A participação de policiais militares (PMs) na disputa eleitoral em São Paulo despencou nas eleições de 2026. O número de candidatos da corporação caiu de 116 em 2022 para 65 neste ano, uma redução de cerca de 44%. Em 2018, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi eleito e houve uma forte ascensão de militares e agentes de segurança na política, eram 93 candidatos PMs.
Para especialistas ouvidos pelo Metrópoles, o movimento indica uma desmobilização política da categoria, depois de um período de forte aproximação entre policiais, militares — incluindo os do Exército — e a política institucional. Isso não significa necessariamente, no entanto, que o bolsonarismo tenha deixado de exercer influência sobre a PM.
Na avaliação do cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Marco Antonio Teixeira, a redução no número de candidaturas pode ser lida como reflexo de um declínio no prestígio dos militares enquanto atores políticos.
“Essa eleição reflete no número de candidaturas, talvez, um certo declínio do prestígio dos militares”, afirmou Teixeira. Segundo ele, houve uma “grande ascensão” a partir de 2018, marcada pela eleição de Bolsonaro, pela entrada de militares no governo federal e pelo aumento da presença de candidatos que incorporavam patentes — como coronel e capitão — aos próprios nomes eleitorais.
O auge desse movimento, segundo o professor, ocorreu no ciclo político iniciado em 2018 e consolidado nas eleições de 2022. Desde então, porém, a imagem dos militares como atores políticos teria sofrido um desgaste.
“Agora a gente chega a 2026 com a corporação enfraquecida enquanto ator político, em processo de um prestígio um pouco ou razoavelmente menor do que foi no passado”, disse.
De protagonistas a candidatos legislativos
Teixeira também chama atenção para uma mudança no tipo de participação dos militares na política. A presença de policiais e militares nas urnas não é um fenômeno novo, especialmente em São Paulo, onde a segurança pública historicamente produz lideranças políticas.
O que mudou, segundo ele, foi a escala da ascensão desses agentes e o espaço que passaram a ocupar na política institucional a partir de 2018.
A expectativa associada à chegada dos militares à política, de acordo com o professor, estava ligada à ideia de que a disciplina, a hierarquia e a ordem características das Forças Armadas poderiam ser levadas para a administração pública. Essa expectativa, entretanto, não teria se confirmado.
“Muito pelo contrário, os militares acabaram se envolvendo em confusão que, em tese, se esperava que eles viessem a combater”, afirma Teixeira, em referência ao desgaste provocado pela participação de militares em polêmicas dos últimos anos, incluindo investigações e acusações relacionadas à tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022.
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“Deu uma arrefecida”
A leitura é semelhante, embora parta de outro ponto, à do professor da FGV e especialista em segurança pública Rafael Alcadipani. Para ele, o interesse pela política “deu uma arrefecida” dentro das forças de segurança, especialmente na PM paulista.
“Essa questão da política deu uma arrefecida, eu sinto, nas forças de segurança”, afirmou, ponderando que a política continua presente entre os policiais, mas que houve uma redução do entusiasmo observado nos últimos anos.
Além do ambiente político, o professor aponta um fator mais pragmático: o custo de uma candidatura e a dificuldade de transformar a disputa eleitoral em uma carreira política bem-sucedida.
“Eles começaram a perceber também que [a política] é algo muito difícil de entrar, você começa a ter que colocar muito dinheiro”, disse. “Às vezes é um ouro de tolo que não vai significar, não vai dar certo.”
Na avaliação dele, parte dos policiais pode ter concluído que o investimento necessário para uma candidatura não compensa diante das chances de vitória e dos resultados concretos que a política pode trazer para a categoria.
Desencanto com Bolsonaro e Tarcísio
Alcadipani também vê uma relação entre a queda das candidaturas e um desencanto com o bolsonarismo entre policiais.
Para ele, a expectativa criada durante a ascensão política de Bolsonaro não teria sido acompanhada por mudanças suficientes na vida profissional dos agentes de segurança.
“Eu acho que sim, acho que tem uma perda de força, um desencanto com o bolsonarismo”, afirmou.
“Eles esperavam que iam ter melhorias de salário, que iam ter melhorias de equipamento, que ia ser feito um investimento efetivo na melhoria das forças de segurança, e não aconteceu”, acrescentou o professor.
Alcadipani também identifica uma decepção com o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Na avaliação dele, o discurso político associado ao bolsonarismo não teria produzido, na percepção de parte da categoria, mudanças concretas suficientes no cotidiano dos policiais.
“Tem uma decepção, de fato, com o governo Tarcísio, uma decepção com o bolsonarismo, que se revelou um discurso que não trouxe melhoria para a vida dos policiais na prática deles”, afirmou. “O policial é um sujeito muito pragmático. Ele começa a perceber que é mais um que não está levando o que ele esperava, ele começa a deixar de se envolver com isso.”
Nesse cenário, segundo Alcadipani, parte dos agentes pode estar voltando suas atenções para atividades mais diretamente relacionadas à própria profissão e à renda.
Bolsonarismo perdeu força?
Apesar da avaliação de Alcadipani, Teixeira adota mais cautela ao falar sobre uma eventual perda de força do bolsonarismo dentro da PM.
Para o cientista político, há divisões importantes dentro da própria corporação, o que dificulta tratar os policiais militares como um bloco político homogêneo. A redução das candidaturas, portanto, não permite concluir isoladamente que o bolsonarismo deixou de ser predominante entre os PMs.
O que os números permitem observar com maior segurança, segundo essa interpretação, é uma redução da disposição dos policiais de transformar sua identidade profissional em candidatura eleitoral, ainda que continuem apoiando determinada corrente política.




