Já pensou em viajar para um lugar onde o luxo está associado ao silêncio e a contemplação? Onde um prato conta a história dos ingredientes daquele território, uma peça feita à mão carrega um conhecimento transmitido entre gerações e uma caminhada pela mata pode revelar coisas que, sem alguém para explicá-las, passariam despercebidas diante dos olhos?
Na Amazônia, exclusividade e luxo significam justamente isso: experimentar algo que não poderia ser reproduzido com a mesma verdade em nenhum outro endereço do planeta.
Há conforto, boa gastronomia e serviço de alto padrão em meio a selva. Mas há também rios sem fim, uma floresta com paisagens intocadas e pessoas capazes de transformar uma folha, uma semente ou uma lenda em algo especial aos olhos de quem veio de longe.

O luxo na floresta
Para Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), o significado de luxo se transformou no últimos anos.
“Atualmente a experiência de luxo é traduzida em algo muito mais sensorial do que material. Às vezes são elementos muito simples, mas muito únicos, autênticos e bem cuidados.”
Camilla Barretto, CEO da BLTA
Isso não significa abandonar conforto, boa gastronomia ou serviço de qualidade. Significa acrescentar algo que dinheiro não consegue produzir: identidade.

A CEO aponta que a sustentabilidade também não deve ser separada do segmento. “O luxo é indissociável da sustentabilidade.”
E o perfil do viajante mudou, pontua Camilla. “Quem vai em busca de uma experiência de luxo na floresta quer saber de onde vem a comida, quer conhecer a história daquelas pessoas, como as coisas são feitas, de onde vêm os materiais. Ele quer ver a vida real como ela é”, diz Camilla.
Segundo ela, esse turista que atravessa milhares de quilômetros para conhecer a floresta preservada, biodiversidade, cultura e comunidades locais se interessa menos por representações folclóricas criadas exclusivamente para visitantes.
Augusto Costa Filho, empresário e um dos proprietários do Anavilhanas Jungle Lodge, em Novo Airão, diz que a grande maioria dos hóspedes que buscam seu empreendimento, têm esse perfil.
“Hoje se fala muito desse novo luxo, chamado de quiet luxury. E a Amazônia é a cara disso.”
Para ele, quatro elementos resumem o que esse público procura: arquitetura, gastronomia, natureza e cultura. “A Amazônia entrega tudo isso de forma arrebatadora.”
Fabiana Caricati Boaretto, empresária, esposa e sócia de Augusto, acrescenta que a região precisa se afastar da ideia do “luxo dourado”. Segundo ela, o caminho está na combinação entre “autenticidade, bom serviço e conforto”.


Área externa do hotel combina arquitetura e paisagem amazônica
Felipe Castellari

Espaço de convivência do hotel é cercado pela vegetação
Felipe Castellari

Arquitetura valoriza materiais naturais e integração com a floresta
Felipe Castellari

Quartos unem conforto e materiais naturais em hospedagem na Amazônia
Felipe Castellari

Hospedagem aposta na integração entre conforto e natureza amazônica
Felipe Castellari

Áreas comuns valorizam iluminação natural e contato com a natureza
Felipe Castellari

Gastronomia e elementos artesanais fazem parte da experiência de hospedagem
Felipe Castellari

Restaurante valoriza arquitetura integrada à paisagem amazônica
Felipe Castellari

Arquitetura do hotel prioriza madeira, iluminação natural e contato com a floresta
Felipe Castellari
Inaugurado em 2007, o Anavilhanas é um retrato de como o interesse pela região mudou. Quando o hotel abriu, cerca de 90% dos hóspedes eram estrangeiros e apenas 10% brasileiros. Hoje, de acordo com os donos, a divisão gira em torno de 60% de estrangeiros e 40% de brasileiros. “Acho que o brasileiro se interessa mais pela Amazônia hoje do que se interessava há 20 anos”, afirma Augusto.
Mas o empresário entende que o turismo na floresta tem suas peculiaridades. “É um destino em que o visitante precisa de condutor, precisa de gente que conhece o lugar, equipamento, combustível, roteiro, história”, explica Augusto. O guia, portanto, não serve apenas para mostrar o caminho. Ele funciona como um tradutor da floresta.
“O que faz a Amazônia ter sentido é incorporar o conhecimento ancestral, o saber de quem é local, dentro dessa jornada.”
Sem esse olhar, o visitante pode enxergar apenas árvores. Com ele, começa a entender quantos ecossistemas, histórias e conhecimentos existem dentro daquela paisagem.

O grande desafio
Se natureza e cultura são vantagens competitivas, infraestrutura continua sendo um dos principais desafios da região. “
Às vezes as rotas impedem”, resume Camilla. Mais conexões aéreas poderiam facilitar a chegada de turistas nacionais e internacionais, mas o problema vai além dos aeroportos.
Fabiana chama atenção para necessidades básicas de quem vive nas cidades amazônicas. “Como é que eu vou garantir qualquer coisa se a pessoa que vai trabalhar ali não tem uma moradia digna, não tem água encanada e não tem tratamento de esgoto?”.
Com apenas 25 quartos, o Anavilhanas se tornou o maior empregador privado de Novo Airão. Diante disso, Augusto reforça: “A infraestrutura não pode ser só para o turista. A infraestrutura tem que ser para quem está ali todo dia”.
Educação também entra nessa conta. O empresário relata que ainda é necessário contratar profissionais de outras regiões para algumas funções que exigem inglês, mesmo quando há trabalhadores locais tecnicamente preparados.
Qualificar a população significa, portanto, não apenas melhorar o serviço, mas permitir que os empregos mais valorizados também permaneçam na região.


Experiência na floresta aproxima visitantes da natureza amazônica
Felipe Castellari

Turismo de natureza permite conhecer detalhes da floresta amazônica
Felipe Castellari

Passeios pela floresta fazem parte da experiência de hospedagem na Amazônia
Felipe Castellari

Guia explora formação natural durante atividade na floresta
Felipe Castellari

Guias ajudam visitantes a interpretar a floresta durante experiências na Amazônia
Felipe Castellari

Caminhadas revelam paisagens e elementos da floresta que passam despercebidos, como os jacarés
Felipe Castellari

Turismo de natureza também inclui experiências em meio à floresta durante a noite
Felipe Castellari

Pôr do sol sobre a paisagem amazônica encerra experiência na natureza
Felipe Castellari
Turismo no Brasil
O interesse pela floresta chega em um momento de crescimento do turismo brasileiro. O país recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais em 2025, o que corresponde a uma alta de 37,1% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, os gastos de estrangeiros chegaram a US$ 7,9 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, foram 3,74 milhões de chegadas internacionais.
O Amazonas também acompanhou esse movimento. O estado recebeu 88.869 turistas estrangeiros em 2025, apontando um crescimento de 38% sobre 2024. Entre janeiro e março de 2026, o desembarque de passageiros internacionais no Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, avançou 14,84%.
A COP30, realizada em Belém em 2025, ampliou ainda mais a exposição internacional da Amazônia. O desafio agora é transformar essa atenção em turismo permanente sem criar um modelo de massa capaz de degradar justamente aquilo que os visitantes querem conhecer.
Legado depois da COP30
A Embratur afirma que pretende transformar a visibilidade conquistada durante a COP30 em fluxo turístico permanente.
Segundo Leonardo Persi, coordenador de Segmentos Turísticos da agência, a estratégia passa por mais conectividade internacional, fortalecimento do turismo de natureza e promoção conjunta dos sete estados da Região Norte. Estados Unidos, Alemanha, França, Portugal, Colômbia e Peru aparecem entre os mercados com destaque para viagens ligadas à natureza na região.
Para a Embratur, a Amazônia também tem alto potencial no mercado de alto padrão porque reúne características cada vez mais procuradas: autenticidade, exclusividade, privacidade, silêncio e contato com a natureza preservada.
A COP30 colocou a região em uma vitrine global. O desafio agora é fazer com que o turismo gere renda para quem vive ali e ajude a manter de pé aquilo que motivou a viagem. Na Amazônia, talvez o verdadeiro luxo seja exatamente esse: encontrar algo que o dinheiro pode permitir conhecer, mas jamais fabricar.


