A investigadora da Polícia Civil de São Paulo Tânia Aparecida Nastri e o colega Carlos Huerta depositaram, cada um, fiança de R$ 20 mil para não serem presos preventivamente e responderem em liberdade a acusações de corrupção.
O valor foi fixado pelo juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital. A defesa dos policiais não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.
Além do pagamento, desde esta segunda-feira (16/02), ambos passaram a usar tornozeleira eletrônica e tiveram os passaportes recolhidos, segundo fontes que acompanham o caso. Como revelou o Metrópoles, trata-se da primeira vez, na história da Polícia Civil paulista, que agentes da ativa são monitorados por meio do equipamento.

Suspeita de comércio de influência
A suspeita é a de que Tania teria usado um suposto prestígio junto a integrantes do alto escalão da corporação para cobrar propina de policiais investigados em processos disciplinares. A promessa, segundo a investigação, seria interceder em favor dos colegas em apuros administrativos.
Huerta é apontado como integrante do mesmo esquema. Os dois foram afastados das funções após o avanço das investigações, que miram em um suposto comércio de influência dentro da instituição.
Como também revelado pelo Metrópoles, a apuração indica que policiais sob investigação disciplinar eram abordados com a oferta de “ajuda” para amenizar ou reverter procedimentos internos, mediante pagamento.
O caso tramita na Justiça sob a condução da 1ª Vara especializada em crimes tributários, organização criminosa e lavagem de bens e valores. A decisão que autorizou as medidas cautelares alternativas à prisão — fiança, tornozeleira e entrega de passaporte — considerou os indícios reunidos até o momento e a necessidade de preservar a instrução processual.
Mensagens citam Tania
As suspeitas contra os policiais ganharam corpo após a Polícia Federal analisar os celulares apreendidos dos policiais civis Valdenir de Paulo Almeida, o Xixo, e Valmir Pinheiro, o Bolsonaro, presos desde setembro de 2024 no âmbito da Operação Face Off. Ambos são acusados de receber propina para arquivar investigações sobre tráfico de drogas.
Em uma das conversas, Xixo afirma que “já ligaram pra Tania”. O interlocutor responde: “Pior, ela conhece eles tbm”, seguido do alerta: “Cuidado pra não tomar uma dedada, esses putos podem ir direto nela”. Xixo conclui: “Ela já sabe”. As mensagens seriam referentes a uma suposta possibilidade de recebimento de propina.
O relatório policial registra que o teor das mensagens “leva a crer que Tania, possivelmente Tania Aparecida Nastri, investigadora de polícia que mantém contato de proximidade com Xixo”, teria conhecimento sobre membros do crime organizado supostamente envolvidos com os agentes.
Foto de membro do PCC assassinado
Em 4 de maio de 2023, segundo interceptação da PF, Xixo encaminhou a foto do corpo de Rafael Maeda Pires, o Japa, integrante da liderança do Primeiro Comando da Capital (PCC), morto horas antes de prestar depoimento. A imagem foi enviada para quatro pessoas, entre elas uma cujo contato estava salvo como Tania.
O relatório também ressalta o vínculo dela com Fábio Baena, delegado cujo contato também teria recebido a foto de Japa morto. Ele e o chefe de investigações Eduardo Monteiro foram presos suspeitos de envolvimento com o PCC e na morte de Vinícius Gritzbach, fuzilado dias após iniciar delações indicando a relação de agentes públicos com a maior facção criminosa do país.
Em outro trecho, o documento da PF menciona que Tania e Baena teriam ido a uma mesma localização, reforçando o vínculo dela com outros investigados no caso envolvendo a morte do delator do PCC.
Afastamento e suspeita de favorecimento ao crime
Ao se deparar com a troca de mensagens levantadas por meio da Operação Face Off, a PF compartilhou o material com o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Corregedoria da Polícia Civil, que aprofundou as diligências.
Além da suspeita de prestar “serviços” a colegas em dificuldades, os dois passaram a ser investigados por possível favorecimento a integrantes do crime organizado. O relatório não aponta condenação nem descreve crime consumado, mas destaca a repetição do nome de Tania nas conversas e o recebimento de conteúdo sensível relacionado ao PCC.
É esse conjunto de mensagens — obtidas a partir dos celulares de Xixo e Bolsonaro — que sustenta o afastamento dos investigadores e mantém a apuração em andamento.




