Nem toda defesa é feita com luvas.
Algumas, a gente faz com o coração apertado e a consciência limpa. Neste domingo, 13 de julho de 2025, o futebol alagoano perdeu Flávio Emídio dos Santos Vieira, o nosso eterno Pantera. Aos 54 anos, ele encerrou a partida mais dura da vida, deixando para trás muito mais que títulos. Deixou legado, dignidade e história.
Natural de Maceió, revelado no CSA, Flávio começou como quarto goleiro. Eu ainda era atleta do infantil quando via de longe aquele cara que insistia. Esperava. Suava. Não aceitava ser figurante. E não foi. Agarrando com raça cada chance que aparecia, tornou-se titular, bicampeão alagoano em 1991 e 1994, e então ganhou o país.
No Athletico Paranaense, virou lenda. Conquistou oito títulos, entre eles a Série B de 1995 e o Brasileirão de 2001. Passou também pelo Vasco, foi campeão com o Paraná Clube, brilhou na Libertadores de 2007 e, no América Mineiro, ergueu a Série C. Venceu em todas as divisões do Brasileirão. Poucos podem contar isso.
Mas a maior das batalhas veio fora de campo. Em 2024, Flávio enfrentou um câncer de próstata devastador. Perdeu peso, ficou recluso, sem perspectiva. Vi nas redes um desabafo do irmão, Fabinho. Dizia que ele estava trancado no quarto, em depressão. Pedi ao presidente Rafael Tenório que o trouxesse de volta ao CSA. E o clube fez o que poucos clubes fazem: acolheu um ídolo em vida.
Ali reencontrei um Flávio pálido, magro, assustado… mas vivo. Com apoio do Dr. Fábio Lima, iniciou o tratamento. Recuperou-se. Voltou a sorrir. Voltou a treinar. Voltou a sonhar. Me mandou áudios emocionados. Dizia que estava se fortalecendo, pronto para bater bola com os garotos do clube. Queria recomeçar. Queria devolver ao futebol o que o futebol tinha dado a ele.
E isso doía, porque ele sabia o que o futebol faz com seus ídolos. Durante a carreira, ouviu o que muitos goleiros pretos já ouviram: “goleiro preto sempre falha no final”. Barbosa que o diga. Mas Pantera não falhou. Nem quando a rede balançava. Nem quando a vida apertava. E muito menos agora. Porque quem parte de cabeça erguida, não perde. Vira símbolo.
Flávio me agradeceu. Mas quem tinha que agradecer era a gente. Por tudo. Pela história. Pelo exemplo. Pela humildade. Pela força.
Hoje, o CSA perde um dos seus. O Athletico se despede de seu maior campeão. O futebol, de um dos seus filhos mais verdadeiros.
Mas o céu, esse, ganha um goleiro valente. Que se jogava em todas, que rugia feito Pantera, que defendia como quem defende a própria vida.
Flávio, tua última defesa foi feita com honra. E tua história segue viva, nos nossos olhos e nos nossos corações.
Eternamente CSA. Eternamente Pantera.



