Aos 110 anos, Luzia Silvana da Silva, moradora de Brazlândia (DF), está entre as pessoas mais idosas do Brasil. O atual recordista é um mineiro de 113 anos. Dona Luzia vive cercada pelas filhas, netos, bisnetos e tataranetos. Há quase cinco décadas no Distrito Federal, o legado, a liberdade e os ensinamentos da dona de casa atravessam gerações.
Dona Luzia revive passagens da própria trajetória enquanto recebe cuidados constantes das quatro filhas que vivem com ela: Maria Helena, de 77 anos, Maria Madalena, 68, Maria Oneide, 76, e Maria da Guia, a filha mais velha, com 80 anos, que se organizam diariamente para acompanhá-la.
“Nós estamos aqui há 49 anos. Chegamos aqui em 1977”, contou a idosa em entrevista ao Metrópoles.
Nascida no ano de 1915 na cidade de Floriano, no Piauí, dona Luzia viveu grande parte da vida entre trabalhos domésticos.
Em função da avançada idade, dona Luiza recebeu a ajuda das filhas para reconstruir as lembranças durante a entrevista.
Vida no Distrito Federal
Ao chegar ao DF, a família passou primeiro por Taguatinga, quando boa parte da região ainda tinha ruas de terra e poucos imóveis estruturados. Depois, seguiram para Brazlândia, onde permanecem até hoje.
As filhas contam que dona Luzia sempre foi independente. Viajava sozinha entre o Maranhão, Piauí e Brasília, pegava ônibus sem ajuda e cuidava da casa e dos filhos praticamente sozinha enquanto o marido, que morreu em 2000, trabalhava.
“Ela vinha sozinha pra Brasília naquela época. Era muito independente”, contou uma das filhas.
Ela também gostava muito de sair e dançar e conta que andava até “10 léguas” para ir para festas.

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A casa em que vive é cercada de carinho, família e artigos religiosos
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Luzia acompanhada das quatro filhas
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A família é grande: são dez filhos, seis homens e quatro mulheres. Cinco filhos seguem vivos. Além das quatro filhas que cuidam de Luzia em Brasília, um outro filho segue morando no Piauí.
Ao longo das décadas, a família cresceu entre netos, bisnetos e tataranetos espalhados pelo Brasil e até fora do país, incluindo Portugal e Alemanha. Madalena, a caçula da família, exibe, com orgulho, o álbum de fotos da família, que inclui fotos de seus pais, irmãos.
Mesmo com limitações físicas e cognitivas causadas pela idade avançada, dona Luzia ainda mantém alguns hábitos afetivos.
Segundo as filhas, Luiza gostava de fazer crochê e caminhar pela casa. Até hoje, pede linhas para auxiliar a filha mais velha, mesmo que já não consiga mais produzir peças.
“Ela pega a linha e fica ali, mexendo, como se estivesse crocheteando”, contou a filha Maria Madalena.
Organização da família para cuidados
A rotina da família inclui constante cuidado com a matriarca. Dona Luzia ainda consegue pedir ajuda para ir ao banheiro. As filhas se organizam para que ela nunca fique sozinha.
“Tem que ficar sempre alguém com ela. Todo mundo mora perto justamente pra ajudar”, explicou uma das filhas.
A história de dona Luzia chegou à Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF), que ajuizou uma ação de interdição com pedido de curatela em favor da idosa. A medida foi solicitada pela filha Madalena, responsável pelos cuidados diários, diante das limitações severas que comprometem a capacidade de Luiza de praticar atos da vida civil.
Segundo a Defensoria, dona Luzia apresenta comprometimentos permanentes das capacidades cognitivas e físicas, condição que dificulta decisões relacionadas a questões bancárias, serviços de saúde e administração de benefícios. Atualmente, ela recebe um salário mínimo por meio de benefício assistencial.
O defensor público Fernando Henrique Lopes Honorato, responsável pelo caso, explica que a medida busca garantir proteção e dignidade à idosa.
“A interdição, nesses casos, não tem caráter punitivo. É uma medida de proteção e dignidade, que permite que um familiar represente legalmente a pessoa idosa em situações essenciais do dia a dia”, afirmou.
Cuidada pelas filhas, que retribuem o afeto, o zelo e o carinho de toda uma vida, o legado de dona Luzia é honrado pela família e inspira gerações.


