Belo Horizonte – O assassinato a facadas do advogado Cláudio Atala Inácio, de 75 anos, e da empresária aposentada Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76, transformou um edifício de alto padrão, no bairro São Pedro, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, em cenário de um dos crimes mais violentos registrados na capital mineira neste ano.
“Às 9h30 da manhã de segunda-feira (29/6), o filho entra em contato com o pai e o convida para ver o jogo da seleção. Um pouco mais tarde, o cunhado liga por volta de 12h35, também, o convidando e a vítima fala que não vai poder ver o jogo porque tem uma diarista na casa e como era a primeira vez dela na residência, ele (e a esposa) não tinham confiança plena em deixar ela sozinha na casa”, explicou o delegado Gustavo Barletta.
Mortos a golpes de faca dentro do apartamento onde viviam havia cerca de duas décadas, o casal foi encontrado na tarde de terça-feira (30/6) pelo filho, Felipe Atala Inácio, que entrou no apartamento utilizando a chave da família e encontrou os pais mortos.
Em pouco mais de 24 horas, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) conseguiu identificar a principal suspeita, reconstruir parte do caminho percorrido após o crime, recuperar objetos furtados e reunir elementos que reforçam a hipótese de latrocínio — roubo seguido de morte.
Apesar dos avanços, a mulher de 30 anos continua foragida – com o filho de 6 anos – e investigadores ainda tentam responder perguntas fundamentais sobre a dinâmica do crime e a possível participação de outras pessoas.
Um crime planejado ou uma oportunidade?
A principal linha de investigação da Polícia Civil aponta para um latrocínio.
“Extrema barbárie e violência a forma como os dois idosos foram assassinados […] A senhora tinha sete facadas no corpo e o homem tinha 17 facadas. Isso por si só já denota o quão intencionada essa autora estava em ceifar a vida dos dois para poder praticar a subtração. E é isso que faz caracterizar o crime de latrocínio, quando você mata a vítima para poder subtrair o bem”, explicou o delegado Felipe Freitas.
Segundo os investigadores, joias, relógios, celulares e outros objetos foram levados do apartamento. Parte desses bens foi localizada durante diligências realizadas nesta quarta-feira (1º/7), enquanto outros chegaram a ser vendidos na região central de Belo Horizonte.
A suspeita entrou no prédio por volta das 7h30 para trabalhar como diarista e permaneceu no imóvel por cerca de oito horas. As imagens das câmeras de segurança mostram que ela deixou o edifício usando roupas diferentes das que vestia ao entrar, carregando duas sacolas grandes e uma bolsa reconhecida pela família como pertencente a Maria Clotilde.
Para a polícia, a sequência dos fatos indica que o objetivo principal era patrimonial. Ainda assim, outras linhas investigativas permanecem abertas até que todos os elementos sejam esclarecidos.
A violência que chocou até investigadores
A cena encontrada pelos policiais impressionou até mesmo investigadores e delegados experientes do Departamento Estadual de Investigação de Crimes Contra o Patrimônio (Depatri).
“Foi um crime muito violento, bárbaro, que aterrorizou nossa cidade. Dois idosos vitimados por essa moça que é diarista. A cena era grotesca, muito sangue, extrema barbárie e violência”, afirmou o delegado Felipe Freitas durante entrevista coletiva concedida após o sepultamento das vítimas.
Segundo os delegados Felipe Freitas e Gustavo Barletta, os indícios apontam que o casal provavelmente dormia quando os ataques começaram.
“Muito provavelmente as vítimas não tiveram chance de reação”, afirmou Freitas.
A perícia trabalha com a hipótese de que Maria Clotilde tenha sido atacada na sala e Cláudio no quarto. Até o momento, porém, não é possível determinar quem foi a primeira vítima.
Após exames realizados no Instituto Médico-Legal (IML), familiares foram informados de que Cláudio sofreu 17 golpes de faca, enquanto Maria Clotilde foi atingida por 7.
As facas podem ter sido da própria casa
Outro detalhe chamou a atenção da investigação. Segundo a Polícia Civil, há fortes indícios de que a autora não levou a arma utilizada para o crime. A suspeita é que as facas usadas pertenciam ao próprio apartamento.
“A gente acredita que é uma faca da própria casa. Todas estavam lavadas, mas como ela teve tempo de tomar banho…”, explicou um dos investigadores durante a coletiva.
O fato reforça a hipótese de que a suspeita permaneceu longo período dentro do imóvel após os assassinatos, limpando vestígios, trocando de roupa e organizando a fuga.
O rastro deixado pela suspeita
As diligências realizadas pela Polícia Civil permitiram reconstruir parte do trajeto percorrido após o crime.
Em cenário de um dos crimes mais violentos registrados na capital mineira neste ano. foram encontradas roupas com manchas de sangue, entre elas uma blusa branca – utilizada pela diarista assim que chegou para trabalhar -, além de um par de meias, uma bolsa e uma caixa de relógios, levados do apartamento.
Já os celulares do casal foram localizados em um lote vago em Vespasiano no final da tarde desta quarta-feira (1º/7). Os aparelhos estavam embrulhados em papel alumínio, técnica normalmente utilizada para dificultar o rastreamento dos dispositivos. “Nós recebemos uma denúncia que disse onde os telefones estavam jogados”, disse Freitas.
Os investigadores também confirmaram que parte dos relógios e joias foi vendida pouco tempo depois na região central de Belo Horizonte.
A fuga e a suspeita de um comparsa
Embora a autoria já esteja identificada para a Polícia Civil, a investigação ainda tenta descobrir se a diarista agiu sozinha.
Imagens de câmeras de segurança mostram um carro de alto padrão aguardando próximo à caçamba onde objetos foram descartados. “Ficou ali cerca de 15 minutos. Duvido que um carro de aplicativo espere 15 minutos o passageiro…”, questionou o delegado.
Para os investigadores, esse detalhe fortalece a hipótese de participação de outra pessoa, ainda não identificada. Mesmo que ninguém tenha entrado no apartamento durante os assassinatos, a polícia acredita que outras pessoas podem ter auxiliado na ocultação de provas, no transporte dos objetos furtados ou na fuga.
Dívidas e possível motivação financeira
Outro elemento investigado envolve a situação financeira da suspeita. Segundo o delegado Felipe Freitas, familiares relataram que ela acumulava dívidas e que parentes chegaram a levantar cerca de R$ 40 mil para quitar débitos com agiotas.
Ainda conforme a Polícia Civil, ela foi descrita pelos familiares como emocionalmente instável e com histórico de depressão. Os investigadores, no entanto, evitam estabelecer relação direta entre essas informações e o crime antes da conclusão do inquérito.
Como ela chegou ao casal?
A diarista foi indicada por um parente muito próximo do casal e a polícia descarta qualquer tipo de envolvimento no crime. “Esse fato criminoso foi ideia dessa pessoa sem qualquer participação da pessoa que indicou pra trabalhar.”, frisou Gustavo Barletta. Segundo o delegado, a diarista foi indicada na sexta-feira (26/6).
“A pessoa que indicou está emocionalmente destruída […] Ele (um idoso) disse que preferia ter morrido no lugar. Está se culpando a todo momento […] Disse que foi o pior dia da vida dele ter indicado essa algoz”, relatou o delegado.
Barletta ainda ressaltou que a diarista trabalhava para o parente das vítimas há mais de um ano e que nunca havia acontecido nenhum problema. Esta foi a primeira vez que a mulher foi à casa das vítimas e que pela data da indicação, muito provavelmente não tenha sido um crime premeditado.
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Uma mudança que nunca aconteceu
O casal estava prestes a iniciar uma nova etapa da vida.
O apartamento onde viveram por aproximadamente 20 anos já havia sido vendido, e a mudança para uma casa no bairro Serra, também na região Centro-Sul da capital, estava prevista para ocorrer dentro de duas ou três semanas.
Cláudio continuava trabalhando diariamente no escritório de advocacia fundado por ele em 1995.
O que ainda falta descobrir
Apesar da rápida identificação da principal suspeita, diversas perguntas permanecem sem resposta:
- A diarista planejou o crime sozinha ou recebeu ajuda?
- Quem dirigia o carro de alto padrão que a aguardava após o crime?
- Houve participação de receptadores na venda das joias e relógios?
- Qual foi exatamente a sequência dos assassinatos?
- Para onde a suspeita fugiu após deixar Ribeirão das Neves?
Segundo a Polícia Civil, as diligências continuam de forma ininterrupta. Embora ainda não exista mandado de prisão expedido, os investigadores informaram que, enquanto as buscas estiverem em andamento, a mulher poderá ser presa em flagrante. Caso ela não seja localizada, será solicitado à Justiça o decreto de prisão preventiva.
A suspeita teria informado à tia que viajaria para o Espírito Santo levando o filho de seis anos. Desde então, não foi mais localizada.
Enquanto a polícia tenta encontrá-la, familiares aguardam respostas para um crime que destruiu uma família e chocou Belo Horizonte pela violência e pela frieza da execução.




