Se você quer a cabeça de Alexandre de Moraes pendurada num poste ou fincada no mourão de uma cerca, bem, já conta com um aliado objetivo: o comitê judiciário da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos — a Câmara dos Deputados deles… Veio a público um terceiro relatório — os outros dois são de 2024 — que acusa Moraes de promover, aqui dentro, a censura à liberdade de expressão de norte-americanos, o que poderia interferir no resultado das nossas eleições.
Não cometi nenhum equívoco. É isto mesmo: Moraes, este homem terrível, estaria a criar embaraços à liberdade de expressão dos governados por Donald Trump, o que poderia mudar, em solo pátrio (o nosso), o resultado das urnas. Como isso se processaria é um mistério que só o “lobby” de Eduardo Bolsonaro e amigos junto à ala “heavy metal” do trumpismo pode explicar.
Mas se pode tirar uma conclusão imediata do que vem a público: Xandão, este ser nefasto, estaria a pôr entraves à largueza do trumpismo no Brasil. E, sendo assim, interferiria no pleito eleitoral. Logo, para que Donald possa nos tratar efetivamente como patos, é preciso que o ministro se contenha.
Essa comissão é presidida pelo notório deputado republicano Jim Jordan, que esteve com Eduardo Bolsonaro em 8 de janeiro — ô data emblemática! — deste ano. Flávio, o “moderado” (segundo alguns), e Paulo Figueiredo estavam juntos.
As informações que embasam as acusações têm origem em decisões de Moraes que determinam a retirada de conteúdos golpistas das redes sociais. Sabem como é: lá, como aqui, há valentes que acreditam que, na esgotosfera, não existe pecado do lado de baixo do Equador. Do lado de cima, por óbvio, existe, nao é mesmo? Sobretudo naquelas plagas que os sedizentes “donos do mundo” chamam “América”: em nome do que consideram a sua segurança, podem censurar universidades, processar seus dirigentes, expulsar alunos, demitir professores, levar jornalistas à Justiça… Tudo aquilo que, felizmente, a democracia brasileira impede que aconteça.
Como se nota, o ódio ao terrível Xandão que se vê por aqui, não raro, é apenas espelho — ou extensão — do que determina o “sagaz brichote”, para empregar uma expressão do poeta baiano Gregório de Mattos Guerra no século XVII, no poema “Triste Bahia”
Edson Fachin diria aos “brichotes”, aos mercadores de cidadania: “Com o meu ‘Código de Ética’, nada disso aconteceria”. Talvez os negociantes sagazes até concordassem… Não sei se fui muito sutil…
Bem, dizer o quê? Hora de derrubar Alexandre para garantir a liberdade de expressão dos norte-americanos no Brasil, já que, no que chamam “América”, a dita-cuja foi para o triturador da pia faz muito tempo.
A cara de pau é tal que o documento chega a se referir ao cenário eleitoral por aqui, em defesa de… Flávio: “As ordens de censura e o ‘lawfare’” de Moraes contra a família do ex-presidente Jair Bolsonaro e apoiadores podem prejudicar significativamente sua capacidade de se expressar on-line sobre questões de interesse público nos meses que antecedem a eleição presidencial brasileira”. Não faltarão por aqui os “paladinos da liberdade” a se juntar com esses patriotas que censuram universidades, expulsam estudantes estrangeiros e perseguem professores… Tudo em nome da liberdade.
MOMENTO CULTURAL
Citei um soneto de Gregório, que segue, a tratar da exploração, então, da “cidade da Bahia”, hoje Salvador, por negociantes cúpidos vindos de fora — no texto e, dada a época (Século XVII), o “brichote”, provavelmente, era um inglês:
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
Caetano Veloso musicou as duas primeiras estrofes no espetacular disco “Transa” (imagem que ilustra este texto), gravado em Londres em 1971 e lançado aqui no ano seguinte.
Traz, entre outras preciosidades, uma versão de “Mora na Filosofia”, do genial Monsueto e de Arnaldo Passos. A letra recomenda e pergunta assim:
“Mora na filosofia
Pra que rimar amor e dor…”
E haverá quem diga: “Sem dor, não tem verdade”.
Tou fora.




