A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, atingiu tal nível de tensão que levou o líder brasileiro a buscar interlocução diretamente com um “aliado improvável”: o presidente Donald Trump.
A relação entre o petista e o líder maior dos republicanos é destaque de reportagem do jornal norte-americano Financial Times publicada neste sábado (22/8), um dia após uma conversa, por telefone, entre os dois presidentes.
Segundo o jornal, a estratégia do governo brasileiro aposta na relação direta entre os chefes de Estado para tentar contornar a pressão diplomática exercida por Washington sobre o Brasil, alvo de tarifaço dos EUA de 37,5%.
A reportagem, em resumo
- O presidente Lula e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, trocam farpas públicas no contexto das eleições de 2026, com acusações mútuas de vaidade e viés ideológico.
- Para contornar a pressão exercida pelo Departamento de Estado dos EUA, Lula busca interlocução direta com Donald Trump, enxergando no presidente americano uma liderança mais pragmática e moderada.
- O governo brasileiro acusa setores do Departamento de Estado norte-americano de articularem ações em favor da oposição e da família Bolsonaro, citando episódios como a negação e revogação de vistos de autoridades americanas.
- Apesar do forte embate discursivo e da imposição prévia de tarifas comerciais pelos EUA, empresas de ambos os países e contatos diretos mantêm os canais econômicos abertos e negociados.
Em meio ao cenário de preparação para as eleições no Brasil, Lula e Rubio têm trocado declarações duras. O diplomata norte-americano acusou o presidente brasileiro de colocar o próprio ego acima dos interesses do país, enquanto Lula rebateu chamando Rubio de “latino-americano frustrado“.
“Para mitigar os desgastes e o impasse institucional, o presidente brasileiro buscou contato direto com Trump. Em conversa telefônica mantida entre ambos, os líderes classificaram o diálogo como cordial e focaram no fortalecimento dos laços comerciais entre as duas nações”, ressalta o jornal.
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do Metrópoles
Enquanto setores em Washington interpretam a postura de Lula como uma estratégia para mobilizar o eleitorado contra a interferência externa, o governo brasileiro sustenta que o Departamento de Estado norte-americano passou a atuar com viés abertamente ideológico na América Latina.
A diplomacia brasileira aponta a existência de uma articulação direta entre grupos da oposição no Brasil e setores do governo dos EUA. O alinhamento ficaria evidente em tentativas de ingerência no debate político e eleitoral do país, com o intuito de beneficiar a a cndidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presideência.
Diante desse cenário, ainda de acordo com o Financial Times. Brasília passou a enxergar a figura de Trump como um canal de interlocução mais pragmático em comparação à ala ideológica do Departamento de Estado. O próprio Lula ressaltou em declarações recentes que prefere tratar das pautas bilaterais diretamente com o presidente norte-americano.
Controvérsias comerciais e diplomáticas
As fricções entre os dois países vêm se acumulando devido a controvérsias comerciais e diplomáticas, como a imposição prévia de tarifas sobre produtos brasileiros e episódios de restrição de vistos a autoridades e funcionários norte-americanos.
Quando os EUA impuseram uma nova rodada de tarifas de 25% sobre o país em julho, Rubio divulgou um comunicado afirmando que as políticas de Lula “são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros”.
No mês passado, a entrada de outros dois funcionários do Departamento de Estado foi negada depois que o Brasil alegou que eles pretendiam lançar dúvidas sobre a integridade do sistema de votação eletrônica — ecoando alegações infundadas difundidas pelos Bolsonaro.
“Isso coincide com as declarações dos irmãos [Bolsonaro], sugerindo uma coordenação para disseminar desinformação”, disse uma autoridade brasileira.
“Apesar da escalada do tom diplomático, o posicionamento oficial emitido pelo Departamento de Estado afirma que os EUA respeitarão o resultado soberano das urnas brasileiras e manterão a cooperação contínua com qualquer administração eleita pelo povo”, reporta o Financial Times.
Analistas de política externa apontam que a mudança no fluxo do comércio internacional — no qual o Brasil ampliou significativamente suas trocas com a China — redefiniu o peso da influência de Washington sobre Brasília, sem, contudo, anular a relevância estratégica da relação entre as duas potências.




