Tombado desde 1986 e localizado na região central da capital paulista, o Parque da Aclimação está entre os 31 parques incluídos em um edital da Prefeitura de São Paulo que prevê a instalação de polos gastronômicos dentro das áreas verdes. No entanto, a proposta que autoriza a criação de quiosques e outros pontos de alimentação em espaços públicos alarmou os moradores do bairro por se tratar de um parque histórico e protegido em âmbito estadual e municipal.
“Parque não é shopping”
Frequentador antigo do Parque da Aclimação, Roberto Casseb diz que a proposta de instalar polos gastronômicos acende uma grande preocupação entre moradores da região. Para ele, o problema não está apenas nas estruturas previstas, mas no que elas podem representar ao longo do tempo. “A gente sabe, por experiência, que começa pequeno. Se der um espaço, depois cresce”, afirma.
Para ele, a proposta pode mudar, aos poucos, a forma como os parques são usados, aproximando esses espaços de uma lógica mais comercial. “Parque não é shopping”, resume. Na visão do morador, o risco é que o espaço perca a sua essência. “Vai virando um centro de consumo. E parque não é isso. Parque é contemplação, descanso e convivência.”


Proposta prevê duas áreas de alimentação no Parque da Aclimação, tombado desde 1986, com quiosques fixos destinados à venda de alimentos = Metrópoles
Divulgação / Prefeitura de São Paulo

Proposta prevê duas áreas de alimentação no Parque da Aclimação, tombado desde 1986, com quiosques fixos destinados à venda de alimentos
Divulgação / Prefeitura de São Paulo

Parque da Aclimação, em São Paulo
William Cardoso/Metrópoles

Parque da Aclimação, em São Paulo
William Cardoso/Metrópoles

Parque da Aclimação, em São Paulo
William Cardoso/Metrópoles

Parque da Aclimação, em São Paulo
Divulgação / Prefeitura de São Paulo

Parque da Aclimação, em São Paulo
Divulgação / Prefeitura de São Paulo
De acordo com o edital, ao qual o Metrópoles teve acesso, a proposta prevê a concessão de uso de áreas específicas dentro dos parques para exploração comercial de alimentos, tanto em estruturas fixas quanto móveis.
No caso do Parque da Aclimação, de acordo com a prefeitura, estão previstas duas áreas destinadas a pontos fixos de alimentação, com estruturas de até 20 metros quadrados.
As regras variam conforme o local: em uma das áreas, próxima aos portões principais, não será permitido o uso de mesas e cadeiras; na outra, perto dos banheiros, haverá autorização limitada para mobiliário de apoio. Em ambos os casos, as instalações devem ser removíveis e seguir regras rígidas para não avançar sobre a vegetação nem descaracterizar o espaço.
Um dos pontos mais sensíveis, segundo ele, é o local previsto para uma das estruturas: a área onde existia uma antiga cancha de bocha. Hoje degradado, o espaço ainda é usado por frequentadores de forma improvisada. Moradores defendem a recuperação da atividade no local, vista como um espaço de convivência coletiva.
“A bocha reúne todo mundo. Tem criança, tem idoso, é um espaço vivo”, afirma. Para ele, substituir esse uso por um ponto gastronômico representa uma mudança na função do parque, de convivência para consumo.
Além disso, há preocupações práticas para Casseb. A área fica em uma parte mais alta e de difícil acesso, o que exigiria intervenções para viabilizar o funcionamento de um estabelecimento, como circulação de veículos para abastecimento. Segundo moradores, isso pode gerar impacto na vegetação e na dinâmica do espaço.
O que diz a Prefeitura de SP
O Metrópoles conversou com a chefe de gabinete da Secretaria Executiva de Desestatização e Parcerias, Tamires Oliveira. Segundo ela, o projeto não prevê a instalação de restaurantes de luxo nem a “mercantilização” dos parques.
De acordo com Tamires, a proposta é criar pontos pequenos de alimentação, como quiosques, carrinhos e food trucks, com estruturas limitadas. “A gente não está falando de grandes restaurantes. São ocupações pequenas, com área controlada e pensadas para se adequar ao parque”, explicou.
Ela afirma que a iniciativa vem sendo discutida há anos dentro da prefeitura e tem como objetivo ajudar na manutenção dos espaços. Segundo a chefe de gabinete, os pontos funcionariam por meio de termos de permissão de uso, em que os responsáveis podem pagar uma taxa ou investir diretamente em melhorias.
No caso do Parque da Aclimação, Tamires afirma que a proposta envolve uma área já existente, onde funcionava uma antiga cancha de bocha — citada pelos moradores como um importante ponto de encontro. A ideia, segundo ela, é recuperar o espaço e levar algum tipo de atividade para o local. “Hoje é uma área pouco utilizada, mais isolada. A proposta também ajuda a ativar esse espaço”, afirmou.
Ela também rebate críticas sobre possível privatização. “Não é concessão, não é privatização. É um instrumento mais simples, que pode ser encerrado facilmente se houver descumprimento”, disse. Segundo Tamires, a fiscalização continuará sendo feita pela própria prefeitura.
Parque da Aclimação
Segundo informações da Prefeitura de São Paulo, o espaço onde está o Parque da Aclimação foi concebido no início do século XX por Carlos Botelho, que idealizou uma área inspirada no Jardin d’Acclimatation, com proposta de jardim europeu, leiteria e até o primeiro zoológico da cidade. Inaugurado oficialmente em 16 de setembro de 1939, o parque se consolidou como uma das principais áreas verdes da capital e, em 1986, foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT).
Hoje, com cerca de 133 mil metros quadrados e localizado na Rua Muniz de Sousa, na região central, o espaço reúne não só memória, mas também biodiversidade: são mais de 100 espécies de fauna registradas — entre aves, mamíferos e répteis — e uma flora diversa, com árvores nativas e exemplares ameaçados de extinção.
Onde devem ficar os polos
Com base no edital, a Prefeitura pretende instalar polos gastronômicos em cerca de 31 parques da cidade, somando 40 áreas destinadas a pontos de alimentação, entre estruturas fixas, como quiosques, e opções móveis, como food trucks. Veja a lista:
- Aclimação: 2 pontos fixos.
- Anhanguera: 1 ponto fixo e 3 pontos móveis.
- Augusta – Prefeito Bruno Covas: 1 ponto móvel.
- Barragem de Guarapiranga: 1 ponto fixo.
- Benemérito José Brás: 1 ponto fixo.
- Buenos Aires: 1 ponto fixo.
- CEMUCAM: 2 pontos fixos.
- Cidade de Toronto: 1 ponto fixo.
- Cordeiro – Martin Luther King: 1 ponto fixo.
- Guanhembu – Benedicta Ramos Caruso: 2 pontos fixos.
- Guarapiranga: 1 ponto fixo.
- Guaratiba: 1 ponto fixo.
- Independência: 1 ponto fixo.
- Jardim da Luz: 2 pontos fixos.
- Jardim das Perdizes: 1 ponto fixo.
- Lions Clube Tucuruvi: 1 ponto fixo.
- Nabuco: 1 ponto fixo.
- Nebulosas: 1 ponto fixo.
- Linear Ribeirão Oratório: 1 ponto fixo.
- Paraisópolis: 1 ponto fixo.
- Piqueri: 2 pontos fixos.
- Previdência: 1 ponto fixo.
- Raposo Tavares: 1 ponto fixo.
- Rodrigo de Gasperi: 1 ponto fixo.
- Santo Dias: 2 pontos fixos.
- São Domingos: 1 ponto fixo.
- Severo Gomes: 1 ponto móvel.
- Trote: 1 ponto fixo.
- Vila Guilherme: 1 ponto fixo.
- Vila Prudente – Prof.ª Lydia Natalizio Diogo: 2 pontos fixos.




