integre o conhecimento técnico adequado, a participação da população, a saúde das raízes e uma mudança de paradigma: de uma lógica de “supressão” para uma gestão de “cuidado”.
“A saúde das árvores adultas da nossa cidade é um patrimônio da qualidade ambiental, e isso é prioritário e pode trazer inúmeros benefícios em termos de orçamento transversal”, diz. “É importante também reforçar o nosso estado de equipes de engenheiros agrônomos e florestais concursados, alocados dentro das subprefeituras, de tamanho de equipe adequado para cada subprefeitura, porque a gente tem um território gigantesco, muito diverso, e é esse trabalho da equipe ambiental, tanto de avaliação, mas também de educação ambiental, que poderia estar trabalhando continuamente”, recomenda.
Podas
Segundo a Secretária do Verde e do Meio Ambiente, a tecnologia contratada para o inventário de arborização marca um “salto histórico na forma de planejar a cidade”.
Procurada, a Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB) informou que, em 2025, foram realizadas cerca de 173 mil podas e a remoção de aproximadamente 15 mil árvores na cidade. Atualmente, segundo a pasta, há mais de 10.5 mil ordens de serviço em aberto para manejo arbóreo, registradas pelo sistema 156.
“Os dados apresentados são referentes aos trabalhos executados pelas equipes de manejo arbóreo contratadas por SMSUB e pelas 32 subprefeituras”, especificou a pasta, em nota, após questionamento do Metrópoles. “Antes de qualquer intervenção, as árvores passam por vistoria de engenheiro agrônomo”, informou.
De acordo com a SMSUB, 1.670 funcionários atuam nos serviços de poda e remoção na cidade.
O que diz a Prefeitura de SP
Por meio de nota, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente confirmou que a tecnologia não realiza a detecção direta de fungos, apodrecimento, ocos ou ataques de brocas em árvores. As raízes também não são averiguadas no inventário.
“Esses aspectos são avaliados posteriormente, por meio de vistoria técnica presencial. Árvores com indícios de irregularidade são encaminhadas para análise técnica aprofundada”, retratou a pasta. “A coleta de imagens ocorre da base do tronco até o topo da copa.”
De acordo com a prefeitura, a fase inicial do inventário da arborização urbana foi concluída nos distritos de Vila Mariana e Jabaquara, na zona sul, e Vila Formosa, na zona leste. Questionada sobre a divulgação dos dados coletados, a gestão afirmou que “estão em análise para incorporação ao Sistema de Gestão da Arborização, em implantação, e serão disponibilizados no GeoSampa”.
A ação de número 1 do Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU) prevê o mapeamento de aproximadamente 650 mil árvores, em até três anos. “O prazo estimado considera a extensão das vias, o volume de árvores e as etapas de coleta, processamento, análise e validação dos dados”, disse a secretaria.
O Metrópoles questionou quais são as áreas do conhecimento daqueles profissionais que compõem a equipe que atuará no exame das árvores para o inventário, mas a prefeitura não detalhou se há engenheiros florestais, botânicos e biólogos, por exemplo. “A equipe contratada conta com pelo menos cinco técnicos especializados, com acompanhamento de profissionais das áreas ambiental e de tecnologia da SVMA”, compartilhou.
Sobre o uso de imagens já geradas pelo Google Street View, a secretaria informou que “o sistema adotado pela prefeitura coleta dados técnicos específicos das árvores, com maior precisão, não sendo possível a aplicação dos mesmos algoritmos a imagens já existentes”.

