Todos os dias, TODOS os dias, na metropolitana cidade de São Paulo, uma bela e insone escritora recebe mensagens de jovens rapazes medianamente bem-apessoados. Nem todos serviriam ao deleite sexual da bela e insone escritora –a maioria é meio impegável–, mas digamos que uns 10% sejam bem factíveis e poderiam entretê-la.
E o que eles querem? Eles querem enviar seus livros. TODOS OS DIAS homens querem me enviar seus livros. E hoje decidi dar um basta a essa gentileza tão aviltante. Não dá mais para viver sendo alvo de tanta cortesia afrontosa.
O feminismo precisa dar um jeito nisso. Eu não suporto mais a quantidade enorme de homens que me procuram cheios de dedos no sentido figurado. Elogiam, se desculpam, são formais e, de repente, põem pra fora: um PDF de livro.
É o assédio não sexual? É o assédio não moral? É o abuso letral? É o abuso laborial? É o mansbooking? É o workinterrupting? Que nome daremos a essa desgraça que me acomete?
Um ex-namorado belíssimo dos meus trinta anos me procura. Está em São Paulo e PRECISA me encontrar. Esta jovem senhora promove intensa depilação em partes que eu só alcanço porque tenho frouxidão ligamentar. Enceno um particular e destrambelhado Cirque du Soleil entre mim e minha Gilette. Ele me espera sentadinho no restaurante. Segue absolutamente charmoso, e eu já planejo pedir só uma salada para não inchar demais (não estou usando a calcinha que segura a barriga). Então ele tira da mochila a pior ofensa de todas: seu livro de poesia. A merda do seu livro de poesia. Francamente, Deus, se ajudo tantas instituições, por que me negligencias?
Eu não suporto mais os mesmos tipos, aquela beleza meio formado em ciências sociais, meio de boas curtindo o Caetano no telão. Me adicionam. Vejo as fotos e seleciono os que exibem cachos morenos bagunçados sobre os olhos e batatas da perna que indicam que vai tudo muito bem com o retorno sanguíneo. Bocas de tamanho adequado para variados encaixes.
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Pois então vamos lá, meninos. O que querem de mim neste despertar de uma quarta nublada? Querem me enviar as cacetas de suas obras. Que obras, anjo? Querem uma opinião, uma indicação. Meu amor, eu nem li, nem lerei, mas a minha opinião é que tá ruim. Tá péssimo. MELHORE.
Eu não suporto mais a quantidade indecente de rapazes que me olham com suas adorações sem pau. O que aconteceu com o mundo (ou será meu algoritmo?), que ficou tão asséptico, chato e abarrotado de finalistas de prêmios desconhecidos precisando-querendo-necessitando… que uma mulher os leia?
Com esta crônica eu gostaria de pedir que você pegue seu livro e enfie naquele lugar que você bem sabe qual é: um envelope pardo. Envie para as editoras. Envie para mais alguns desses prêmios que não vão mudar sua vida em nada. E, a partir de hoje, sê um homem decente: vá lá nas minhas fotos e meta um foguinho e uma berinjelinha. Talvez, depois de um tempo de flerte escancarado e libidinoso, eu possa suportar a sua demanda tediosa e você seja classificado para o distinto hall dos que me abordam com cerimônia, impessoalidade, a caceta de um livro, e recebem uma resposta com uma caixa postal. Mas, antes, batalhe por merecer sua conduta respeitosa e ponderada.
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