O vedetismo é característico do atual ciclo de declínio dos mecanismos clássicos da política – partidos, parlamentos, ideologias. Tem mais impacto em sociedades menos desenvolvidas, como a nossa, do que em democracias consolidadas, onde a mídia ainda costuma refletir, ao lado da competição entre quadros, diferenças de visões doutrinárias. Aqui, a política se transforma, a olhos vistos, em monumental espetáculo, em que atores fazem absoluta questão de ocupar o espaço institucional com a imagem de seus perfis. Nos Estados Unidos ou em Países europeus, são perceptíveis as diferenças de posições entre republicanos e democratas ou entre liberais e conservadores, esquerdistas e direitistas, trabalhistas e socialdemocratas.
Na verdade, a espetacularização da política brasileira faz parte da cultura de um Estado cujas instituições e atores balizam, cada vez mais, atitudes e ações por influência dos meios de comunicação. Tudo parece ser delineado pela indústria midiática. Se não passarem pela tuba de ressonância formada pelos veículos impressos e eletrônicos, os fatos inexistem. Se não ocorrem, não há figurantes nem história. Se é assim, os políticos tratam logo de fazê-la, puxando, claro, a brasa para a sua sardinha. Até a sagrada instituição da Justiça, na esteira da magia poderosa da mídia, para ampliar a visibilidade, à maneira das casas congressuais, tem o seu canal próprio de televisão, o que nos proporciona a agradável surpresa de ver que magistrados da mais alta Corte também dão sonoras risadas e até constroem tiradas jocosas, eles, que pareciam a nós, simples mortais, deuses solenes e meditabundos, compenetrados de divina onipotência. Não há dúvida que o acesso democrático à informação institucional é um avanço. A questão, porém, não é esta. Nefasto é usar o espaço de comunicação, público ou privado, para que um cidadão, a serviço do povo e do Estado, queira estabelecer para si aquele objetivo que Mussolini desgraçadamente se impôs: “Fazer da própria vida a sua obra-prima”. Essa é uma praga que tem assolado o Estado brasileiro.
No Brasil, a festejada Constituição-cidadã, de 1988, foi um marco nessa direção. Detalhista ao extremo, corporativista em sua extensão, foi concebida como abrigo de tendências e expectativas de grupos. Mais que sinal de um novo horizonte democrático, traduziu um arrazoado de intenções para tornar mais fortes determinadas representações sociais. A trombeta da mídia, por seu lado, foi fundamental para dar eco aos discursos e abrir espaços. Neste momento, instala-se nos desvãos institucionais o espelho de Narciso. As caras de indivíduos e instituições ingressam na arena, disputando os melhores palanques. As casas congressuais e os partidos começam a perder o monopólio da ação política. Os poderes do Estado, agora energizados por esferas participativas e núcleos descentralizados e difusos de poder, passam a ser foco dos holofotes da mídia. Na esteira do desaparecimento de grandes ícones do Parlamento (Tancredo, Ulysses, entre outros), o cenário das grandes lideranças é ocupado por políticos homogêneos, que passam a preocupar-se exageradamente com o perfil pessoal. A lapidação de imagem inspira-se no lema: captar o máximo interesse e fixar a atenção do público.
Desenvolve-se capilarmente um Estado midiático, assentado sobre uma imensa estrutura de comunicação. A personalização do poder é o leitmotiv da nova ordem. De dois em dois anos, novos e velhos atores sobem aos palcos para desfilar qualidades pessoais num espetáculo regrado pelo uso e abuso de miragens, promessas, esperanças e sonhos, todos voltados para cooptar a adesão de grupos descrentes. Nos interstícios, governantes do Executivo se esmeram num exercício de maquiagem para limpar protuberâncias no perfil, enquanto os níveis de representação popular, para não serem esquecidos, buscam as luzes da imprensa. Inversões de valores se multiplicam. A mídia cria pautas, determinando ações e comportamentos políticos. Quem não quer fazer parte do jogo não tem chances de aparecer. O vedetismo se impõe. O acessório ocupa o lugar do principal. Uma feira de personalidades, disputando visibilidade, canibaliza os escopos partidários. Verba e verbo estabelecem relação promíscua. Assim, a autoglorificação de perfis contribui para fazer florescer a semente de uma democracia pervertida, em que o Estado e suas representações passam a fazer da política nada mais que um exercício de fuga diante da realidade.
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do Metrópoles
Ao político há de se cobrar aquilo que o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard costumava cobrar dos cidadãos: ser uma exceção.
GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, jornalista, escritor e consultor político.



