O Carnaval é sinônimo de festa, calor e longas horas de celebração. Para muitos foliões, o consumo de bebida alcoólica faz parte do pacote. O problema é que o exagero, comum durante o feriadão, pode trazer impactos sérios para a saúde — e não apenas para o fígado. Rins, coração, sistema imunológico e até o cérebro entram na conta dos prejuízos.
Segundo o nefrologista Thyago Proença, concentrar grandes quantidades de álcool em poucos dias sobrecarrega o organismo e pode causar efeitos importantes mesmo em pessoas jovens e aparentemente saudáveis.
Mitos e verdades sobre bebidas alcoólicas
- Não existe dose totalmente segura de álcool.
- Cerveja não hidrata e pode piorar a desidratação.
- Intercalar água ajuda, mas não anula os riscos.
- “Detox” pós-Carnaval não acelera a recuperação do corpo.
Excesso em poucos dias é um risco real
De acordo com o médico da Nefroclínicas – Eco Medical Center, o padrão de consumo típico do Carnaval — muito álcool em pouco tempo — é especialmente perigoso.
“O álcool provoca desidratação, irrita o trato gastrointestinal, sobrecarrega o fígado e reduz reflexos e julgamento, aumentando as chances de acidentes e comportamentos de risco”, explica.
Além disso, o impacto vai além da ressaca. Órgãos que costumam ficar fora do radar, como os rins, também sofrem com o excesso.
Álcool desidrata — e os rins sentem
Um dos mitos mais comuns é o de que apenas o fígado é prejudicado. Na prática, os rins são diretamente afetados porque o álcool inibe a ação da vasopressina, hormônio responsável por ajudar o corpo a reter água.
“O organismo passa a eliminar mais líquidos do que deveria. Isso causa sede intensa, boca seca, dor de cabeça, tontura e cansaço. A desidratação reduz o fluxo sanguíneo para os rins e diminui temporariamente a capacidade de filtração”, afirma Proença.
A perda excessiva de líquidos também pode gerar desequilíbrios de sódio e potássio, afetando pressão arterial, batimentos cardíacos e função muscular. Episódios repetidos de exagero aumentam o risco de lesão renal aguda, pedras nos rins, arritmias e agravamento da hipertensão.
Cerveja hidrata?
Outra crença popular da folia é a de que a cerveja ajuda a hidratar por conter água. O especialista é direto: isso é falso. “Apesar de ter água, o álcool é diurético. O saldo final é perda de líquidos e desidratação”, diz.
Intercalar álcool com água pode ajudar a reduzir danos, mas não elimina os riscos. “A água não neutraliza o álcool. A pessoa continua intoxicada, com reflexos prejudicados e exposta a riscos renais, cardiovasculares e neurológicos. É redução de danos, não passe livre para exagerar”, reforça.
Coração, pressão e imunidade também sofrem
O consumo excessivo pode elevar a pressão arterial e provocar arritmias, inclusive em quem não tem doença cardíaca conhecida. Outro efeito pouco lembrado é a queda da imunidade, o que facilita infecções — um risco relevante em ambientes lotados, como blocos e festas.
Pessoas com hipertensão, diabetes ou que usam medicamentos de forma contínua precisam de atenção redobrada. “Mesmo pequenas quantidades podem causar efeitos mais intensos nesses grupos”, alerta o nefrologista.
Sinais de alerta do corpo
Urina escura é um dos principais sinais de desidratação e sobrecarga dos rins. O normal é que ela seja clara ou levemente amarelada. Outros alertas incluem diminuição do volume urinário, cheiro forte, inchaço, náuseas, tontura, cansaço extremo e dor lombar.
Casos de ausência de urina por várias horas, vômitos persistentes, confusão mental, desmaios ou sonolência excessiva exigem atendimento médico imediato. Em situações mais graves, o excesso de álcool pode levar à lesão renal que demanda internação e até diálise temporária.
Existe dose segura?
Do ponto de vista médico, não existe dose totalmente segura de álcool. Fala-se apenas em consumo de baixo risco: até uma dose por dia para mulheres e até duas para homens — lembrando que concentrar várias doses em poucas horas aumenta muito os riscos. Uma dose equivale a uma lata de cerveja (350 ml), uma taça de vinho (150 ml) ou uma dose de destilado (40 ml).
Para gestantes e pessoas com doenças renais, hepáticas, cardíacas ou histórico de dependência, não há quantidade segura.
Também não existem “detox milagrosos” após o Carnaval. “Quem faz a desintoxicação é o próprio organismo, com hidratação adequada, alimentação equilibrada, descanso e suspensão do álcool. Produtos detox não aceleram esse processo de forma comprovada”, afirma Proença.
A principal recomendação, segundo o médico, é moderação. Evitar beber em jejum, respeitar limites, alternar com água, não dirigir após consumir álcool e prestar atenção aos sinais do corpo são atitudes essenciais. “O excesso não é inofensivo. E os efeitos vão muito além da ressaca”, conclui.



