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Fifa tem histórico de relação próxima com governos autoritários


A partir do momento em que a bola rola em uma Copa do Mundo, o torneio se torna o centro das atenções. No entanto, ao longo da história, o torneio mais importante do futebol também serviu como vitrine política para governos interessados em transformar a paixão pelo esporte em instrumento de legitimidade, projeção internacional e construção de narrativas nacionais. 

Nesse processo, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) acumula um histórico de convivência e, em muitos momentos, de proximidade, com regimes autoritários e líderes acusados de violações de direitos humanos.

Da Itália fascista de Benito Mussolini, em 1934, à Argentina da ditadura militar, em 1978, passando pela Rússia de Vladimir Putin, pelo Catar e, mais recentemente, pela Copa de 2026 sob forte influência política dos Estados Unidos de Donald Trump, a entidade frequentemente optou por manter ou ampliar seus negócios mesmo diante de denúncias envolvendo repressão política, censura, perseguições e restrições às liberdades civis.

Embora a Fifa afirme que o futebol deve permanecer separado da política, sua própria trajetória mostra que a escolha das sedes e a relação com chefes de Estado frequentemente ultrapassam o campo esportivo.


Futebol como ferramenta de poder


Mussolini e a Copa de 1934

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na Itália fascista em 1934, durante a segunda edição da Copa do Mundo, que ocorreu sob o comando de Benito Mussolini.

O ditador transformou o torneio em uma peça central da propaganda do regime. O governo investiu recursos elevados na organização e utilizou a conquista italiana para reforçar o discurso de superioridade nacional e exaltar o fascismo perante o mundo.

Relatos históricos apontam que a competição foi cercada por forte interferência política e suspeitas sobre a arbitragem, enquanto o próprio presidente da Fifa à época, Jules Rimet, admitiu posteriormente ter a impressão de que o torneio havia sido organizado muito mais pelo governo italiano do que pela entidade esportiva.

A Copa em meio ao terror argentino

Décadas depois, outro Mundial tornou-se símbolo da convivência entre futebol e autoritarismo.

A Argentina foi escolhida para sediar a Copa de 1978 ainda em 1966, quando o país vivia um governo democrático. Entretanto, sucessivos golpes militares culminaram, dois anos antes do torneio, na instalação da ditadura comandada pelo general Jorge Rafael Videla.

Enquanto milhares de argentinos eram presos, torturados ou desapareciam nos centros clandestinos de detenção, o governo enxergou o torneio como oportunidade de projetar ao exterior uma imagem de estabilidade e normalidade.

A realização do torneio chegou a ser contestada internacionalmente. Organizações de direitos humanos, jornalistas e movimentos políticos defenderam o boicote da competição, sobretudo na Europa. Apesar da pressão, a Fifa manteve o Mundial normalmente.

Os relatos da época mostram o contraste entre a festa dentro dos estádios e a violência do regime.

O principal centro de tortura da ditadura, a Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA), funcionava a poucos quilômetros do Estádio Monumental de Núñez, palco da final da Copa.

O campeonato também permaneceu marcado pelas suspeitas envolvendo a vitória argentina por 6 a 0 sobre o Peru, resultado que garantiu aos anfitriões a vaga na decisão.

Até hoje não existem provas conclusivas de manipulação, no entanto, o episódio tem lugar reservado na prateleira das maiores controvérsias da história das Copas do Mundo.

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Infantino e Trump
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Infantino e Trump

Arte Metrópoles/Gabriel Lucas

Líder alemão Hitler e líder italiano Mussolini
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Líder alemão Hitler e líder italiano Mussolini

Reprodução

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, oficializou a nova parceria entre a entidade máxima do futebol e o Conselho da Paz
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O presidente da Fifa, Gianni Infantino, oficializou a nova parceria entre a entidade máxima do futebol e o Conselho da Paz

Chip Somodevilla/Getty Images

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Modus operandi

O relacionamento da entidade com governos autoritários não ficou restrito ao século 20.

Em 2018, a Copa foi realizada na Rússia, já sob críticas internacionais ao governo de Vladimir Putin por perseguição a opositores, controle da imprensa, restrições à comunidade LGBTQIAPN+ e concentração de poder político.

Na ocasião, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu repetidamente o país-sede e classificou o torneio como “a melhor Copa do Mundo de todos os tempos”.

Após a competição, recebeu do líder do Kremlin, a Ordem da Amizade da Federação Russa, uma das mais altas honrarias concedidas pelo governo russo.

Quatro anos depois, o Catar sediou o primeiro Mundial realizado no Oriente Médio.

Desde o anúncio da escolha, organizações internacionais denunciaram as condições de trabalho dos migrantes responsáveis pela construção da infraestrutura da competição, além das restrições impostas às mulheres, à população LGBTQIAPN+ e à liberdade de expressão.

Apesar das críticas, a Fifa manteve o torneio sem alterar a sede e chegou a impedir manifestações de jogadores durante a competição, como o uso da braçadeira “One Love”, em apoio à diversidade.

Na véspera da abertura do Mundial, Infantino protagonizou uma das entrevistas mais controversas de sua gestão ao defender o país anfitrião e afirmar que se sentia “catariano”, “árabe”, “africano”, “gay” e “trabalhador imigrante”.

A Copa de 2026 e o “DNA dos Estados Unidos”

A atual edição, que é sediada em 75% em território norte-americano, reacendeu esse debate sob uma perspectiva diferente.

Embora o torneio seja oficialmente organizado por Estados Unidos, Canadá e México, aproximadamente três quartos das partidas acontecem em território norte-americano, tornando o país o principal protagonista da competição.

A proximidade entre Gianni Infantino e Donald Trump passou a chamar atenção nos bastidores do futebol internacional. O dirigente afirmou publicamente que seria “impossível” organizar a Copa sem o apoio do republicano  e, nos últimos anos, intensificou aparições ao lado do estadunidense.

Diferentemente de outras edições, desta vez, foi a Fifa quem se adaptou às regras do país anfitrião.

A entidade aceitou operar sob rígidas políticas migratórias impostas pelos Estados Unidos, enquanto casos envolvendo restrições de entrada no país passaram a repercutir durante a competição.

Um dos episódios mais simbólicos envolveu o árbitro somali Omar Artan, impedido de entrar nos Estados Unidos após horas de interrogatório e posteriormente deportado. A reação da Fifa limitou-se a classificar o episódio como “lamentável”.

A seleção do Irã também enfrentou dificuldades logísticas diante das tensões diplomáticas entre Washington e Teerã, sendo obrigada a instalar sua base no México e realizar deslocamentos específicos para disputar as partidas nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o Mundial incorporou características típicas do mercado esportivo norte-americano, como a adoção ampla do sistema de preços dinâmicos para ingressos e a criação de um mercado oficial de revenda administrado pela própria Fifa, tornando a edição de 2026 a mais cara da história para os torcedores.

A preferência da Fifa

Críticos observam que essa relação entre a Fifa e governos altamente centralizados não ocorre por acaso.

Em 2013, o então secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, afirmou que “menos democracia às vezes é melhor para organizar uma Copa do Mundo”, argumentando que governos com maior concentração de poder conseguem tomar decisões mais rapidamente, sem enfrentar longos processos legislativos, disputas judiciais ou resistência política.

A declaração sintetizou uma percepção recorrente entre pesquisadores: países com menor controle institucional frequentemente conseguem atender com mais facilidade às exigências da entidade, como isenções fiscais, grandes investimentos públicos, alterações legislativas e obras de infraestrutura em ritmo acelerado.

Direitos humanos x interesses comerciais

Desde 2017, a própria Fifa possui uma Política de Direitos Humanos que prevê a adoção de critérios para identificar, prevenir e mitigar impactos negativos relacionados às competições organizadas pela entidade.

Na prática, porém, organizações internacionais afirmam que esses compromissos nem sempre são aplicados.

A Human Rights Watch, por exemplo, acusa a Fifa de ignorar seus próprios critérios ao conduzir os processos que resultaram na escolha das sedes das Copas de 2030 e 2034.

Segundo a entidade, a falta de transparência e de diligência sobre direitos humanos abre espaço para que governos acusados de graves violações utilizem o futebol como instrumento de legitimação internacional.



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