A falta de vida inteligente e bem informada na campanha de Flávio Bolsonaro explica por que ele foi visitar Donald Trump às vésperas do novo tarifaço e do ataque ao Pix, sem que ninguém o advertisse sobre os riscos que correria. Lembra-se da carta enviada por Trump a Lula em julho de 2025, em defesa da suspensão imediata do julgamento de Jair Bolsonaro e dos demais golpistas do 8 de janeiro? Estava lá a determinação de Trump para que o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) começasse a investigar o Brasil pela prática de atos nocivos e em desacordo com os superiores interesses comerciais norte-americanos.
O que chamamos, hoje, de segundo tarifaço de Trump é a conclusão daquela investigação. Embora esperneie — e tem mais é que fazê-lo —, o governo brasileiro não foi pego de surpresa. O setor de exportação tampouco, e sofrerá menos do que se espera, pois se preparou para o que veio. Surpreendido foi Flávio e seus aliados mais próximos.
Flávio saudou o “tarifaço 1”, que poderia ter ajudado seu pai a livrar-se da prisão. O “tarifaço 2”, no entanto, atingiu em cheio a sua candidatura, a ponto de estar sendo chamado de “Tariflávio”. Daí a sua agonia. Oito em cada dez mensagens opinativas sobre o assunto, trocadas nos mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram monitorados pela Palver, empresa de análise de dados, apontam Flávio como culpado pelas ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço.
O monitoramento cobre o período de 27 de maio a 2 de junho. Flávio reuniu-se com Trump no dia 26 de maio, e o “Tariflávio” é de 1º de junho. Segundo o relatório da Palver, as publicações predominantes acusam o senador e a família Bolsonaro de “traição à pátria” e de alinhamento a interesses estrangeiros, além de descrever a ofensiva americana como um ataque a uma conquista da população brasileira. Esse discurso repetido nas mensagens é semelhante ao que tem sido adotado por Lula em suas manifestações públicas.
Entre as mensagens que isentam Flávio, três linhas de argumentação se destacam: a classificação das acusações como desinformação ou manobra política da esquerda; a negação de risco concreto ao Pix; e a defesa de que a atuação do senador nos Estados Unidos mirava o combate ao crime organizado. Essa última vertente também critica o governo Lula por reagir às medidas americanas e usar o tema para desgastar Flávio.
O que é bom para os Estados Unidos não é necessariamente bom para o Brasil, ao contrário do que disse nos anos 1960 Juracy Magalhães, embaixador do Brasil em Washington à época do governo do general-presidente Humberto Castelo Branco, o primeiro da ditadura militar. A subserviência dos Bolsonaro a Trump poderá ser uma das razões da provável derrota de Flávio em outubro próximo.
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