A discussão sobre a regulação do trabalho por aplicativos tem colocado em lados opostos figuras que antes eram aliadas próximas. Discordâncias sobre o teor do relatório do Projeto de Lei Complementar (PLP) 152/2025, de autoria do deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), que desagrada tanto empresas quanto trabalhadores, expõem disputas políticas na categoria. Há acusações de uso do grupo para fins eleitorais e até defesa do adiamento do debate sobre o assunto.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (Psol-SP), tem sido um dos principais alvos de críticas dos trabalhadores. Ele assumiu o papel de liderar a tramitação do tema no governo federal, e abandonou acordo firmado em 2024 com empresas e trabalhadores, passando a defender o PLP 152/2025. O ativista Paulo Galo, por exemplo, é um ex-aliado do ministro que hoje faz manifestações públicas contra Boulos.
Galo foi uma das pessoas que, em 2021, ateou fogo à estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo (SP). À ocasião, Boulos acompanhou o caso de perto e fez declarações em favor do ativista. Agora, porém, Galo afirma que a atuação do ministro no debate sobre a regulamentação é uma “tentativa de criar para o Boulos uma base eleitoreira com trabalhadores precarizados”, e que o ministro “está prestes a rasgar direitos históricos conquistados pelos trabalhadores em favor de sua carreira na política”.
Os trabalhadores defendem mudanças no texto do PLP 152/2025, que tramita em comissão especial na Câmara dos Deputados. A proposta altera o enquadramento jurídico das plataformas, que passam de empresa de intermediação para operadoras de transporte. Na prática, especialistas afirmam que a medida pode inviabilizar o serviço e reduzir ganhos de motoristas e entregadores.
Boulos também foi duramente criticado em protesto de entregadores realizado em São Paulo em fevereiro deste ano, mesmo dia em que estava prevista reunião para votação do relatório de Coutinho, que acabou cancelada. Na ocasião, entregadores ligados à Organização Nacional dos Trabalhadores sobre Duas Rodas chegaram a parar o trânsito da Avenida Paulista com faixa exibindo a frase “Boulos traidor!”.
Em live realizada em fevereiro, Paulo Galo conversou com outro ativista e influenciador conhecido como Zuppo Motoboy, e os dois afirmaram que Boulos se colocou como um amigo e depois “soltou a mão” dos trabalhadores durante as discussões do grupo de trabalho criado pelo ministro para debater a regulação dos aplicativos.
Durante a conversa, Zuppo também fez críticas a lideranças da Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativos (ANEA), entidade da qual já fez parte, e que participou ativamente do grupo de trabalho de Boulos. Zuppo afirma que o grupo teria “rifado” interesses da categoria para obter benefícios próprios. “Se você tem sua opinião e você aproveita da voz da rua para chegar num certo ponto e dar a sua opinião e esquecer da rua, sai fora que você está errado. […] Você pode ter sua opinião, todo mundo pode ter sua opinião. Só que na hora que você está num lugar que a categoria te colocou, você vai responder pela categoria”, disse.
O GT com entregadores foi encerrado em janeiro e um relatório foi prometido por Boulos para o dia trinta do mesmo mês. O documento, porém, ainda não foi apresentado.
Por meio de nota, a assessoria do ministro afirmou que “as supostas críticas são baseadas em fake news”. “É de conhecimento público que o ministro Guilherme Boulos defendeu desde o início dos debates sobre a criação de direitos para trabalhadores de aplicativos, as demandas da categoria como a taxa mínima de R$10 por entrega, os R$2,50 por km adicional, o fim das entregas agrupadas, a transparência dos algoritmos, a criação de pontos de apoio e de um sistema de previdência e seguro para os trabalhadores, entre outras”, diz o texto.
“Além disso, a Secretaria Geral da Presidência da República abriu as portas do Palácio do Planalto para que estes trabalhadores pudessem expor de maneira clara suas reivindicações”, conclui a nota.
Disputa política
Outro racha entre os trabalhadores foi exposto por Abel Santos, liderança da Associação de Trabalhadores por Aplicativo no DF e Goiás (ATAM-DF/GO). Ele, que não participou do GT de Boulos, também acusa lideranças que participaram do grupo de apoiarem o projeto defendido pelo governo por interesse eleitoral.
O entregador cita os nomes de Nicolas Souza, Edgar Silva (conhecido como Gringo Motoka), e Elias Freitas (conhecido como JR Freitas), que apareceram ao lado de Boulos em entrevistas.
“Nicolas foi candidato, ficou como suplente, o Gringo foi candidato, o JR foi candidato e é muito provável que vão ser candidatos este ano a deputado estadual, a deputado federal, não sei”, afirmou, em live transmitida no canal Ralf MT do YouTube.
Desempenho eleitoral das lideranças
- Nicolas Souza foi candidato a vereador em Juiz de Fora (MG) pelo PDT e obteve 623 votos.
- Edgar Silva, o Gringo, foi candidato a vereador em São Paulo pelo PSB e obtece 6.647 votos.
- Elias Freitas, o JR, também foi candidato a vereador em São Paulo, pelo PSOL, e obteve 4.093 votos.
- Nenhum foi eleito.
O canal Ralf MT, com 54 mil seguidores, pertence ao entregador Ralf Elisiário, que se tornou um dos maiores influenciadores da categoria. Ele tem defendido nas redes sociais que a discussão sobre a regulamentação seja adiada, para não ser instrumentalizada pela classe política visando as eleições de outubro.
“Meu conselho é: esquece o PLP 152, esquece de regulamentação esse ano, deixa pra ano não eleitoral”, afirmou na live com Santos. Em outro vídeo, disse que notou diferença no acesso a parlamentares antes e depois das eleições. “Eu tento contato zero com políticos porque, na época que eu tinha contato com políticos, em ano eleitoral eu mandava um ‘oi’, eles me ligavam. Passava a eleição, eu mandava um oi, eles nem viam a mensagem. Então a gente pode ser usado”, disse. “É ano eleitoral, eles vão fazer de tudo pra enrolar você.”
Ao Metrópoles, Ralf afirma que o PLP 152 “está queimado”.”Tem muita coisa obscura e não vai ajudar os trabalhadores”, disse ao Metrópoles. “A questão política está muito forte. Não vejo como o projeto pode avançar em meio a tudo isso. Por mim, rasga o 152 e voltamos a discutir em 2027, depois das eleições.”
O componente eleitoral também foi levantado por entregadores que realizaram ato contra o PLP 152 na Câmara de Vereadores de Sorocaba (SP), que aprovou moção de repúdio ao projeto. Eles levaram uma faixa dizendo “Ano de eleição, vamos cobrar essa traição!”.
O motorista de aplicativo Eduardo Lima de Souza, liderança da Associação de Motoristas de Aplicativo de São Paulo (Amasp) e conhecido como Duda, afirma que o governo e o Congresso querem aprovar um projeto que “arranca dinheiro dos motoristas, passageiros e empresas”, e que o PLP 152/2025 impõe mais encargos aos trabalhadores e motoristas. Santos alega que a categoria deve “acordar politicamente”.
Pesquisa aponta divergência
A divisão entre os trabalhadores sobre a regulamentação da atividade também foi evidenciada em pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha para , em parceria com a Uber, divulgada no início do mês. Segundo o levantamento, 42% dos motoristas são favoráveis à regulação, enquanto 41% são contrários. Outros 17% não souberam opinar. A pesquisa ouviu 1,8 mil motoristas em todas as regiões do país.
A concessão de auxílio para renovação ou troca de veículos é a principal demanda dos motoristas para o governo, citada por 52% dos entrevistados. O tema não aparece nos debates sobre a na proposta de regulação avaliada hoje pela Câmara dos Deputados. Em seguida, segundo a pesquisa, 21% dos motoristas defendem que não haja qualquer intervenção do governo.




