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AS MARCAS DA ESCRAVIDÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA – II


A gradativa substituição da mão de obra nativa por escravos oriundos do continente africano, teria iniciado, oficialmente em 1549, após o consentimento de Portugal. Muitos Senhores de engenhos tiveram dificuldade de adquirir escravos, devido ao elevado preço. Por outro lado, os indígenas, após a vinda da Companhia de Jesus, melhoraram suas relações com os colonos e aqueles que não se embrenhavam pelas matas, passavam a servir nas fazendas em condições deploráveis, segundo os relatos dos Padres Anchieta e Vieira. Eis um desses relatos dramáticos: carta de número XVII, do Padre Antônio Vieira, dirigida ao Rei D. Afonso VI, datada de 20 de abril de 1657 – p. 192: “A injustiça que se usava com os índios livres, servindo-se deles os portugueses sem lhes pagarem seu trabalho, se tem evitado em grande parte com o modo da repartição que se dispõe no regimento, posto que as ocasiões de serviço, ou chamado serviço de V. M. têm sido tantas estes dois anos, que tiveram os pobres índios lugar de lograrem os seis meses que V.M. lhes manda dar, para acudirem as suas lavouras e casas, e para conhecerem que não são cativos. Raro é o índio das aldeias que em cada um destes dois anos não tenha servido mais de dez meses; e, contudo, ainda os portugueses se queixam, como se puderam os índios no mesmo servir aos particulares e mais ao comum”. E este era apenas o começo.

Apesar da retórica clientelista de Gilberto Freire, Pedro Calmon ou João Ribeiro, historiadores e pesquisadores da primeira metade do século XX, não podemos negar a verdade que se esconde por entre linhas contemporâneas do período colonial, o qual esteve presente o jesuíta João Antonil. Este padre, de visão etnográfica afiada, crítico disfarçado, conseguiu o milagre de trazer à luz deste século observações marcantes como a da p. 23 e 24, do livro Cultura e Opulência do Brasil, publicado em 1716, ed. Em fac-símile. Eis o texto:

“Melhores ainda são para qual offício os mulatos; porém muito delles usando mal do favor dos Senhores, são soberbos, & viciosos, & prezão-se de valentes, aparelhados para qualquer desaforo. E, contudo, elles, & ellas da mesma cor, ordinariamente levão no Brasil a melhor sorte; porque com aquella parte de sangue brancos, que tem nas veas, & parece, que se não atrevem reprehendellos; antes todos os mesmos são seus. E não he fácil cousa decidir, se nesta parte são mais remissos os Senhores ou as Senhoras; pois não falta entre elles, & ellas, quem se deixe governar de mulatos, que não são os melhores; para que se verifique o provérbio, que diz: Que o Brasil he o inferno dos negros, purgatório dos brancos & paraíso dos mulatos, & mulatas. (…)”

E isto nos leva a refletir sobre a sociedade atual, resultado dessa miscigenação, entre portugueses, índios e negros. A fala de Antonil denota uma relação que não conseguiu resistir, disfarçada, na abjeção da senzala. Ultrapassou a cozinha, se instalou na sala de jantar e se amasiou nas camarinhas. E esta distinção foi suficiente para alçar um degrau a mais na hierarquia social da alcova senhorial até a senzala. Razão pela qual os rebentos destes coitos furtivos ganhavam uma espécie de liberdade provisória, quando eram batizados. É o que nos lembra Herberts, S. Klein, Escravidão Africana: América Latina e Caribe, Ed. Brasiliense, 1987 p.248. Os Senhores, dissimuladamente, numa aura de boa vontade, reconheciam os filhos que geravam.

Outro que, sem estar a serviço da coroa, nos legou informações preciosas sobre a vida escrava no Brasil: João Maurício Rugendas em seu livro Viagem Pitoresca Através do Brasil, ed. Livraria Martins Editora, 1976, p. 132: “ É incontestável que muitos homens de grande mérito, que escreveram sobre a escravidão dos negros, fizeram-no entretanto, sem conhecimentos exatos do assunto, os quais poderiam ter adquirido vendo as coisas por si próprios ou examinando, pelo menos com precaução, os relatórios de outrem,. Os quadros sombrios ou infiéis que nos foram pintados da situação infeliz dos negros prejudicaram a boa causa, cujo êxito procuravam assegurar pois o público, percebendo a inexatidão de alguns pontos, se arrependia de ter desperdiçado tanta piedade(…) ”

O fato é que a escravidão negra que permeou as Américas, a partir de 1502 deixou indeléveis marcas na sociedade hodierna. E, não se trata apenas, de um recorte da história, que se faz do período colonial para um exame sociológico isolado. Ao contrário, a introdução desta mão de obra cativa deu ao continente americano um perfil disforme com desdobramentos ainda mais perversos do ponto de vista social. Sem restringir-se, apenas ao ancestral preconceito, a gênese deste processo de exclusão, se instalou também no elo cultural e religioso, da relação inter-racial daqueles que são obrigados a conviver em sociedade, segundo Maria Helena Pereira Toledo Machado, ed. Brasiliense, 1987, p. 63. A boca do povo criou rótulos, que os tempos modernos, só vieram arquivar na coerção de uma legislação alcançada na brutalidade e na dor.

A lei que arruinou, politicamente, o Império brasileiro, se preocupou bem mais com o efeito moral que o social ao colocar a primeira leva de 750.000 “sem nada” para se amontoar na periferia das cidades. Época, em que os europeus chegavam, para “limpar o sangue” da raça nacional. Era uma liberdade que custava bem mais do que o seu preço no mercado. O escravo tinha que concorrer em pé de igualdade com o europeu “boa pinta” que atiçava a curiosidade das moçoilas da época, futuras reprodutoras de uma nova raça brasileira.

Com a oferta de mão de obra larga o ex-escravo foi recuando dos trabalhos domésticos, para o eito da urbe até finalmente ao desemprego. O ócio, destinado à classe dos Senhores, vestia-lhe o traje marginal do malandro, ladrão e fugitivo. Afinal, “ao longo do século XIX, senhores, feitores e escravos enfrentaram-se, continuamente, tecendo relações pontilhadas de confrontos. Vigilância, disciplina, castigo e crime enlaçaram-se numa trama de relações dinâmicas, deslindáveis através de peças criminais relativas aos homicídios e lesões corporais contras os fiscalizadores do trabalho. ” (Maria Helena Pereira Toledo Machado, ed. Brasiliense, 1987, p. 85 e 86.) Sem falar que a prostituição praticada por escravas, principalmente as mulatas, durante um longo período foi uma fonte de renda aos proprietários arruinados, residentes nas principais capitais brasileiras, sobretudo no Rio de Janeiro, assim como atiçou o fogo sensual da cor como tributo ao pecado.

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Benedito Ramos Amorim

Pesquisador, Crítico de Arte e Coordenador de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió, tem livros publicados a partir de 1974: Mona Lisa Um Autorretrato de Leonardo da Vinci – Pesquisa, em 1979 Lamento Derradeiro que recebeu o Prêmio Moinho Nordeste da Academia Alagoana de Letras – Contos, 2003 A Construção do Palácio do Comercio – Pesquisa, Edufal, 2005, Um Amor Além do Tempo – Romance, HD Livros, 2006, Doce de Mamão Macho – Novela, Editora Catavento. Articulista em diversos jornais da capital alagoana desde 1976, no extinto Jornal de Alagoas desde 1976, a partir de 2002 no O Jornal e Jornal Gazeta de Alagoas. Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras com o romance inédito Pensamentos Mágicos em 2006, ano em que assumiu a cadeira número 9 da Academia Alagoana de Letras. Editor por 5 anos do jornal O Palácio publicado pela Coordenadoria de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió. 2019 Prêmio Editora Gracialiano Ramos com edição dos livros, Nadi e 2ª Edição do livro Doce de Mamão Macho.



Fonte: Gazetaweb