Menos de 24 horas se passaram entre a primeira chegada da maquiadora Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira à clínica na zona sul de São Paulo onde foi realizar um procedimento estético, e a segunda, na manhã desta terça-feira (26/5), já inconsciente e prestes a ter a parada cardiorrespiratória que a levaria à morte, aos 48 anos.
A partir do boletim de ocorrência do caso, ao qual o Metrópoles teve acesso, as últimas horas de vida de Roseli podem ser reconstruídas por meio dos depoimentos de sua filha, Karla, e da médica responsável pela operação, Tábita Nunes Marcolino Jorge, de 36 anos.
Roseli e Karla, residentes no Mato Grosso do Sul, vieram a São Paulo exclusivamente para a realização dos três procedimentos contratados pela maquiadora — preenchimento dos glúteos, posteriores das coxas e quadríceps, por meio da aplicação de polimetilmetacrilato (PMMA) em gel.


Tábita Nunes compartilhou nas redes sociais fotos do procedimento feito em Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira
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Maquiadora morreu após preenchimento nos glúteos com PMMA, diz B.O.
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A médica Tábita Nunes afirmou que o procedimento estético foi realizado na manhã de ontem (25) sem qualquer intercorrência
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Maquiadora morreu após preenchimento nos glúteos com PMMA, diz B.O
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Chegada à clínica
Segundo os depoimentos, as duas chegaram à clínica, localizada no Brooklin, por volta das 11h10 da segunda-feira (25/5). O procedimento estético foi iniciado minutos depois, às 11h30.
À polícia, Tábita afirmou que aplicou 120 ml de PMMA em cada lado do glúteo e 30ml em cada posterior. As quantidades, somadas, ficariam exatamente no limite médico recomendado, de 300 ml por sessão. Ela também destacou que Roseli já havia realizado o mesmo procedimento há dois anos, com outro médico.
Ainda de acordo com a médica, a operação durou cerca de duas horas e meia, incluindo atendimento, consulta, fotos, análise de exames e o procedimento em si.
Primeiras queixas
Ao final do procedimento, tanto Tábita quanto a filha de Roseli afirmam que a maquiadora aparentava se sentir bem, reclamando somente de dor nas regiões em que a aplicação foi feita. Ela teria, inclusive, lanchado na clínica antes de ir embora por volta das 14h.
Segundo o depoimento de Karla, foi na noite de segunda-feira que a mãe se queixou de mal estar pela primeira vez.
Tábita relatou que, às 21h18, recebeu uma mensagem de Roseli perguntando se poderia tomar um remédio diferente do recomendado pela médica, o que foi autorizado. Ela também tomou um remédio para dormir.
Mal estar se intensificou no dia seguinte
Na manhã desta terça-feira, Roseli chegou a acordar bem, segundo a filha, mas piorou rapidamente a partir das 8h.
“Ela começou a reclamar de mal estar, moleza, disse que estava com o peito chiando, chegou a comentar que achava que ia morrer, que estava sentindo o coração muito acelerado”, relatou Karla em depoimento à polícia.
As duas acionaram a médica, que pediu a elas que fossem novamente até o consultório para uma nova avaliação. O mal estar de Roseli, no entanto, se agravou no trajeto até o local. Em um carro de transporte por aplicativo, ela começou a ficar sem ar e acabou perdendo a consciência.
Foi desacordada que a maquiadora chegou à clínica, por volta das 9h, precisando ser retirada do veículo em uma cadeira de rodas.
Na recepção do edifício, Roseli teve uma parada cardiorrespiratória. Tábita tentou realizar massagem cardíaca antes da chegada do Samu ao local, mas sem sucesso. Ao chegarem, os paramédicos também tentaram a manobra de ressuscitação, novamente sem sucesso.
A morte de Roseli foi constatada às 10h05 desta terça-feira, 23 horas e 5 minutos depois de sua primeira entrada na clínica.
Veja vídeo:
Médica se pronunciou
Em nota ao Metrópoles, a defesa da médica afirmou que o procedimento ocorreu em qualquer intercorrência, que Roseli permaneceu bem e recebeu alta sem queixas.
Tábita afirma que Roseli “somente chegou a sofrer um desmaio durante o trajeto do hotel até a clínica, dentro do Uber”. Ao entrar na recepção do edifício, já desacordada, as manobras de reanimação cardíaca foram iniciadas pela médica e que, em seguida, “acionou o SAMU, esgotando todos os recursos de socorro ao seu alcance”.
A defesa ainda destaca que a investigação está em estágio inicial e não há nenhum laudo que comprove relação entre o procedimento estético e a morte da maquiadora. Tábita se apresentou voluntariamente no 27º Distrito Policial (Campo Belo), prestou depoimento e permanece à disposição da Polícia Civil.
Leia a nota na íntegra:
A defesa da Dra. Tábita Nunes Marcolino Jorge, diante das notícias sobre o falecimento da Sra. Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, esclarece os seguintes pontos:
1. O procedimento estético foi realizado na manhã de ontem (25) sem qualquer intercorrência. A paciente permaneceu bem, conversando, deambulando e, inclusive, lanchou no local antes de receber alta sem queixas. Ela esteve acompanhada pela filha, que testemunhou o seu excelente estado clínico pós procedimento. A Sra. Roseli passou o restante do dia e a noite sem apresentar sintomas.
2. Na manhã de hoje (26), ao ser informada sobre um mal-estar, a médica orientou o comparecimento imediato ao consultório, uma vez que a paciente estava consciente, conversando e deambulando sem dificuldades. Ressalta-se que a paciente somente chegou a sofrer um desmaio durante o trajeto do hotel até a clínica, dentro do Uber. Ao dar entrada na recepção do edifício, já desacordada, a Dra. Tábita iniciou imediatamente as manobras de reanimação cardíaca e acionou o SAMU, esgotando todos os recursos de socorro ao seu alcance.
3. A investigação está em estágio inicial e não há nenhum laudo que comprove relação entre o procedimento estético e o óbito. O registo policial foi feito de forma preventiva para apuração da causa real da morte.
4. A médica apresentou-se voluntariamente no 27º Distrito Policial, prestou depoimento e forneceu os documentos necessários, mantendo-se à total disposição da Polícia Civil.
A Dra. Tábita expressa a sua profunda solidariedade e sentimentos à família neste momento de dor, reforçando o seu compromisso com a verdade e com a apuração técnica dos fatos.
Uso de PMMA
Conforme mencionado anteriormente, o procedimento realizado em Roseli utilizou polimetilmetacrilato, comumente chamado de PMMA. A substância é conhecida por ser aplicada em procedimentos de preenchimento e remodelação corporal. De acordo com a investigação, foi usado o produto em formato de gel e concentração de 30%. A aplicação teria sido feita diretamente na musculatura das regiões.
O boletim também aponta que foram utilizadas cerca de 100 seringas de 3 ml para realizar o procedimento. Em depoimento, a médica Tábita Nunes Marcolino Jorge afirmou que o volume aplicado estaria dentro do limite permitido por sessão e declarou considerar o PMMA um produto seguro.
Segundo a médica, o uso da substância não é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), embora exista recomendação contrária do Conselho Regional de Medicina para aplicações com finalidade estética. Ela também afirmou à polícia que o procedimento realizado seria considerado não invasivo e utilizado para “pequenas correções” corporais.
O que diz a Anvisa
O polimetilmetacrilato é um polímero plástico sintético derivado do petróleo. Como preenchedor, ele é usado em forma de gel, em que microesferas ficam suspensas em solução de colágeno bovino, carboximetilcelulose ou hidroxietilcelulose.
O uso do PMMA é autorizado pela Anvisa apenas para tratamento reparador, em casos de:
- Correção volumétrica facial e corporal, para tratar alterações de volume provocadas por sequelas de doenças como a poliomielite.
- Correção de lipodistrofia, situação em que há concentração anormal de gordura em algumas partes do corpo, provocada pelo uso de medicamentos antirretrovirais em pacientes com HIV/Aids.
A agência reguladora determina que a aplicação deve ser feita por um médico ou odontólogo habilitado. O profissional é o responsável por determinar a quantidade necessária para cada paciente, conforme a Anvisa.
Em janeiro do ano passado, o Conselho Federal de Biomedicina (CFBM) enviou à Anvisa uma recomendação para proibir o uso do polimetilmetacrilato como substância preenchedora. No texto, a autarquia reforça que o uso da substância “pode causar edemas locais, processos inflamatórios, telangiectasias, cicatrizes hipertróficas, reações alérgicas e formação de granuloma. Estas reações podem ser imediatas, mediatas ou tardias”.
Também no documento, o CFBM disse reconhecer a importância do uso do PMMA para o tratamento da lipodistrofia relacionada ao HIV/Aids, mas que hoje existem outras substâncias mais modernas e com melhor perfil de segurança.

