O uso de cigarros eletrônicos com nicotina pode estar associado ao desenvolvimento de câncer de pulmão e de boca, segundo uma revisão que reuniu mais de 100 estudos científicos. Embora ainda faltem dados de longo prazo, os pesquisadores afirmam que os indícios já são consistentes o suficiente para acender um alerta.
A análise foi publicada nessa segunda-feira (30/3) na revista científica Carcinogenesis e avaliou pesquisas conduzidas desde 2017, incluindo estudos em humanos, animais e experimentos laboratoriais.
O objetivo foi entender os efeitos do cigarro eletrônico de forma isolada, sem comparações com o tabagismo tradicional ou com usuários que combinam os dois hábitos.
Segundo os autores, o conjunto de evidências aponta para um potencial efeito cancerígeno associado ao uso desses dispositivos.
O que dizem os estudos
Os pesquisadores organizaram os dados em diferentes frentes. Em estudos com humanos, foram identificados sinais biológicos relacionados a danos no DNA, inflamação e estresse oxidativo, alterações que costumam estar associadas ao desenvolvimento de câncer.
Em experimentos com animais, a exposição ao vapor dos cigarros eletrônicos levou ao surgimento de tumores pulmonares. Já análises laboratoriais mostraram como substâncias presentes nos líquidos utilizados nesses dispositivos podem interferir diretamente nas células, favorecendo processos ligados à formação de tumores.
Também foram analisados relatos clínicos de usuários frequentes que desenvolveram câncer na região da boca, inclusive em casos sem fatores de risco mais conhecidos, como o tabagismo convencional ou infecções virais.
Para os pesquisadores, o conjunto dos resultados reforça a preocupação. “Considerando todas as evidências disponíveis, é provável que o uso de cigarros eletrônicos esteja associado ao desenvolvimento de câncer”, afirma o pesquisador Bernard Stewart, um dos autores da análise, em comunicado.
Crescimento do uso e preocupação com jovens
Os cigarros eletrônicos surgiram no início dos anos 2000 como uma alternativa ao cigarro tradicional, com a proposta de oferecer uma forma menos prejudicial de consumo de nicotina. Desde então, o uso se espalhou rapidamente, muitas vezes sem informações claras sobre possíveis efeitos a longo prazo.
Uma das preocupações destacadas no estudo é o aumento do uso entre pessoas que nunca fumaram. Dados anteriores indicam que jovens que começam com cigarros eletrônicos têm maior chance de passar a fumar cigarros convencionais.
Além disso, o uso combinado dos dois produtos pode representar um risco ainda maior. Há indícios de que pessoas que fumam e utilizam cigarro eletrônico apresentam probabilidade mais elevada de desenvolver câncer de pulmão em comparação com aquelas que apenas fumam.
Os pesquisadores ressaltam que ainda será necessário acompanhar a população por mais tempo para medir com precisão o tamanho do risco. Mesmo assim, eles defendem que as evidências atuais já são suficientes para orientar decisões em saúde pública.
Para eles, esperar décadas por respostas definitivas pode repetir um padrão visto no passado com o cigarro tradicional, quando a confirmação dos danos demorou muitos anos.




