Já escrevi um primeiro texto sobre a impressionante — dadas as confissões que fez e a quantidade de bobagens que falou — entrevista de Eduardo Bolsonaro a TMC 360 na quarta passada. E anunciei que voltaria ao assunto, com a transcrição de um novo trecho. Eduardo, o pensador da família — Flávio, como se sabe, cuida do caixa, e Carlos, das coisas que não são exatamente deste mundo… “E Jair Renan?” Esse é o formulador de uma nova gramática para os “cidadões” e um dia vai revolucionar a retórica da afasia ideológica. Adiante.
Eduardo explicou como será a política externa se Flávio for eleito. Observei no texto anterior que ele estava absolutamente à vontade, certo de que não haveria contradita e, portanto, tinha a enfrentar apenas o seu adversário mais poderoso: o próprio… Eduardo. Vamos acompanhar.
BRASIL, EUA E CHINA
“Nós atuaremos com pragmatismo. Sabe qual é o maior parceiro comercial dos Estados Unidos? É a China! O Brasil não tem que chegar nessa briga de cachorro grande, que não é a disputa brasileira, tomar o lado de um ou de outro. É claro que o Brasil tem muito mais laços, tradicionalmente, com os Estados Unidos, que sempre foi (sic) o nosso principal parceiro econômico, parceiro comercial. Só deixou de sê-lo a partir de 2009, quando, no segundo governo Lula, a China ultrapassou os Estados Unidos. Então, se nós deixarmos a coisa se desenvolver de maneira natural, é claro que a gente vai aproveitar muita potencialidade que está do lado americano. E, hoje em dia, não é [assim] por razões ideológicas. O Lula escolhe a China por razões ideológicas e não por razões comerciais ou razões de interesse dos brasileiros.
O QUE DIZEM OS FATOS
Embora fale em “pragmatismo”, tem discurso hostil à China, a exemplo de Flávio no discurso que fez na tal Cepac, aquela reunião de reaças no Texas. Os EUA foram os principais parceiros comerciais do Brasil (exportações e importações somadas) entre 1920 e 2008 e deixaram de ser, mas isso não foi uma escolha nossa. Deveu-se à ascensão do gigante asiático, que, como ele reconhece, tem esse papel também com os norte-americanos.
Eduardo mente. Nada há de ideológico nessa relação.
Estão preparados para desmoralizar um mentiroso? Vamos lá. Foi justamente durante o governo do seu pai que a China teve um papel muito maior no superávit brasileiro com o mundo. Atentem para os números:
2019: a China respondeu por 83% do nosso superávit;
2020: 65%;
2021: 48%;
2021: 47%.
O peso dos chineses nos três primeiros anos de governo Lula foi de, respectivamente, 51%, 41% e 42,6%. Vai ver o Mito dos Cretinos é um agente chinês infiltrado…
Bolsonaro comandou o país por dois anos tendo Trump como presidente dos EUA: o déficit com aquele país em 2019 foi de US$ 525 milhões e de US$ 8,33 milhões em 2020. Saltou para US$ 1,1 bilhão em 2021 e explodiu para US$ 13,9 bilhões em 2022.
O rapaz fala a cretinice que lhe der na telha na certeza de que não será contestado. Sigamos com ele.
BOBAGENS CONTRA A CHINA
“O que um presidente estadista tem que fazer? Tem que sentar e conversar com ambos os países. A gente não vai cortar comércio com nenhum desses dois, e todos que quiserem investir no Brasil ou quiserem trazer suas empresas para gerar emprego aqui, com mão de obra brasileira. Não é o que a China está fazendo. Porque a China, ela bota o seu capital, abre fábricas, como por exemplo a BYD na China [DEVE TER SE CONFUNDIDO, QUERENDO DIZER “BAHIA”], coloca empresários chineses, lucra e depois reverte esse lucro a favor da China. Aí não! Aí o Brasil não fica com dinheiro e nem com a mão de obra. Aí é tratamento quase como a de colônia. Isso porque eu não tou entrando nem na questão dos direitos trabalhistas, que são, né?, segundo o Ministério Público do Trabalho… Tem muita coisa ali acontecendo na Bahia, análoga à escravidão. Então, o que nós queremos é trazer sempre o melhor aspecto para o brasileiro.”
O QUE DIZEM OS FATOS
Eduardo é, sem dúvida, o “pensador” da família. E também é aquele que consegue contar mentiras formidáveis com um pedacinho ou outro de verdades — além das falácias até um tanto óbvias — e omissões escandalosas.
Com efeito, o Ministério Público do Trabalho autuou a BYD de Camaçari, na Bahia, em razão de condições de trabalho de 169 chineses que julgou inadequadas. Mas atenção! A empresa emprega diretamente 3.700 brasileiros, segundo as regras da CLT, e há outros 3.700 terceirizados, dado o balanço mais recente. Todos de acordo com a legislação trabalhista do Brasil.
Chega a ser piada assistir a um Bolsonaro a defender, ora, ora, os direitos trabalhistas, Justo eles, que defendem a desregulação total do trabalho. Faz sentido: trata-se de uma dinastia de não trabalhadores… Sigamos.
O Brasil foi o principal destino de investimentos diretos chineses no ano passado. Não é surpresa. O país ficou em terceiro lugar no ranking mundial em 2025, atraindo US$ 77 bilhões, com crescimento de 22%. Mais um pouquinho: o México fica à frente do Brasil como destino dos investimentos diretos dos EUA em razão da proximidade geográfica daqueles dois países. Quando se consideram os aportes de multinacionais de origem norte-americana aqui instaladas, eis que saltamos para a primeira e inconteste posição.
AQUELA CARTA DE TRUMP
Como é? A China faz investimentos efetivos no Brasil. São dados técnicos. Quem passou a exigir que o Brasil transferisse fábricas para os EUA foi Trump na carta enviada a Lula no dia 9 de julho do ano passado, aquela em que exigia a suspensão do processo contra Bolsonaro, impondo-nos tarifas adicionas de 50%. Escreveu:
“Por favor, entenda que os 50% são muito menos do que seria necessário para termos igualdade de condições em nosso comércio com seu país. E é necessário ter isso para corrigir as graves injustiças do sistema atual. Como o senhor sabe, não haverá tarifa se o Brasil, ou empresas dentro do seu país, decidirem construir ou fabricar produtos dentro dos Estados Unidos e, de fato, faremos tudo o possível para aprovar rapidamente, de forma profissional e rotineira — em outras palavras, em questão de semanas.”
É para esse cara que Eduardo e sua família tocam flauta. Sigamos com o valente.
VALOR AGREGADO
“Eu quero que o agro continue vendendo para China. Eu quero comercializar minerais com os Estados Unidos e, sempre que possível, agregando valor. Por exemplo, do agro: por que a gente manda sempre o grão de soja ‘in natura’ para China? Por que que a gente não tem uma política de Estado que incentive a gente a trazer o maquinário para fazer…, para esmagar a soja e, dali, fazer o óleo, fazer o farelo, fazer outros produtos e abrir um leque de possibilidades para comercializar esses produtos com cerca de 100 países pelo mundo? Porque quem compra soja bruta do Brasil é só um: é só a China. Se a gente conseguir agregar valor ao nosso produto, a gente vai abrir um leque para 100 países, e muito mais dinheiro vai entrar no Brasil porque é produto agregado (sic). É muito mais caro o óleo, o produto processado do que o grão ‘in natura’.”
O QUE DIZEM OS FATOS
Santo Deus! Ele quis dizer “valor agregado”, não “produto agregado”. Se a gente tira a relação que ele estabeleceu num pântano de mentiras, tem-se uma verdade: ganha-se mais vendendo óleo do que grão. Desde que se se produza o óleo e que exista mercado para ele, sem deixar de vender o produto “in natura” quando há compradores.
O governo que ele contesta se atreveu a fazer um tanto de “política industrial” com o programa Nova Indústria Brasil (NIB), sob o comando de Geraldo Alckmin. Até o fim de 2026, o programa terá mobilizado a fabulosa quantia de R$ 653,2 bilhões.
“Ah, isso é conversa do Reinaldo, que aprova esse governo”. SIM! APROVO! Mas acreditem, então, na Confederação Nacional da Indústria se não querem acreditar no Tio (os dados aqui). Até 2029, estão previstos R$ 546,6 bilhões para projetos agroindustriais sustentáveis, com participação central do espetacular BNDES. As pessoas têm direito às próprias opiniões, mas não aos próprios fatos.
Isso tudo que Eduardo disse que precisa ser feito, ora vejam!, está sendo feito. E sabem quais são os principais críticos do programa? Justamente os economistas de extrema direita que apoiam a candidatura de seu irmão e que julgam que política industrial é um horror de país atrasado e que não veem mal nenhum em que a indústria vá à breca.
Esse embusteiro defende o que já está em curso como algo a ser feito. E fiquem certos: caso seu irmão vença a eleição, o país volta ao tempo do pau brasil… As riquezas nacionais serão rendidas ao colonizador. Mais um pouco com “Eduardo Pensador”.
MINERAIS CRÍTICOS
“Da mesma maneira, o mineral que os Estados Unidos estão pagando muito acima do preço de mercado, as chamadas terras raras. Por que a gente vai vender terras raras ‘in natura’ e não vai, né?, tirar proveito dessa disputa entre Estados Unidos e China e trazer a tecnologia americana ou mesmo chinesa para fazer a separação desses minerais, que é o que tem de mais importante nesse assunto de terras raras?
Quando você separa e consegue ter o refino desses minerais, você comercializa ele com vários países, mas também até com os Estados Unidos, agregando mais valor a esses metais preciosos. Então, essa é a visão que a gente tem que ter enquanto país. É a visão que fez o Brasil nos anos 70 e 80 saltar da 48ª a 9ª economia do mundo, para a nona economia do mundo”.
O QUE DIZEM OS FATOS
Grande pensador! Com menos confusão mental, é precisamente o que fez o governo brasileiro, que apoiou o texto do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) na Câmara, que instituiu a “Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE)”, com um aporte público de R$ 5 bilhões. Até o PL de Eduardo apoiou, é verdade, mas os “lobbies”, inclusive os dos EUA de Trump — o Deus do Zero Três — se opuseram porque viram a ameaça do estatismo. O Senado ainda não votou.
Alô, economistas de extrema direita” Vocês não acham que Eduardo anda um tantinho nacional-desenvolvimentista??? Vocês sabem que nem sabe o que é isso. Está falando qualquer coisa para fugir do coice do cavalo negro, do “azarão”…
ENCERRO
Essa gente nada tem a dizer sobre o Brasil, e seu discurso se sustenta em mentiras fabulosas e em omissões intelectual e politicamente dolosas. E só prospera quando não é confrontado pelos fatos e pela luz do sol.
Na condição de “pensador” do bolsonarismo, a gente vê que Eduardo está cheio de ideias boas e novas para o Brasil. As boas não são novas, e a novas não são boas.



