Vias da cidade de São Paulo com a Faixa Azul tiveram aumento nos números de mortes, de sinistros, de atropelamentos e de vítimas não fatais depois da instalação da faixa exclusiva para motocicletas. Os dados, que tiveram piora em todas as métricas analisadas, foram informados pela prefeitura à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), que agora discute se o projeto piloto pode virar uma política pública.
A Faixa Azul é um projeto piloto autorizado pelo órgão federal com a condição da entrega de um relatório consolidado, produzido pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) municipal, com dados até o fim do ano passado. A coluna obteve acesso a este documento via Lei de Acesso à Informação (LAI).
O relatório compara dados de “antes” e “depois” da instalação da Faixa Azul em cada via, até 31 de dezembro de 2025, com o período de tempo analisado variando para cada avenida. No Minhocão, por exemplo, ela foi instalada em junho de 2024. Assim, são comparados 18 meses anteriores com os 18 posteriores. Na Faria Lima, 25 meses antes e 25 depois.
O levantamento da prefeitura aponta que as vias com Faixa Azul tiveram 57 mortes “antes” da instalação da faixa exclusiva e 68 depois, um acréscimo de 19,2%. Apesar disso, a conclusão da prefeitura é que a Faixa Azul se consolidou “como uma tecnologia de preservação da vida”.
A Faixa Azul fica sempre entre a faixa 1 e a faixa 2 das vias, sinalizada na cor azul. A premissa da iniciativa é que o trânsito flua melhor para o motociclista, que fica mais seguro à medida que os carros mudam menos vezes de faixa.
A Senatran não tem prazo para terminar a análise dos dados enviados pela prefeitura. Caso a medida seja considerada ineficaz pela secretaria, a Faixa Azul para motos deverá ser retirada. Até que a resposta seja informada, o município poderá manter a sinalização ativa nas vias onde foi implantada, mas não pode implementá-la em novas vias.
Todos os números pioraram
O relatório final sobre a Faixa Azul mostra que o número de vítimas não fatais subiu de 2.455 antes para 2.840 depois da instalação da faixa exclusiva nas vias paulistanas, o que significa aumento de 15,6%, maior do que o aumento no fluxo de motocicletas (10,5%). Os dados foram apurados pela prefeitura de São Paulo no Infosiga do Detran-SP.
A Faixa Azul tem recebido críticas de especialistas por conta desse aumento no número de acidentes. Com a faixa exclusiva, a sensação no trânsito é que as motos circulam em velocidade mais alta, muitas vezes acima do limite da via, aumentando o risco em atropelamentos e para os próprios motociclistas.
A prefeitura de São Paulo, porém, vem refutando essas críticas citando um estudo informal realizado internamente que calculou que até o final de 2024 houve uma redução no número de mortes de motociclistas – dado que o relatório preliminar da própria CET mostraria ser falso. Depois que um estudo da USP mostrou que a Faixa Azul incentiva o abuso de velocidade, a prefeitura de São Paulo, como noticiou o Metrópoles, encomendou um levantamento que tinha objetivo declarado de “contrapor” o estudo.
Independente da guerra de versões, para a Senatran o que vale para medir a efetividade da Faixa Azul é o relatório consolidado produzido pela CET, que mostra também aumento no 17,5% no número de sinistros fatais com motocicletas, de 57 para 67.
Para os pedestres a situação é ainda pior. Dez pessoas morreram atropeladas nessas vias antes da instalação da Faixa Azul, número que disparou para 25 depois do projeto, um expressivo aumento de 150%.
Também houve aumento tanto no número de atropelamentos com vítimas não fatais (que passaram de 125 para 155, 24% a mais) quanto de acidentes com vítimas não fatais envolvendo carros e motos (2016 antes, 2.295 depois, aumento de 13,8%). Em todos os nove recortes de números totais calculados pela CT os índices pioraram com a Faixa Azul.
“Sem informação” vira “fora da Faixa Azul”
Ao apresentar os números, a CET classifica os acidentes em dois grupos: aqueles ocorridos “fora da Faixa Azul” e os que aconteceram “dentro da Faixa Azul”. Mas a lista dos sinistros fatais, também presente no documento, revela que em uma parcela significativa dos registros o Detran não traz essa classificação. Entre as 68 mortes, 20 inicialmente foram classificadas sobre “sem informação” sobre ser dentro ou fora da Faixa Azul.
Ao apresentar estes números, a CET, contudo, classificou automaticamente todos os acidentes sem informação sobre o local como tendo ocorrido “fora da Faixa Azul”.
Em mortes, por exemplo, os dados granulados mostram que 20 acidentes fatais foram classificadas como tendo ocorrido da Faixa Azul, 26 fora da Faixa Azul e 22 “sem informação”. Mas, ao apresentar os dados, a CET diz que 20 mortes ocorreram “dentro” da Faixa Azul e 48 mortes aconteceram “fora” dela, mesmo sem ter informações para chegar a tal conclusão.
A partir dessa manipulação de dados, a CET usa o número de acidentes “fora da Faixa Azul” para afirmar que o aumento de acidentes e mortes não está relacionado à Faixa Azul, mas à sua não utilização pelos motociclistas.
A prefeitura também se apoia, no relatório, em uma fórmula produzida em um estudo acadêmico da Universidade Federal de Santa Catarina, chamada “Taxa de Severidade”, que divide o número de acidentes, com pesos distintos, pela multiplicação entre período de referência, volume diário de veículos e extensão de uma via.
Apesar de todos os índices medidos (sinistros, acidentes com vítimas, atropelamentos, mortes) terem tido aumento maior que o aumento no fluxo de motos (10,9%, segundo a CET) nas vias com Faixa Azul, a prefeitura conseguiu chegar a um número que a permite dizer que a faixa exclusiva tornou essas vias mais seguras. Para isso, calculou a taxa por via e, depois, calculou a média entre essas taxas. O índice médio passou de 7,9 pontos para 5,8 pontos, uma redução de 26,5%.
Para chegar a tal número, a CET deu peso igual a vias com grande fluxo de veículos, como a Vinte e Três de Maio (que teve alta de 2,8 para 3,6) com vias bem menores, como a rua Santa Eulália, de dois quarteirões, que teve três acidentes não fatais antes da Faixa Azul e nenhum depois, vendo seu índice cair de 30 para 0. Assim, uma rua de dois quarteirões compensa, sozinha, 30 vezes a alta na avenida que teve 155 acidentes.
De acordo com a prefeitura, os números mostram de forma “incontestável” que a Faixa Azul se consolidou “como uma tecnologia de preservação da vida”.
