São Paulo — Um bebê com quatro meses de vida deu entrada em um hospital na zona leste de São Paulo, após apresentar um quadro de febre. Diagnosticado por uma médica com inflamação na garganta, a criança foi mandada para casa no mesmo dia somente com a receita de um antibiótico e um analgésico. Os remédios não foram suficientes, e o quadro do bebê se agravou. Dois dias depois, ele foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital e Maternidade Salvalus, em coma induzido. Após três meses de sofrimento, Gael França da Silva faleceu, aos sete meses de vida. Sua mãe, agora, busca justiça.
A história, denunciada pela mãe de Gael à polícia, começou no dia 9 de abril de 2026. Segundo ela, o filho apresentava um quadro febril, motivo pelo qual decidiu levá-lo ao hospital particular Nossa Senhora do Rosário, no bairro Vila Maria, zona leste da capital. No local, foi atendida por uma médica que, após uma avaliação clínica preliminar, teria diagnosticado a criança com inflamação na garganta. Os remédios prescritos foram a amoxicilina, antibiótico comumente indicado para o tratamento de infecções bacterianas, e o analgésico dipirona.
Não foram realizados exames adicionais em Gael naquele dia.
Inicialmente, o tratamento previa uma duração de sete dias. Pouco mais de 24 horas depois, no entanto, o estado de Gael se agravou — a mãe relatou “queda de temperatura e palidez”. Ela decidiu voltar ao mesmo hospital, onde foi atendida por outros dois médicos.
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do Metrópoles SP
Durante a avaliação realizada por um deles, foram identificados sinais e sintomas sugestivos de “possível infecção pulmonar”. Só então foram solicitados exames para a criança, incluindo exames de sangue que teriam confirmado, em caráter preliminar, a existência de uma infecção.
Na sequência, o médico pediu a internação imediata de Gael em uma UTI — com a qual o hospital em questão não conta, o que exigiu também um pedido de transferência.
Enquanto a transferência não era realizada, o profissional decidiu administrar medicação por via intravenosa, além de intubar Gael. O acesso às veias da criança, no entanto, se mostrou mais difícil que o esperado, o que levou o médico a realizar o acesso pelo pé esquerdo do bebê.
Novos problemas na UTI
No dia 11 de abril, dois dias após a primeira ida ao Hospital Nossa Senhora do Rosário, Gael foi transferido para a UTI do Hospital e Maternidade Salvalus, no bairro da Moooca, também na zona leste. Novamente, foi relatado agravamento no estado de saúde dele, o que levou os médicos a colocá-lo em coma induzido, no qual ele permaneceria por aproximadamente três meses. Não só isso, mas também foi constatado um quadro de necrose no pé de Gael usado para a aplicação da medicação.
Segundo a mãe, um médico especialista vascular teria chegado a examinar o pé do bebê, mas não houve sucesso na tentativa de reverter o quadro.
Durante o período, a mãe de Gael também observou ressecamento nos olhos do filho, sintoma que ela acredita ter sido causado pelo não fechamento apropriado das pálpebras durante o processo de sedação, e que teria comprometido a visão dele, posteriormente. A hipótese ainda será investigada.
Já no fim de maio, mais de um mês após ser encaminhado à UTI em coma induzido, o pequeno foi transferido para a enfermaria do hospital, ainda inconsciente. A justificativa da equipe médica era a alta concentração de bactérias na ala intensiva.
Preocupada, a mãe de Gael adquiriu às próprias custas um oxímetro para monitorar a situação de oxigênio da criança. Ela identificou queda na saturação do bebê e pediu o retorno dele à UTI, o que ocorreu uma semana depois da transferência à enfermaria.
O tratamento não foi suficiente. Mais dois meses depois, o menino morreu, aos sete meses de idade. Na certidão de óbito, a causa foi registrada como choque séptico, encefalopatia hióxico-isquêmica, sepses e pneumonia.
A mãe de Gael registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil, de onde foram retiradas as informações relatadas nesta reportagem. O caso foi registrado como homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
Polícia instaura inquérito
A Polícia Civil de São Paulo instaurou um inquérito para apurar as mortes de bebês ocorridas no Salvalus ao longo deste ano. Ao menos seis boletins de ocorrência foram registrados no 8º Distrito Policial (DP) do Brás, no centro de São Paulo, além de outros dois em outras delegacias.
A reportagem teve acesso a 16 certidões de óbitos. Uma advogada, que representa os pais das vítimas, disse estar em contato, ao todo, com 36 mães que perderam os filhos nos últimos meses no hospital, que integra a rede HapVida. No entanto, o número de mortes pode ser significativamente maior.
“Pra todos os efeitos, na rede [HapVida] o Salvalus é o hospital referência. Então todos os casos vão para lá. Por isso, a gente não tem noção da profundidade da quantidade de óbitos”, disse a advogada Eduarda Fragnan Gomes ao Metrópoles.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou à reportagem que os casos, ocorridos nos meses anteriores, foram comunicados nesta quarta-feira (21/10). “A autoridade policial realiza diligências, inclusive com as oitivas de profissionais de saúde e testemunhas, análise integral dos prontuários médicos, visando esclarecer as causas das mortes”, disse a pasta.
O que diz o hospital
Em nota, a rede HapVida, a frente do Salvalus, afirmou que “os pacientes mencionados apresentaram condições clínicas distintas e de elevada gravidade, tendo cada um deles recebido assistência contínua e multidisciplinar, com suporte de uma estrutura hospitalar de alta complexidade e atuação integrada de profissionais de diversas especialidades”.
Segundo a rede, “as condutas terapêuticas foram individualizadas, considerando as necessidades de cada paciente e a evolução de seus quadros clínicos”.
“Por meio de sua diretoria de acolhimento, a unidade mantém um canal aberto de diálogo, colocando-se à disposição para ouvir e prestar os esclarecimentos necessários, com respeito à privacidade e ao sigilo médico”, finalizou a nota.




