Usuários do transporte público em São Paulo têm relatado uma nova modalidade de golpe, pensada para distrair a vítima enquanto os criminosos furtam celulares. No domingo (26/4), um influenciador digital publicou um vídeo em que afirmava ter sido ele mesmo uma vítima dessa prática criminosa, denominada golpe do vômito.
Na gravação, Guilherme Giaretta disse que voltava do trabalho de ônibus quando um homem o cutucou e apontou para suas costas. O suspeito tinha jogado um líquido pastoso, de consistência similar a de vômito, na roupa do influenciador.
Veja o vídeo:
“O homem falava em espanhol, repetia que uma criança de colo estava ali atrás e ela tinha acabado de vomitar. Eu estava tão em choque que minhas costas estavam cheias de vômito que eu nem consegui pensar razoavelmente. […] O homem puxava a minha camiseta e falava: ‘Não, eu vou limpar. Ele pegou um lencinho e ficava limpando”.
Enquanto o primeiro criminoso distraía Giaretta, outro se aproveitou da situação e pegou o celular do influenciador, sem que ele sequer percebesse. O jovem só se deu conta que tinha sido furtado quando foi procurar o aparelho e não o encontrou no bolso. Nesse momento, os suspeitos já haviam descido do ônibus.
Outras vítimas
Com a social media Eloise Oliveira, de 30 anos, aconteceu a mesma coisa. Em setembro de 2025, ela sofreu o mesmo golpe em um ônibus da linha 172U-10 — Mooca. “A diferença é que ele disse que o pessoal falava em espanhol, né? Comigo não, a galera era daqui mesmo”, afirmou Eloise ao Metrópoles.
“Hoje, eu penso que aquilo devia ser alguma mistura de leite condensado, leite, paçoca, porque, na hora que você olha, a primeira sensação e com o que eles falam também, o discurso que eles trazem, é de que aquilo foi um vômito”.
Já a influenciadora Mirian Almeida, 31, contou ter sido vítima desses golpistas na linha 5110-10 — Terminal São Mateus, em novembro. “A gente pensa que é questão de minutos, mas não. Até ele falar comigo, me oferecer o lenço, pegar o meu celular e descer do ônibus, foi questão de 30 segundos, no máximo”, disse.
O que dizem as autoridades
O Metrópoles questionou a SPTrans para apurar se a pasta teria recebido reclamações de usuários sobre o “golpe do vômito”. A reportagem quis saber quais medidas estariam sendo adotadas para promover a segurança da população usuária dos ônibus da capital. Porém, não houve resposta aos questionamentos, mas somente a sugestão para tentar o contato com a Secretaria de Segurança Pública (SSP).
Já a SSP disse ter localizado duas ocorrências de furto de celular em transporte público, registradas nos dias 22 e 25 de abril, com características semelhantes às mencionadas. Em nota, a pasta informou que os casos estão sendo investigados pelo 78º Distrito Policial (Jardins) e pelo 28º Distrito Policial (Freguesia do Ó), respectivamente.
“A SSP orienta que, ao desconfiar de uma atitude suspeita, as vítimas acionem imediatamente a Polícia Militar pelo telefone 190, informando o máximo de detalhes possível, para que a viatura mais próxima possa se deslocar ao local e realizar a averiguação. É fundamental que as vítimas também formalizem o registro do boletim de ocorrência para que o caso seja devidamente investigado e os autores responsabilizados”, destacou.
Mesma premissa, golpe antigo
Casos em que criminosos usam uma substância para sujar a vítima ou pertences dela como distração para aplicar golpes não são nenhuma novidade. O Metrópoles encontrou na internet reportagens, datadas de 1996, que já alertavam turistas sobre criminosos que estariam usando ketchup para sujar e, então, distrair as vítimas.
Há, inclusive, ocorrências em outros países. No exterior, o esquema ficou conhecido como “mustard scam” ou “golpe da mostarda”. Em 2013, em viagem a Buenos Aires, o engenheiro Edson Kaneko, dono do perfil @achadosdaliberdade, vivenciou uma abordagem da mesma forma.
Na ocasião, uma mulher abordou a esposa dele e avisou que ela estaria com cocô de passarinho na blusa. “Depois pensando, qualquer pessoa que vê alguma coisa nesse esquema, está suja a blusa, você aponta, fala que está sujo, mas você não tira o lencinho da blusa e fala: ‘Não, eu vou ajudar você a limpar a blusa’. Mas a gente estava num país diferente, numa cultura diferente, a gente também não tem certeza de como o pessoal lá tem costume de fazer as coisas, de repente o pessoal lá ajuda mesmo”, narrou Kaneko.
Ele contou que, como a família estava hospedada próxima ao local da ocorrência, dispensou a gentileza da mulher porque poderiam limpar a sujeira no próprio flat. “Então, eu acho que pelo fato da gente ter se afastado rápido e minha esposa também ficar se mexendo muito para ver onde estava sujo, ela [a suspeita] não conseguiu abrir a bolsa”.
O Metrópoles encontrou relatos parecidos de outros viajantes em sites. Usuários do mundo inteiro afirmavam terem sido vítimas do mesmo golpe em Quito, no Equador, Santiago, no Chile, Estocolmo, na Suécia, e Barcelona, na Espanha.


