No início da Copa, a principal discussão sobre a Seleção Brasileira era o sistema. Era 4-2-4? Era 4-3-3? Em alguns momentos, até um losango pelo corredor central.
O empate diante de Marrocos mostrou que a resposta não estava apenas na prancheta. Era preciso construir uma identidade.
E ela começa a aparecer.
A maior evolução do Brasil está justamente sem a bola. Nas Eliminatórias, a transição defensiva era um problema recorrente. A equipe perdia a posse, demorava para reagir e oferecia espaços aos adversários.
Hoje acontece o contrário.
A pressão passou a ser coordenada, os espaços diminuíram e a recuperação da bola acontece cada vez mais perto da área rival. Não é apenas intensidade. É comportamento treinado.
Com a bola, Ancelotti também encontrou uma engrenagem interessante.
Casemiro dá equilíbrio. Bruno Guimarães veste a camisa 8, mas muitas vezes exerce a função de um camisa 10, recebendo entre linhas e acelerando o jogo. Lucas Paquetá aproxima os setores.
E Matheus Cunha talvez seja a peça menos lembrada dessa engrenagem. Ao abandonar a referência entre os zagueiros para atuar como falso 9, aproxima o meio-campo, forma constantemente um losango por dentro e cria o espaço ideal para Vinícius Júnior atacar.
Talvez a pergunta durante todos esses anos tenha sido outra.
Não era por que o Vinícius do Real Madrid não aparecia na Seleção.
Era como fazer esse Vinícius aparecer.
Pela primeira vez, vemos a resposta em campo.
Outro detalhe reforça a ideia de Ancelotti. Ninguém consegue antecipar a escalação da Seleção. Não por falta de convicção, mas porque o treinador escolhe jogadores pelas características que cada adversário exige. O plano de jogo vem antes dos nomes.
Ainda é cedo para colocar o Brasil como favorito absoluto.
Mas seleções campeãs costumam apresentar uma característica em comum.
Elas sabem exatamente quem são.
Depois de muito tempo, o Brasil voltou a transmitir essa sensação.


