Belo Horizonte – Minas Gerais consolidou-se como um dos principais corredores estratégicos do crime organizado no Brasil. Localizado entre São Paulo, Rio de Janeiro e as rotas de entrada de drogas pelo Norte do país, o estado atrai o interesse do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), que buscam expandir influência sobre o tráfico de cocaína, maconha, armas e lavagem de dinheiro.
O Comando Vermelho avança principalmente pela Zona da Mata (Juiz de Fora, Ubá, Cataguases), Vale do Mucuri (Teófilo Otoni, com forte aliança com a Família Teófilo Otoni – FTO) e Leste do estado (Governador Valadares). Já o PCC mantém presença consolidada no Triângulo Mineiro (Uberlândia), Sul de Minas e Grande Belo Horizonte, utilizando o sistema prisional como base para organização de células.
As duas facções brasileiras foram designadas pelos Estados Unidos como organizações terroristas.
Ambos disputam rotas de suprimento vindas da Amazônia e fronteiras, gerando alianças e rupturas que reverberam em violência urbana.
Guerra por territórios em Belo Horizonte
A ruptura da aliança nacional entre PCC e CV em 2025 acendeu uma guerra aberta por pontos de venda e rotas na capital mineira. O principal palco é o Aglomerado da Serra, a maior favela de Minas Gerais, na região Centro-Sul. Ali, CV, PCC e o Terceiro Comando Puro (TCP) disputam o domínio contra grupos locais menores.
Moradores relatam toque de recolher, pichações intimidatórias, tiroteios frequentes e comunicados de facções impondo regras de circulação (vidros abaixados, faróis baixos).
Outros focos quentes incluem a Vila Cemig (Barreiro), Pedreira Prado Lopes (PPL), Maloquinha e Morro das Pedras. Nessas áreas, as facções impõem “governança criminal”, controlam o varejo de drogas e executam rivais para expandir território.
A Polícia Militar mantém ocupações prolongadas no Aglomerado da Serra para conter o avanço, enquanto a Civil intensifica investigações sobre gerentes do tráfico.
Operações policiais com resultados expressivos
As forças de segurança mineiras responderam com intensidade. Destaque para:
Operação Ícaro III (maio 2026): Considerada a maior ofensiva contra o CV na Zona da Mata. Cumpriu mais de 200 mandados (60 de prisão), bloqueou R$ 8,4 milhões em bens e mirou a hierarquia e controle territorial em ao menos cinco bairros de Juiz de Fora (Nova Era, Dom Bosco, Vila Montanhesa, Vista Alegre e Grama). A ação envolveu MPMG, PM e PC.
Operação Vulcano II (maio 2026): Combateu o comércio ilegal de armas que abasteciam facções em BH e região metropolitana. Cumpridos 56 mandados de busca, 11 prisões, apreensão de 20 armas, 1.400 munições e drogas. A primeira fase já havia retirado 33 armas e mais de 7 mil munições.
Operações na Pedreira Prado Lopes e Aglomerado da Serra: Ações integradas da PM, PC e PF resultaram em dezenas de prisões e retirada de drogas e armamentos das mãos de facções.
A Polícia Federal, por meio das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCO), atua em Governador Valadares e Leste mineiro, focando contrabando de armas e tráfico internacional.
Comparativo de apreensões 2024 x 2025
Os números mostram avanço no enfrentamento. De janeiro a novembro de 2025, a PMMG retirou de circulação mais de 12 mil armas (crescimento expressivo em relação a 2024). A Polícia Civil concluiu 23,4 mil procedimentos por tráfico de drogas, alta de 26,8% comparado a 2024, e incinerou mais de 11,9 toneladas de entorpecentes.
No geral, crimes violentos recuaram 21,2% no período, embora homicídios ligados a disputas faccionadas tenham aumentado em periferias de BH.
O governo de Minas Gerais, sob comando do governador Romeu Zema e vice Mateus Simões, criou grupos de trabalho específicos contra o crime organizado, promoveu ocupações policiais em áreas de risco, suspendeu parcerias suspeitas e investiu em integração entre PM, PC, PF e MPMG. Simões reforçou: “Aqui em Minas, quem manda é o Estado. Enquanto eu for governador, bandido não impõe regra.”
Apesar dos avanços, autoridades reconhecem que o desafio permanece grande, exigindo continuidade de ações integradas e inteligência para evitar que as facções se reestruturem.
A inclusão de PCC e CV na lista de terroristas pelos EUA
Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado americano, sob o governo Trump, designou PCC e CV como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTO), com vigência a partir de 5 de junho. A medida permite congelamento de ativos nos EUA, proibição de qualquer tipo de apoio material (financeiro, logístico ou tecnológico) por americanos ou empresas, e ampliação de cooperação internacional em inteligência e investigações.
O delegado André Santos Pereira, especialista em Inteligência Policial e Segurança Pública, analisa os desdobramentos após recente decisão dos Estados Unidos de incluir o PCC e o Comando Vermelho na lista de organizações terroristas.
“Antes, a cooperação internacional se dava basicamente entre órgãos policiais. Agora, a partir de 5 de junho, essa relação passa a envolver diretamente a polícia americana, a CIA e até o aparato de inteligência e militar dos EUA. Isso traz impactos operacionais, econômicos — com sanções financeiras — e políticos, especialmente num cenário de eleições”, avalia.
Consequências práticas incluem maior dificuldade de lavagem de dinheiro via sistema financeiro internacional, sanções a facilitadores e potencial compartilhamento mais agressivo de informações. O governador Mateus Simões celebrou a decisão: “Os EUA reconheceram o óbvio: PCC e CV são organizações terroristas, não ‘questão social’. Em Minas a gente já trata o crime organizado como precisa ser: polícia na rua e investimento pesado.”
André Santos Pereira pondera sobre os riscos e benefícios da medida americana. Como ponto positivo, ele vê a possibilidade de asfixia financeira das facções e prisão de membros em território norte-americano. No entanto, alerta para os perigos:
“O ponto negativo é a abertura para uma intervenção mais contundente dos EUA, que, em um mundo globalizado, pode gerar impactos econômicos diretos no Brasil. Se não for feito com precisão, pode atingir empresas e instituições brasileiras não ligadas às facções, gerando prejuízos”, adverte o diretor de Estudos da ADEPOL-BR.
Por fim, o delegado faz um alerta sobre o contexto brasileiro e afirma que ainda é muito cedo para tirar conclusões. “Nós estamos, em certa medida, dentro de uma caverna, vendo apenas as sombras do aspecto político. A polarização impede que o brasileiro comum enxergue o verdadeiro jogo por trás dessas decisões. É fundamental trazer o debate para a razão, porque as repercussões dessas medidas vão impactar diretamente a vida de todos nós nos próximos quatro anos”, conclui André Santos Pereira.

