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AS MARCAS DA ESCRAVIDÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA – IV


Um fato merece registro, na historia do desenvolvimento de Alagoas, quando a Associação Comercial de Maceió, a quinta no gênero, no Brasil, antes até de São Paulo, teve na sua fundação em 7 de setembro de 1866, como primeiro ato, a compra de uma escrava de dez meses, chamada “Bemvinda”. O primeiro presidente também fundador, comerciante no ramo de algodão, propôs a alforria. José Joaquim de Oliveira acreditava na liberdade, como fator primordial ao desenvolvimento do país. A mão de obra livre, assalariada, era tudo o que o espírito da modernidade, comandado pela revolução industrial ditava. Lamentavelmente, ainda nos dias de hoje, os mesmos grilhões da escravidão continuam presentes na miséria, na exclusão, no analfabetismo e na falta de perspectiva do povo brasileiro diante das desigualdades sociais e do mesmo clientelismo do tempo das oligarquias. Quantas “Bemvindas” e “Bemvindos” ainda precisam ser alforriados neste país?

A partir de 1881, quando iniciou a chegada dos imigrantes europeus, e com o fim da escravidão, começou o êxodo das fazendas e a dispersão entre a urbe e o campo. Em algumas regiões muitos fizeram uso de terras devolutas para pequenas lavouras, mas a maioria migrou para as cidades, onde se alojou na periferia. O autor de: O Brasil Pós-Abolição e os Negros reconhece que: “(…) faze-se difícil fundamentar a marginalização dos negros no período pós abolição na suposição da incapacidade de concorrência com os imigrantes europeus. Afinal, ao contrário destes, os ex-escravos conheciam as práticas da cafeicultura e da lavoura brasileira em geral, com hábitos de trabalho já adaptados a essas práticas. Mesmo do ponto de vista da qualificação profissional, as condições de superioridade da grande maioria dos europeus eram apenas levemente significativas. Na indústria da época, o nível atrasado induziu o largo emprego de mulheres e crianças. Então qual a desvantagem decisiva dos negros? ” (p.199). Quer saber leitor? A desvantagem cultural. O preconceito instalado no país desde a sua colonização e que permaneceu vivo até os dias de hoje. Como competir com o estrangeiro, se ainda hoje esta sociedade é levada a desvalorizar seus conterrâneos, em benefícios de forasteiros de nomes difíceis? Quantos gerentes de banco já não franziram o cenho diante de um caboclo, para ser enganado depois por um falante? A aparência, sempre foi fundamental, a ponto de constar no teor dos anúncios de emprego. Deixou de ser agora por coerção da lei. E o Nordeste, desde que o eixo-Rio-São Paulo se tornou o principal pólo de riqueza do País, foi depreciado, tanto na sua cultura, no seu modo de falar como no seu desenvolvimento econômico.

Por isso que o final da escravidão não precisa ser comemorado com júbilo, ele trouxe a deterioração das relações dos libertos e fazendeiros, principalmente em São Paulo, onde o tratamento e o clima de arrogância e prepotência continuou. E pior que contribuiu para que o aproveitamento dessa mão-de-obra fosse reduzido. Isto só concorreu para a dispersão para as zonas rurais ou subempregos urbanos. Isto nos leva a crer que ao calor da raiva, todo o preconceito e toda a discriminação se ascende. E isto, com certeza se propaga ainda mais, sob o peso de mais de 239 anos de uma relação culturalmente agredida pelo contato colono e escravo, tenderia a ficar ainda mais comprometida. Sobretudo, considerando que a liberdade, mesmo em condições precárias dava o mínimo de autonomia a cada um destes indivíduos que se colocavam em pé de igualdade com seu ex-senhor. O que fazer então com a liberdade nesta falta de perspectiva? A desqualificação era a patente herança do trabalho cativo, mecânico que não abria horizontes nem preparava o escravo para a nova vida. Por outro lado, a rejeição do patronato, somada a discriminação só vem mudar a partir da industrialização urbana e a sua inserção no mercado de trabalho comum a outras raças. Mas isto, depois da década de 30 no governo de Getúlio. Mas o processo de inferiorização da raça negra se acentua ainda mais na economia capitalista, onde a competitividade será fator preponderante ao mercado de trabalho. É ridículo, mas ainda hoje é motivo de admiração, generalizada, a ascensão de um negro a uma posição privilegiada na sociedade. As pessoas fingem naturalidade para estes fatos, mas no fundo se sentem, como se incomodadas.

A discussão de Jacob Gorender – O Brasil Pós-Abolição e os Negros, ed. Ática, São Paulo, 1990, sobre as causas das diferenças sociais da raça negra no Brasil, é delineada também por muitos outros pesquisadores com linhas de pensamentos antagônicos que não chegam a um fundamento específico de causa e efeito.

Não podemos negar que o Brasil como no restante da América não tenha havido uma ascensão social, mesmo que lenta, do homem de cor. Um esforço insuperável para enfrentar as barreiras criadas para impedir o acesso a trabalhos mais qualificados ou cargos de mais relevos. Se não houve um crescimento na mesma proporção não foi pelas malogradas razões que se desenhava de uma raça inferior.

No entanto o Mito da Democracia Racial permaneceu ainda por longo tempo e ainda permanece presente fora dos centros urbanos onde o sistema clientelista e patronal faz parte de uma rede de interesses políticos que visam manter segregações raciais, exclusões que desencorajam mobilizações raciais e o processo de democratização da sociedade brasileira.

E, finalmente, a questão cultural ou a herança ancestral do preconceito que consegue sobreviver até mesmo a uma legislação que tenta coibir estas discriminações. Esta, com certeza é a pior, porque se disfarça em uma relação de cordialidade, mas que explode e se revela ao menor sinal de conflito.

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Benedito Ramos Amorim

Pesquisador, Crítico de Arte e Coordenador de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió, tem livros publicados a partir de 1974: Mona Lisa Um Autorretrato de Leonardo da Vinci – Pesquisa, em 1979 Lamento Derradeiro que recebeu o Prêmio Moinho Nordeste da Academia Alagoana de Letras – Contos, 2003 A Construção do Palácio do Comercio – Pesquisa, Edufal, 2005, Um Amor Além do Tempo – Romance, HD Livros, 2006, Doce de Mamão Macho – Novela, Editora Catavento. Articulista em diversos jornais da capital alagoana desde 1976, no extinto Jornal de Alagoas desde 1976, a partir de 2002 no O Jornal e Jornal Gazeta de Alagoas. Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras com o romance inédito Pensamentos Mágicos em 2006, ano em que assumiu a cadeira número 9 da Academia Alagoana de Letras. Editor por 5 anos do jornal O Palácio publicado pela Coordenadoria de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió. 2019 Prêmio Editora Gracialiano Ramos com edição dos livros, Nadi e 2ª Edição do livro Doce de Mamão Macho.



Fonte: Gazetaweb