“Eu me senti muito largada e deixada de lado. Era como se eu não tivesse ido atrás das coisas”. O relato é da estudante da Universidade de Brasília (UnB) Vitória Amaro, 22 anos, que descobriu uma gestação em 2024, quando estava no 5º semestre do curso de Letras. A chegada do filho, Yuri, transformou a rotina e revelou um cenário de desafios para quem tenta conciliar maternidade e ensino superior.
Vitória contou ao Metrópoles que seguiu frequentando as aulas normalmente até o final do oitavo mês de gestação. Depois disso, entrou com o pedido de licença-maternidade estudantil junto à coordenação do curso.
Na UnB, estudantes de graduação e pós-graduação podem solicitar exercícios domiciliares aos professores responsáveis pelas disciplinas. Caso a atividade não possa ser realizada remotamente, existe a possibilidade de trancamento justificado da matrícula por maternidade.
“Eu fui na coordenação, preenchi os papéis e coloquei as matérias que estava cursando. A ideia era ter acesso aos materiais e acompanhar as aulas de forma remota durante a licença”, explicou.
Yuri nasceu em setembro de 2024, e Vitória permaneceu afastada das aulas presenciais durante os primeiros meses de vida do bebê. Quando o semestre seguinte começou, ela reenviou a documentação aos professores solicitando acesso ao conteúdo das disciplinas.
No entanto, recebeu retorno de apenas duas docentes.
“Foi uma quebra de expectativa muito grande e uma tristeza mesmo com a instituição, por não ter sido acolhida como eu esperava. Até porque era um direito que eu tinha ido atrás justamente para não precisar trancar. E, ainda assim, eu tive que desistir, trancar esse semestre e atrasar o meu curso. Então foi muito frustrante”, disse.
Na tentativa de resolver o problema, Vitória decidiu ir pessoalmente até a universidade conversar com os professores. “Expliquei que estava de licença-maternidade e que meu bebê ainda era muito pequeno. Na hora, todos pareceram muito solícitos”, contou.
Na prática, porém, a realidade foi diferente. Segundo ela, os materiais das aulas, os textos e as atividades não foram enviados. Sem acompanhar o conteúdo das disciplinas, a estudante passou a se sentir cada vez mais distante da rotina acadêmica.
Sem conseguir cumprir as atividades, ela decidiu trancar o semestre.
Falta de estrutura
Vitória voltou à universidade no semestre seguinte, quando Yuri já estava um pouco maior. A nova fase trouxe outros desafios.
Ela conta que percebeu a falta de estrutura para mães dentro do campus, como espaços adequados para amamentação, fraldários e ambientes acessíveis para circular com carrinho de bebê.
“Eu tinha que ir no amarelinho, que lá tem um banheiro que diz que é preferencial e é fraldário, mas a porta estava sempre fechada. Eu perguntava para as pessoas se tinha chave e se podiam abrir para mim. Era sempre um empecilho porque não tinha chave, não dava para abrir ou estava interditado”, disse.
Sem alternativa, algumas trocas de fralda precisaram ser feitas dentro da própria sala de aula.
“Eu tinha que trocar ele em cima da mesa ou então no assento em que eu estava sentada. E, assim, tampando as partes íntimas dele porque a gente fica inseguro, não conhece as pessoas que estão do nosso lado e não quer expor o nosso filho”, afirmou.
Para Vitória, as dificuldades revelam um problema mais amplo dentro da universidade: a falta de preparo institucional para receber mães com bebês.
Rotina exaustiva
Histórias como a de Vitória não são isoladas. Para muitas estudantes que se tornam mães durante a graduação, conciliar a criação dos filhos com as exigências acadêmicas se torna um desafio diário.
A estudante de biomedicina Jhúlia, que cursa faculdade semipresencial na Uninter, relata que o maior obstáculo muitas vezes é o cansaço físico e emocional da maternidade.
Mãe de uma bebê de 7 meses, ela conta que continuou estudando logo após o parto.
“Eu não tirei a licença e aí com uma semana de cesária eu estava dentro da sala. Eu faço aula nas quintas-feiras, então se eu faltar uma quinta-feira eu reprovo na disciplina. E é muito cansativo”, relatou.
Além da faculdade, Jhúlia também trabalha. A rotina intensa faz com que ela passe longos períodos longe da filha, o que gera um sentimento constante de culpa.
“Por não estar perto dela, perco muita coisa. É uma nova bebê todo dia que eu a vejo. Todo dia, ela aprende uma coisa nova e está fazendo uma coisa nova”, disse.
Por cursar biomedicina, Jhúlia explica que nem sempre existe a possibilidade de levar a filha para a faculdade, já que muitas aulas acontecem em laboratório.
“Como meu curso é da área da saúde. Então, se eu precisasse levá-la para a faculdade, eu não poderia porque no laboratório, a gente pode ter infecção, ter contaminação”, afirmou.
Iniciativas
Apesar das dificuldades relatadas por estudantes, algumas iniciativas têm surgido dentro das instituições de ensino para ampliar o apoio a mães e pais que conciliam a rotina acadêmica com o cuidado dos filhos.
Na UnB, uma das ações recentes é a Cuidoteca, espaço de acolhimento noturno para crianças enquanto mães, pais e responsáveis estudam ou trabalham na universidade.
O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 18h30 às 22h45, e oferta até 40 vagas para crianças de 3 a 9 anos no 1º semestre de 2026.
Outra iniciativa é o Centro de Educação Infantil da UnB (CEI-UnB), localizado no campus Darcy Ribeiro. A unidade oferece 121 vagas para crianças, sendo 35 destinadas à comunidade acadêmica, o equivalente a 30% do total.
Além disso, a universidade conta com a Política Materna e Parental, que prevê medidas de apoio institucional, prioridade de matrícula para estudantes com filhos e regulamentação de atividades acadêmicas em regime domiciliar.
No campo da assistência estudantil, também é oferecido o Auxílio Creche, benefício financeiro de R$ 700 destinado a estudantes de graduação em situação de vulnerabilidade socioeconômica que tenham filhos de até cinco anos.
Desafio estrutural
Para especialistas, a dificuldade enfrentada por mães universitárias está ligada a desafios estruturais do país.
De acordo com a coordenadora de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, Daniela Mendes, o acesso a creches é um dos fatores que podem influenciar diretamente na permanência das mulheres no ensino superior.
“Não daria para afirmar categoricamente que, garantindo vaga em creche, a continuidade das mães estaria garantida, mas esse é um elemento que pode apoiar principalmente as mães que não contam com uma rede de apoio”, explicou.
Ela destaca que o problema vai além das universidades. O Brasil ainda tem um número elevado de crianças de 0 a 3 anos fora da creche por dificuldade de acesso, o que acaba impactando diretamente as oportunidades de estudo e trabalho para muitas mulheres.
“A creche não é só um direito da criança, é um direito da família e se enquadra como um serviço que é essencial para a gente conseguir garantir igualdade para as mulheres no Brasil”, afirmou.
Segundo Daniela, quando a mãe não encontra um local seguro onde possa deixar o filho enquanto trabalha ou estuda, muitas acabam se afastando da qualificação profissional.
“Ao garantir a vaga para que a criança esteja sendo bem cuidada com o seu desenvolvimento pleno atendido enquanto as mães conseguem ter a sua vida, você está apoiando para que essa criança esteja numa família em que tem melhores condições de vida”.


