Os líderes em intenção de voto à Presidência têm adotado uma espécie de “estratégia cruzada” para definir a participação nos debates eleitorais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda avalia quais convites aceitará, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) sinaliza que pretende subir ao palco apenas nos encontros em que o petista estiver presente.
A discussão ocorre às vésperas do início oficial da campanha, em 16 de agosto. Até o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, serão apenas 49 dias de campanha. Nesse cenário, estrategistas e marqueteiros consideram que os debates em TV aberta podem ampliar a exposição dos candidatos e ajudar a consolidar votos, sobretudo entre eleitores indecisos.
Apesar disso, a avaliação predominante nos dois principais comitês é que os debates também podem ampliar desgastes. Em ambas as campanhas, a presença dos candidatos é tratada como uma decisão estratégica, com potencial para gerar riscos e oportunidades.
No entorno de Flávio Bolsonaro, a orientação é evitar os debates caso Lula decida não comparecer. Auxiliares do senador avaliam que, sem o presidente no palco, o candidato do PL concentraria os ataques dos adversários e teria de responder sozinho às críticas, sem a possibilidade de confrontar diretamente o principal concorrente na disputa.
A preocupação aumentou após uma série de crises enfrentadas por Flávio durante a pré-campanha. Embora aliados considerem que parte dos desgastes tenha sido contornada, integrantes da campanha avaliam que os debates podem reacender temas sensíveis para o senador, como a relação dele com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, além de episódios envolvendo a família Bolsonaro, como o caso das rachadinhas.
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do Metrópoles
Na avaliação desse grupo, a ausência de Lula faria com que esses assuntos ganhassem ainda mais espaço.
A estratégia representa uma mudança em relação ao planejamento inicial da campanha. Nas primeiras discussões, a intenção era que Flávio participasse de todos os debates. O cenário mudou com o aumento das críticas de adversários, especialmente Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), que disputam uma parcela semelhante do eleitorado de direita.
Datafolha: Lula tem vantagem sobre Flávio
- Lula tem 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% de Flávio Bolsonaro.
- No segundo turno, o petista aparece com 48%, enquanto Flávio tem 43%.
- Em relação à pesquisa anterior, Lula oscilou de 47% para 48%; Flávio manteve os mesmos 43%.
- O resultado indica um cenário estável, apontando para uma estagnação do senador do PL e um leve avanço de Lula dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais.
- A pesquisa foi divulgada na sexta-feira (24/7).
- O Datafolha ouviu 2.004 eleitores em 139 municípios, nos dias 22 e 23 de julho. O nível de confiança é de 95%.
Indefinição também atinge Lula
No PT, a decisão também está em aberto. Integrantes da campanha defendem que Lula participe de até dois debates, dando como certa a participação no da TV Globo, que ocorrerá na reta final da campanha.
A principal justificativa é preservar o presidente de um confronto em que seria o alvo preferencial dos adversários.
Pela legislação eleitoral, além de Lula, as emissoras são obrigadas a convidar Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Augusto Cury (Avante). Como todos fazem oposição ao governo, dirigentes petistas avaliam que o presidente concentraria os ataques durante os encontros — uma lógica semelhante à adotada pela equipe de Flávio.
A primeira definição deve ocorrer em relação ao debate da Band, que tradicionalmente abre a temporada de confrontos entre os candidatos ao Planalto.
Inicialmente marcado para 16 de agosto, data de início da campanha eleitoral, o encontro foi adiado para o dia 23 após conflitos na agendas dos presidenciáveis. No caso de Lula, a agenda previa um ato de lançamento da candidatura em São Bernardo do Campo (SP).
Nos bastidores do PT, há uma divisão em torno da presença. De um lado, há quem defenda que o petista não deve se expor, tendo em vista a “maré positiva” nas pesquisas de intenção de voto. De outro, integrantes da campanha passaram a defender que Lula compareça ao primeiro debate por avaliarem que uma ausência logo na abertura da campanha poderia gerar desgaste político e dominar o noticiário.
A preocupação tem como referência a eleição de 2006. Naquele ano, Lula, então candidato à reeleição, faltou ao último debate do primeiro turno, promovido pela TV Globo, porque aliados avaliavam que a vantagem dele nas pesquisas tornava desnecessária a exposição aos ataques dos adversários.
A estratégia, porém, teve efeito contrário. A ausência virou tema do debate, a emissora manteve vazio o espaço reservado ao presidente no estúdio e os adversários exploraram a decisão durante o programa.
Lula terminou o primeiro turno com 48,61% dos votos, abaixo do necessário para vencer a eleição, e disputou o segundo turno contra Geraldo Alckmin, então no PSDB, e que hoje é o vice-presidente pelo PSB.


Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, posa para retrato com a camisa da Seleção Brasileira
Ricardo Stuckert / PR


Senador Flávio Bolsonaro
Reprodução/Flow Podcast

Live de Flávio Bolsonaro
Reprodução/Youtube
Dirigentes petistas consideram que a ausência foi determinante para que Lula não conseguisse a vitória. Dias depois, o próprio presidente reconheceu que a decisão havia sido equivocada.
“Quero antes de tudo fazer uma campanha de paz, sem baixaria. Foi por isso que cheguei a evitar comparecer a alguns debates no primeiro turno. Hoje, admito que me equivoquei, porque a minha posição foi mal interpretada e não freou a baixaria dos meus adversários”, disse o petista na ocasião.
Ao mesmo tempo em que parte da campanha defende uma presença reduzida nos debates, outro grupo avalia que os confrontos oferecem a Lula uma oportunidade de enfrentar diretamente Flávio Bolsonaro, o que ainda não ocorreu.
Enquanto mantém indefinição sobre os debates, Lula já confirmou presença na rodada de sabatinas promovida pela Record. O presidente recusou um convite para ser sabatinado pela GloboNews.
Segundo aliados, a estratégia é priorizar entrevistas, sabatinas com maior alcance e participações em conteúdos nas redes sociais, como podcasts.
A tendência é que tanto Lula quanto Flávio decidam sobre cada debate individualmente. Nos dois comitês, prevalece a avaliação de que a estratégia de um candidato influencia diretamente a do outro, transformando os debates em mais uma frente da disputa entre os principais concorrentes ao Palácio do Planalto.



