Como era de se esperar, o Carnaval de rua de 2026 levou às ruas de São Paulo a mesma complexidade que acompanha a vida dos paulistanos.
Por um lado, a cidade viu uma multidão de foliões em êxtase ocupar blocos para todos os gostos com a presença de estrelas nacionais e internacionais. Por outro, o Carnaval também ficou parcialmente marcado pela superlotação nos blocos de rua, falta de banheiros e sentimento de desprestígio dos blocos tradicionais (veja mais a seguir).
No meio desse campo, entram todas as marcas comuns a um Carnaval que celebra a festividade não só como uma herança europeia, da “despedida da carne” pré-quaresma, mas especialmente como sua matriz afro-diaspórica: celebração, fantasia, mestiçagem cultural, explosão da memória reprimida que tentaramm apagar, território de disputa, reivenção permanente, resistência, gozo por não trabalhar, inversão de posições, tudo isso, e mais um pouco, associado ao passado escravocrata brasileiro, como defende o historiador Luiz Antônio Simas.

Ao todo, a agenda na cidade contou com cerca de 630 blocos, incluindo aqueles que saíram no pré-Carnaval e também os que devem estender a festa na próxima semana. O cálculo é de um bloco para cada 2,41 km² de território da cidade, que tem no total 1.521 km² de área territorial.
Em 2026, a Prefeitura de São Paulo também anunciou que esse seria o primeiro Carnaval 100% financiado pelo investimento privado — a patrocinadora do evento foi a fabricante de bebidas Ambev, que assinou contrato de R$ 30,2 com a cidade –, embora o Metrópoles tenha revelado que o que mudou foi o desmembramento dos itens que tradicionalmente faziam parte do contrato de “infraestrutura”. No Ibirapuera, propagandas dos patrocinadores dos chamados megablocos eram vistas aos borbotões.
Mistura de ritmos
É preciso falar do pré-Carnaval porque foi uma agenda que rivalizou com os quatro dias oficiais do Carnaval de São Paulo. Foi aberto em temperatura máxima, com a fervura do axé. Começou no sábado (7/2) com o bloco Quem Pede, Pede fazendo história ao trazer, pela primeira vez, Ivete Sangalo para a festa de rua paulistana. Uma das “rainhas” do Carnaval baiano, Ivete até ensinou a como se comportar diante de trios elétricos carnavalescos: o caminhão anda, minha gente, não fica parado, tem que andar.
A Prefeitura de São Paulo se vangloriou com as imagens de 1,2 milhão de pessoas naquela tarde no Ibirapuera, segundo cálculo da Polícia Militar, que dificilmente divulga quantidade de público no Carnaval. “Um sucesso”, vaticinou o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
No dia seguinte, um ritmo diferente tomou conta da Rua da Consolação. O centro virou palco da música eletrônica do DJ escocês Calvin Harris. Milhares foram ver seu show com set estilo after.
No mesmo endereço e dia, num encontro que superlotou a Consolação, o Acadêmicos do Baixo Augusta atraiu fãs de samba com o show do cantor Péricles. Era só o pré-Carnaval, mas a variedade de opções já dava o tom do que viria pela frente. A “trombada” do bloco (leia mais abaixo) com o do DJ do after na Consolação fez soar o alerta de que algo caótico ocorria naquela tarde ensolarada para macular o vaticínio do prefeito.
Nos quatro dias de Carnaval oficial em São Paulo, os paulistanos e foliões de demais origens tiveram de MPB a sertanejo, passando por ritmos como funk, rock, pop, reggae, reggaeton e até k-pop. Uma diversidade musical que já virou marca registrada da cidade e que atrai diferentes públicos para as apresentações.
No quesito formato de festa, os megablocos foram os que mais chamaram atenção no geral, fora o pré-Carnaval. Artistas como Michel Teló, Lauana Prado e Pocah foram alguns dos que voltaram a trazer seus trios elétricos para a cidade.
O mesmo fez a cantora Pabllo Vittar, uma das mais aguardadas no Carnaval paulistano e que, neste ano, trouxe a participação do grupo sul-coreano NMIXX, com quem lançará música em breve.
Os blocos tradicionais também tiveram espaço, assim como sempre terão no coração de milhares de curtidores de Carnaval, embora organizadores questionem as prioridades da prefeitura para o Carnaval de rua em 2026. Entre as apresentações clássicas, o destaque ficou para blocos que completaram uma década ou mais de histórica, como Tarado Ni Você e MinhoQueens, este trazendo diversidade.
Superlotação e falta de banheiros
Apesar de diverso, catártico e profano, o Carnaval paulistano trouxe desafios para os foliões que saíram às ruas. Uma das principais reclamações foi a dificuldade para encontrar banheiros públicos.
No bloco Charanga do França, por exemplo, o Metrópoles não localizou nenhum banheiro no primeiro trecho do trajeto. A percepção foi a mesma entre a multidão. “Não só nesse bloco, mas em todos que fui até agora”, comentou a comerciante Lúcia Amorim.


Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Banheiro em bloco de Carnaval em SP
Vinicius Passarelli/Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Charanga do França
Vinicius Passarelli/Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Público no show de Michel Teló
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Sob um calor de mais de 30 graus, foliões recorrem a leques distribuídos por patrocinadores enquanto aguardam a chegada de Michel Teló para o bloco Sertanejinho do Teló, no Ibirapuera, zona sul de São Paulo. Antes da chegada do sertanejo, o público já curte a festa ao som de clássicos do axé
Vinicius Passarelli/Metrópoles

Cantora Pocah agita multidão de foliões no desfile do Bloco da Pocah, neste domingo (15/2), no Ibirapuera, em São Paulo
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Cantora Pocah agita multidão de foliões no desfile do Bloco da Pocah, neste domingo (15/2), no Ibirapuera, em São Paulo
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Domingo Ela Não Vai leva axé para o Carnaval de São Paulo
Fraga Alves/ Especial Metrópoles


Bloco Domingo Ela Não Vai leva axé para o Carnaval de São Paulo
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Domingo Ela Não Vai leva axé para o Carnaval de São Paulo
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Domingo Ela Não Vai leva axé para o Carnaval de São Paulo
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Domingo Ela Não Vai leva axé para o Carnaval de São Paulo
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Domingo Ela Não Vai leva axé para o Carnaval de São Paulo
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Agrada Gregos
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Agrada Gregos
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Agrada Gregos
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Aglomeração de ambulantes no bloco Agrada Gregos, no Ibirapuera
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Bloco Agrada Gregos
Fraga Alves/ Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles

Tradicional bloco da Espetacular Charanga do França, no bairro de Santa Cecília, região central da capital, nesta segunda-feira, 16 de fevereiro.
Fábio Vieira/Especial Metrópoles
Já o Manada, que desfilou no sábado (14/2) na Barra Funda e percorre trajeto de mais de 1km, não havia nenhum banheiro à disposição. Para o Filhos de Plutão, outro bloco tradicional próximo à Lapa, a prefeitura instalou somente três unidades, nenhuma delas no trajeto. Nunca mais voltarão à Terra se continuar assim.
Sem muitas alternativas e desmotivados por longas filas, foliões recorreram às árvores e até muros de casas para aliviar as necessidades. Na República, a cena foi comum.
O problema da falta de banheiros havia sido antecipado pelo colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles. Texto publicado antes mesmo do pré-Carnaval já relatava que o a SPTuris teria recursos para contratar, no máximo, 15,3 mil locações de banheiros, 37% a menos do que no ano passado. Além disso, relatórios indicam que a empresa contratada pela prefeitura deixou de entregar banheiros ou atrasou o envio em determinados pontos, como na Vila Mariana.
Procurada para comentar sobre a falta de banheiros durante a semana, a prefeitura não respondeu.
Outro problema foi a superlotação, tanto para ver Ivete Sangalo, que chegou a interromper a apresentação para orientar os foliões, quanto para estar ao lado do Baixo Augusta e do DJ.
No caso de Calvin Harris, foliões derrubaram a grade da Escola Paulista de Magistratura (EPM) e invadiram o quartel dos bombeiros em meio ao empurra-empurra da multidão. Uma jovem, de 22 anos, relatou ter perdido a parte de cima da roupa ao ter sido agredida por uma policial militar (PM) durante o Bloco Skol.
O problema motivou a prefeitura a anunciar mudanças nas medidas de segurança, incluindo acompanhamento de agentes de dentro do trio, novas áreas de saída de emergência e reposicionamento dos postos de saúde.
Nos dias de Carnaval oficial, o público foi menor, mas voltou a abarrotar o Ibirapuera no Bloco da Pabllo. Durante o trajeto, funcionários do bloco precisaram empurrar foliões para garantir a segurança no entorno do trio elétrico.
O clima também dificultou a festa, mas aí é do jogo por estarmos na estação mais quente do ano. Sob sol intenso e com termômetros batendo os 33ºC, foliões passaram mal, desmaiaram e precisaram ser levados por socorristas em diferentes desfiles. Em algumas tardes, o público também lidou com tempestades, princípios de alagamento e barro em algumas regiões.
Tradicional x comercial
Em 2026, organizadores de blocos mais tradicionais da capital paulista reclamaram da fuga dos patrocinadores, que migraram para os megablocos do Ibirapuera priorizados pela prefeitura.
O Tarado Ni Você abriu o desfile no centro de São Paulo com um manifesto político. “Sequestraram o Carnaval”, dizia uma faixa estendida atrás de foliões encapuzados. Os organizadores soltaram fumaça preta enquanto falavam que faltava apoio aos blocos paulistanos.
“Carnaval é feito de suor, de parceria, de respeito e dedicação. É por isso que pedimos para a prefeitura, para as marcas, e artistas que estão chegando no rolê agora: respeitem os blocos que construíram o Carnaval de rua de São Paulo. Respeitem quem veio antes abrindo caminho para que esse se tornasse o maior carnaval de rua do país”, disse um dos organizadores, ovacionado pelo público.
Envolvido no tumulto na rua da Consolação, o Baixo Augusta também criticou a organização da prefeitura, especialmente por ter dividido endereço com o megabloco do Calvin Harris. “Com 17 anos de história, o maior bloco da cidade e um dos maiores do Brasil foi desrespeitado de forma triste e violenta, mostrando a todos uma prova clara da falta de competência para realizar o que foi proposto e do compromisso da cidade com os blocos que recriaram o Carnaval de São Paulo”, afirmou o Baixo Augusta, em nota.
Entre os ambulantes, as queixas foram sobre excessos de carrinhos e dificuldades para acessar os principais blocos. O Ministério Público do Trabalho (MPT) chegou a recomendar quatro medidas à prefeitura e à Ambev após tomar ciência de que ambulantes estavam acampados nos arredores do Parque Ibirapuera, em busca de espaço nos megablocos.
A grande quantidade de vendedores nos cortejos elevou muito a concorrência e derrubou o faturamento — ao todo, a Ambev, patrocinadora do evento, cadastrou 15 mil ambulantes para trabalhar no Carnaval, que ocorre oficialmente entre 7 e 22 de fevereiro.
Criatividade policial
Grandes eventos em São Paulo também acendem alerta para roubos e outros crimes. Em 2026, a criatividade da Polícia Civil chamou atenção. Os agentes utilizaram fantasias de personagens dos desenhos Scooby-Doo, Chaves, Minions e Caça-Fantasmas para surpreender suspeitos durante a folia.
Até domingo (15/2), policiais civis e militares haviam apreendido cerca de 60 celulares e prendido ao menos 33 pessoas nos blocos de rua. As autoridades contaram com a Sala de Gerenciamento de Incidentes (SGI), que utiliza drones e câmeras para monitorar os eventos.



