Candidatos com diabetes tipo 1 que participaram do concurso para analista legislativo da Câmara dos Deputados, aplicado em 8 de março, em Brasília, revelam que medidas adotadas durante a realização da prova dificultaram o monitoramento da glicemia. O certame foi organizado pelo Cebraspe.
Segundo uma candidata ouvida pelo Metrópoles, que preferiu não se identificar, fiscais teriam informado que equipamentos como glicosímetro, sensores de glicose e insulina não poderiam ser utilizados dentro da sala.
Procurado, o Cebraspe informou que o uso de aparelhos medidores de glicemia pode ser autorizado, desde que respeitados protocolos de segurança adotados nos eventos, e alegou que os editais preveem a possibilidade de concessão de tempo adicional.
De acordo com o relato, os participantes foram orientados a deixar o local sempre que precisassem medir a glicemia ou aplicar insulina, com acompanhamento de um profissional de enfermagem.
A candidata afirma que questionou a orientação no momento da prova.
“Argumentamos que possuímos autorização para utilizar tais equipamentos, conforme as normas estabelecidas. A banca já havia conduzido outros processos seletivos sem impor essa restrição”, disse.
Mesmo assim, segundo ela, o procedimento foi mantido.
De acordo com o relato, a exigência não estava prevista no edital do concurso. A candidata afirma que a medida acabou prejudicando seu desempenho.
“Fiquei com dor de cabeça, dificuldade de concentração, e isso impacta diretamente a prova”, afirmou.
Ela também relata que, durante a aplicação, a glicemia subiu de forma significativa.
“No início estava dentro do normal. Depois, passou de 300. Em outra medição, chegou a mais de 360. No horário do almoço, ultrapassava 500”, disse.
A candidata afirma que registrou a situação em um formulário de avaliação do atendimento especializado entregue aos participantes ao final da prova.
Resposta do Cebraspe
Segundo a Cebraspe, por se tratar de equipamento eletrônico e não transparente, o aparelho deve ser acondicionado em envelope porta-objetos e manuseado em ambiente previamente definido, com acompanhamento de profissional de enfermagem.
O Cebraspe afirmou ainda que a medição costuma ser realizada de forma pontual durante a prova e leva apenas alguns minutos. A banca também destacou que os editais preveem a possibilidade de concessão de tempo adicional, desde que atendidas as regras do certame.
Candidatos contestam regra e apontam contradições
A candidata ouvida pelo Metrópoles contesta a justificativa da banca e afirma que o procedimento não está previsto no edital do concurso.
Segundo ela, os itens que tratam de restrições a objetos mencionam recipientes e materiais específicos, como garrafas e canetas, mas não fazem referência a equipamentos médicos como o glicosímetro.
Ela também aponta uma possível contradição nas regras relacionadas ao tempo adicional. De acordo com o edital, o benefício está condicionado à caracterização como pessoa com deficiência (PcD). No entanto, o diabetes tipo 1 não é reconhecido como deficiência, o que, segundo a candidata, inviabiliza o pedido.
“Se tivéssemos sido informados previamente sobre esse procedimento, poderíamos ter nos organizado de outra forma. Mas o edital não traz essa exigência”, afirmou.
A candidata também afirma que, conforme as regras do próprio edital, candidatos que solicitam tempo adicional sem serem reconhecidos como pessoa com deficiência podem ser eliminados do concurso, o que, segundo ela, gera insegurança para quem tem a condição.
Falta de previsão no edital
O edital do concurso prevê a possibilidade de atendimento especializado e tempo adicional para candidatos que atendam aos critérios estabelecidos. No entanto, não há menção específica sobre a obrigatoriedade de retirada da sala para uso de glicosímetros ou sensores de glicose.
Para a candidata, a ausência de previsão clara abre espaço para interpretações durante a aplicação da prova e pode impactar diretamente candidatos com condições de saúde que exigem monitoramento contínuo.
“Não se trata de pedir tratamento diferenciado, mas de garantir condições mínimas para realizar a prova em igualdade”, disse.
Debate sobre reconhecimento da condição
A candidata também destacou que pessoas com diabetes tipo 1 ainda enfrentam dificuldades para ter suas necessidades plenamente reconhecidas em processos seletivos.
Atualmente, a condição não é classificada como deficiência para fins de concorrência em vagas reservadas em concursos públicos. Segundo ela, isso cria um cenário em que candidatos precisam de adaptações, mas não se enquadram nos critérios exigidos para obtê-las formalmente.
“Acabamos em um limbo: precisamos de condições específicas, mas não temos respaldo suficiente nas regras”, afirmou.

