Artistas percorrem escolas públicas de SP em campanha contra bets. Veja vídeo


Em continuidade ao concurso de funk com o tema de conscientização de vício em jogos, as Fábricas de Cultura vão levar às escolas públicas da zona leste de São Paulo, de Santos, no litoral paulista, e de São Bernardo do Campo, na região metropolitana, artistas para falar com os estudantes sobre os prejuízos das apostas on-line, como o Tigrinho.

A campanha chamada “Volta às Aulas Sem o Tigrinho” leva mensagens de alerta diretamente ao ambiente escolar. Na ação, jovens artistas da própria zona leste da capital vão visitar cerca de 10 escolas da rede pública.

O Metrópoles acompanhou, há duas semanas — na sexta-feira, 6 de março —, uma roda de conversa dos MCs Edisinho e Mc Caesar (vencedores do concurso de funk) na E.E Aurélio Buarque de Holanda, localizada na Vila Curuçá.

Durante a ação, os artistas se apresentam nos recreios das escolas selecionadas cantando as músicas criadas com o intuito de desencorajar o jovem de baixa renda a apostar nos sites de bets. O objetivo é utilizar a linguagem e o ritmo popular entre os jovens para amplificar a reflexão e o alerta sobre o “efeito Tigrinho”.

Um grupo de estudantes contou ao Metrópoles como a ativação foi emocionante. Os alunos, que têm entre 10 e 12 anos, conhecem pessoas – inclusive familiares – que já perderam dinheiro, celulares e até a casa por causa do Tigrinho.

“[A campanha] é muito boa porque os artistas incentivam as pessoas que querem [apostar] a não fazerem. Porque Tigrinho pode ser um vício […] Essa apresentação na escola é boa porque são mais os jovens que frequentam esse aplicativo, querendo descobrir coisas novas”, disseram.

As crianças ressaltaram que as propagandas que influenciam o uso de bets deveriam parar. “Quem acha que é o caminho mais fácil, no final, vai acabar na busca”, falaram.

Conscientização sobre o vício em jogos

Os artistas Mc Edisinho e Mc Caeser contaram que o projeto teve início após eles terem sido convidados para compor funks contra o Tigrinho.

“Quando a gente está cantando para jovens, estamos passando uma visão correta para eles através do funk. Porque o funk, exatamente na sua raiz, é isso. É a conscientização, é passar uma visão, é passar uma ideia bacana. É muito legal ver que as crianças estão pegando aquela visão, estão se conscientizando através da arte. Porque o funk hoje é algo global e as crianças estão conseguindo pegar essa visão através da música que elas gostam, que elas ouvem no dia a dia. Isso é maravilhoso”, opinou Caeser.

Segundo os músicos, o vício em apostas é algo que precisa ser conscientizado não apenas com crianças, já que muitas pessoas de 30 a 40 anos também “caem nessa armadilha”. Para eles, o “apelo” é maior por causa do estado periférico deles e por eles estarem frustrados com a vida, pelo fato de não terem conseguido chegar onde queriam com a idade que têm.

A supervisora regional de ensino Alexandra Avelino Cardoso comentou a importância de levar uma campanha contra bets para os jovens. “O Tigrinho já não vai tanto nessa realidade, porque, às vezes, eles não estão atentos ao ganho do dinheiro agora. Mas, futuramente, eles podem sofrer essas situações porque, às vezes, tem gente na família [com o hábito de apostas]. Então, há conscientização”, apontou.

Parceria entre as Fábricas de Cultura e as escolas públicas

Além das visitas, a campanha prevê a colocação de cartazes feitos por grafiteiros da periferia com mensagens de conscientização. As obras, originalmente feitas em telas por artistas das Fábricas de Cultura, agora chegam ao ambiente educacional em forma de cartazes que ilustram os perigos e o endividamento causados pelas apostas on-line, reforçando o lema “Tigrinho vicia, grafite conscientiza”.

Para o subgerente da Fábrica de Cultura Vila Curuçá, Bruno Mendes Brito Naves, a parceria entre eles e as escolas públicas é de extrema importância para os jovens da região.

“Aqui na escola, a gente uniu a educação com a cultura do grafite e a cultura do cantor. Os alunos pegaram a letra e cantaram ali no palco e foi um sucesso. Então, é muito bacana essa parceria. Para a gente, é uma alegria imensa ter essa parceria de muitos anos”, afirmou Bruno.

O coordenador de projetos de difusão das Fábricas setor A, Matheus Moreira da Silva Oliveira, explicou ao Metrópoles como surgiram as campanhas contra o Tigrinho. “A gente vê que nas comunidades, principalmente nas periferias, nos extremos, tem muito problema com jogos de apostas. Então, muitas famílias são prejudicadas, pessoas mais novas que estão começando nesses jogos tipo Tigrinho, jogos de cassino e tudo mais. E, às vezes, perdendo a renda familiar e começando a passar por apuros”, contou.

Dessa ideia, veio a decisão de contratar grafiteiros do entorno das Fábricas para criar cartazes que estão sendo colocados nas escolas.

Matheus contou que, desde o início da iniciativa, já sentiu o impacto positivo das ações. “Muitas crianças vieram falar com a gente que não estavam mais entrando dentro do site de apostas, conversando com o pai e com a mãe, porque a gente sabe que os adultos também fazem muito. Então, ter esse incentivo por parte das crianças, para o resto da família, vindo desses artistas e desses grafites que a gente divulga, foi um impacto muito interessante e positivo para a gente também”, disse.



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