Uma complexa e violenta organização criminosa digital, conhecida como “Country”, aterrorizou ao menos 400 vítimas em todo o país, utilizando táticas cruéis que incluem: aliciamento de menores, indução à automutilação e estupros virtuais.
Entre as vítimas, estão o youtuber Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, e a psicóloga Ana Dornellas Chamati, com a qual o influenciador realizou entrevista sobre adultização de crianças na internet, tornando-os alvo da organização criminosa.
Investigações da Polícia Civil de São Paulo, por meio do Núcleo de Observação de Análise Digital (Noad), revelaram os métodos utilizados por líderes do grupo, como Cayo Lucas Rodrigues dos Santos — conhecido no submundo virtual como Lucifage e F4llen — e um adolescente de 17 anos, que também usava um codinome para coagir e explorar suas vítimas.



Cayo praticava crimes a ele atribuídos em um quarto
Reprodução/Polícia Civil


Criminosos divulgavam ‘serviços” nas redes sociais
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Criminosos divulgavam ‘serviços” nas redes sociais
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Preso por ameaçar Felca seria líder de organização criminosa que atua na internet
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Cayo fala sobre mandado de prisão frudulento que expediu contra Felca
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Ambos foram alvo de um operação, na qual foram flagrados no momento em que estavam logados, ilegalmente, em um sistema da Polícia Civil de Pernambuco, estado onde Cayo foi preso e o adolescente apreendido, em 25/8.
O grupo Country operava ativamente em plataformas, como Telegram e Discord, e foi monitorado pelo Noad desde o segundo semestre de 2024, no âmbito da Operação Nix.
Webnamoro
As vítimas, em sua maioria meninas menores de idade, são primeiramente cooptadas em jogos online e grupos de bate-papo, por meio de um período de aliciamento, conhecido como webnamoro.
Após esse aliciamento inicial, as vítimas são assediadas e chantageadas, sofrendo “extrema violência física e psicológica”. O adolescente, apontado como um dos líderes do grupo criminoso, é explicitamente associado à indução, instigação e auxílio à automutilação. Ele, inclusive, promovia o uso de “plaquinhas” com seu codinome em fotos de automutilação, que eram subsequentemente divulgadas pelo grupo.
Imagens chocantes exibiam adolescentes com as tais “plaquinhas” em cenas de automutilação. Um vídeo, publicado pelo adolescente infrator, ostentava as coxas de uma vítima de automutilação como “troféu de suas atrocidades”. A frieza de Cayo e do menor de idade é evidenciada, segundo a investigação, pela determinação para que as vítimas lhes enviassem fotos nuas e se automutilassem para evitar a divulgação de segredos, que poderiam ser publicados em redes sociais, ou ainda repassados para os pais das vítimas.
Organização dos estupros virtuais e outros Crimes
A organização criminosa Country não se restringe à automutilação, mas também é responsável pela prática de estupros virtuais. Esses crimes envolvem a coação de vítimas para a realização de atos sexuais por meio de plataformas digitais.
A identificação de Cayo e do adolescente como os responsáveis pela criação e administração do grupo criminoso no Discord e Telegram revela que a comunidade é utilizada para uma vasta gama de crimes graves, além das ameaças à psicóloga Ana Beatriz Dornellas Tabbal Chamati e ao influenciador digital Felca.
As atividades criminosas do grupo
- Ameaças a autoridades e vítimas.
- Invasão de sites governamentais para acessar e divulgar bases de dados restritas e sigilosas.
- Comercialização de logins governamentais, incluindo sistemas restritos das polícias e do Judiciário.
- Produção, venda e compartilhamento de pornografia infantil, com vídeos e fotos íntimas de menores.
- Tortura e atos de crueldade contra animais, documentados em vídeos e fotos.
- Apologia ao nazismo, incluindo a divulgação de símbolos, mensagens e ideologias, como a frase “Morte aos negros!” e suásticas escritas com sangue.
- Doxxing: exposição de dados pessoais de vítimas para intimidação e coerção.
- Inserção de falsos mandados de prisão no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP), aplicação de multas não cometidas e criação fraudulenta de dívidas no Serasa.
A Polícia Civil destaca na investigação a capacidade técnica de Cayo Lucas em invadir, manipular e fraudar sistemas de alta segurança, como o malote digital do Poder Judiciário, além de dominar métodos de lavagem de dinheiro. O adolescente infrator, por sua vez, foca suas ações na violência direta contra as vítimas, com um perfil manipulador e promotor de discurso de ódio racial contra negros, mesmo ele sendo afrodescendente.
A conduta da dupla, como destacado na investigação “demonstra um desprezo pelas instituições públicas e uma sensação de impunidade”.