A disputa pelo Governo de São Paulo nas eleições deste ano vai reeditar um embate entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT). O petista foi oficializado como pré-candidato na última quinta-feira (19/3), em evento na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, berço histórico do PT.
Em 2022, ambos disputaram a segundo turno no estado, e Tarcísio venceu com 55,3% dos votos. Quatro anos depois, replicam a disputa, desta vez com status de presidenciáveis: um como governador do estado mais rico do país, com alta aprovação, e outro como ministro da Fazenda, que entregou bons índices econômicos em um cenário político adverso.
Na última eleição, Tarcísio era um ministro pouco conhecido do público e estreante nas urnas. Ao longo da campanha, foi chamado de forasteiro pelos adversários pelo fato de ser natural do Rio de Janeiro. Colou sua candidatura no padrinho político Jair Bolsonaro, que tentava a reeleição à Presidência da República.
Além disso, o atual chefe do Palácio dos Bandeirantes começou a disputa “correndo por fora“. Haddad liderava as pesquisas e o então governador Rodrigo Garcia, que estava no PSDB, disputava a reeleição com a máquina na mão, se apegando ao longo histórico de vitórias eleitorais dos tucanos em São Paulo.
Agora, Tarcísio chega à disputa com aprovação nas pesquisas e na frente nas intenções de votos em todos os cenários testados. Além disso, passou praticamente todo o mandato sendo especulado como o candidato mais competitivo da direita para fazer frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial, gozando de amplo apoio da elite financeira e do Centrão.
Com a inelegibilidade de Bolsonaro, Tarcísio passou a ser tratado como representante do que chegou a ser chamado de “bolsonarismo moderado“, alimentado por ele mesmo em discursos de teor nacional e marcados por críticas à política econômica, tocada justamente por Fernando Haddad.
No governo paulista, apostou em uma política privatista e conseguiu desestatizar a Sabesp, após passar a campanha eleitoral evitando dizer claramente que venderia a estatal de saneamento básico.
Para não perder o apoio do eleitorado que o ajudou a ser eleito, no entanto, Tarcísio fez acenos às franjas radicalizadas da direita. Encampou a bandeira da anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, fez críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e apostou numa política de “linha dura” na segurança pública, fazendo saltar os índices de letalidade policial em seu governo. Também teve uma posição vacilante em relação ao tarifaço aplicado por Donald Trump contra produtos brasileiros, o que gerou críticas até de aliados.
Outro lado da margem
Já Haddad disputou a campanha de 2022 após duas derrotas eleitorais na sequência: em 2016, ao perder por João Doria (PSDB) e não conseguir se reeleger para a Prefeitura de São Paulo; e em 2018, quando levou a disputa presidencial para o segundo turno contra Bolsonaro, após Lula – preso pela Lava Jato – ser impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa.
O petista iniciou aquela corrida na liderança das pesquisas, o que alimentou as expectativas no PT de que o partido finalmente poderia vencer a eleição paulista, após quase três décadas de governos do PSDB. Tarcísio, porém, foi crescendo nas pesquisas e surpreendeu ao terminar o primeiro turno na frente, com 42,3%, contra 35,7% de Haddad. E saiu vencedor no segundo turno.
À época, a escolha do PT em colocar o ex-ministro da Educação na corrida eleitoral em São Paulo foi tratada por muitos como “jogar aos leões” um dos seus principais quadros, o colocando em uma disputa difícil de ser vencida. A estratégia era garantir um palanque forte para Lula no principal colégio eleitoral do país, evitando uma derrota acachapante que poderia significar a perda da disputa presidencial contra Bolsonaro. Estratégia semelhante à atual.
Ao vencer a eleição, Lula demonstrou que Haddad seguia sendo seu principal “pupilo” e candidato a sucessor ao nomeá-lo ministro da Fazenda. A indicação de um nome do PT – e não do mercado – para comandar a economia do país sofreu imediatamente resistência e críticas de opositores e da Faria Lima.
Quatro anos depois, Haddad deixa a pasta com resultados a apresentar: aprovou medidas consideradas difíceis em um Congresso hostil, como um novo arcabouço fiscal, a Reforma Tributária e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até dois salários mínimos. Além disso, a economia brasileira apresenta bons resultados na inflação, no PIB e nas taxas de desemprego.
“Se você fosse um técnico de futebol e a gente fosse fazer uma avaliação do percentual de vitória da sua passagem pelo nosso time, você chegou quase a 80% de vitória de que nós conseguimos nesse país. Não é pouca coisa, eu tenho noção do momento político que vivemos”, disse Lula se dirigindo ao ministro no evento que confirmou a candidatura.
A atuação de Haddad também surpreendeu parte da elite – tradicionalmente crítica à forma do PT enxergar a economia – por sua capacidade de diálogo com caciques do Centrão e do mercado financeiro. O próprio Tarcísiojá afirmou a interlocutores, como mostrou o Metrópoles, que Haddad teve boas intenções na condução da Fazenda, mas teria sido boicotado por alas do PT.
Apostas eleitorais
Para a campanha de 2026, o cenário que se projeta, do lado de Tarcísio, é um foco em apresentar conquistas de seu governo em São Paulo, como a retomada de obras paradas, mas também focar na tese de que Haddad foi um ministro da Fazenda marcado pelo aumento de impostos – fato explorado pela oposição a Lula ao longo dos últimos quatro anos.
Já Haddad deve se esforçar em mostrar falhas e “inconsistências” do governo Tarcísio, além de tentar desbancar a ideia de que o adversário teve uma gestão marcada pelo equilíbrio nas contas públicas e de responsabilidade fiscal.
A lealdade de Tarcísio a Bolsonaro, mesmo após o padrinho ser condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, também será explorada pelo petista, seguindo a tônica que Lula também deve levar à sua campanha, de defesa da soberania nacional e da democracia.

