Há quem diga que o futebol é nada mais do que um jogo. Noventa minutos, uma bola, um placar e milhões de opiniões. De vez em quando, porém, a vida invade o gramado e lembra que, por trás da camisa de uma seleção, existe alguém que também sente medo, insegurança e amor. Marc Cucurella é um desses casos.
O lateral da seleção da Espanha ficou conhecido pelo cabelo comprido, pela intensidade em campo e pela personalidade inquieta. Mas foi longe dos estádios que viveu o maior desafio da carreira. O filho mais velho, Mateo, foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista. E, como acontece com tantas famílias, o diagnóstico não trouxe todas as respostas. Trouxe dúvidas, adaptações e um aprendizado diário.
Em entrevistas, Cucurella contou que houve momentos em que o filho chorava ao ir para a escola e que ele e a esposa simplesmente não sabiam como ajudá-lo. É uma frase que atravessa qualquer pai ou mãe. Porque, diante do autismo, ninguém recebe um manual. Existe apenas o exercício diário de aprender, amar e compreender o novo mundo.
Talvez por isso uma de suas decisões mais importantes tenha passado quase despercebida. Ao negociar a mudança de clube, o jogador colocou uma condição que nada tinha a ver com salários ou títulos. Antes de assinar contrato, quis saber se a cidade oferecia escolas e atendimento adequados para o filho. O futebol podia esperar. A infância de Mateo, não.
Há também um detalhe que parece pequeno, mas diz muito. Cucurella revelou que evita prender o cabelo porque essa é uma das formas de o filho identificá-lo rapidamente durante as partidas. Enquanto milhões de torcedores enxergam um estilo marcante, um menino vê um ponto de referência. Um sinal de segurança. O pai continua ali.
Vivemos um tempo em que ainda se fala pouco sobre o autismo fora das campanhas de conscientização. Muitas famílias enfrentam preconceito, falta de informação e uma rotina exaustiva de terapias, consultas e adaptações. Quando um atleta da dimensão de Cucurella escolhe compartilhar essa experiência, ele ajuda a naturalizar uma conversa que precisa acontecer todos os dias.
O futebol costuma celebrar gols, títulos e recordes. Mas existem vitórias que são conquistadas dentro de casa, quando um pai aprende a enxergar o mundo pelos olhos do filho.


