Os corpos dos integrantes da banda Mamonas Assassinas, Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Júlio Rasec e Sérgio Reoli, serão exumados 30 anos após o trágico acidente aéreo que vitimou os cinco no auge da fama.
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A exumação, marcada para esta segunda-feira (23/2), se dá, segundo o familiar de um dos artistas mortos, com um propósito maior: os restos mortais dos músicos serão cremados visando a criação do Jardim BioParque Memorial Mamonas.
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O jardim será implantado no Cemitério Primaveras, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, local onde eles estão sepultados. Uma sexta vítima da tragédia aérea ocorrida em 1996, o segurança Sérgio Saturnino Porto, também foi enterrado no local. Não há informação se haverá exumação dos restos mortais do homem que atuava como segurança da banda.
A iniciativa da criação do jardim integra um conceito que propõe uma nova forma de homenagem póstuma, onde as cerimônias utilizam as cinzas resultantes da cremação juntamente com a semente de espécies nativas. Além de um espaço de memória, silêncio e presença em homenagem a banda, o memorial amplia seu alcance para a comunidade. Os moradores do município poderão utilizar as cinzas de seus entes queridos para plantar árvores no Jardim.
“É um lindo projeto onde temos um Memorial Mamonas Assassinas cheio de lembranças boas com fotos. Cada árvore irá representar um artista! [É] algo inovador que, depois de trinta anos, nós, os familiares, resolvemos aderir”, disse Jorge Santana, CEO da marca Mamonas e primo do Dinho. “Para a gente, Mamonas continua sendo um motivo de muito orgulho, onde a memória tem e deve ser preservada.”
Relembre a tragédia
Era 2 de março de 1996 quando o fotógrafo Fernando Cavalcanti foi o primeiro profissional da imprensa a chegar à cena do acidente, na Serra da Cantareira, no interior de São Paulo. Ele revelou os bastidores da cobertura em um relato publicado no El País, em 2018.
“Minhas fotos mais famosas ainda são as dos pedaços dos corpos dos Mamonas Assassinas espalhados no mato ao redor dos destroços.”
“Fui escondido no mato com um rolo de 36 poses”
Na madrugada da tragédia, Cavalcanti cobria a ronda policial para o Notícias Populares. Ao ouvir no rádio que o avião que transportava a banda havia caído, correu para Guarulhos com um repórter.
“No breu da noite, as buscas tinham sido suspensas. Tirei o colete, embrulhei a câmera numa camisa, deixei minha mochila com o repórter e me escondi no mato.”[/olho]
Sem autorização, ele seguiu a equipe de resgate barranco acima. A cada pedaço de fuselagem, fazia um clique. Até que encontrou os corpos. O fotógrafo só tinha um filme com 36 poses — e a missão de registrar tudo.
“Veio o primeiro corpo. E um desespero profundo. Não pelos corpos, mas por perceber que tinha só aquele filme. O resto tinha ficado na mala.”
As imagens, publicadas em primeira página pelo NP, causaram comoção nacional e ajudaram o jornal a bater recordes de tiragem. Mas também geraram revolta, ameaças e uma reflexão que ainda acompanha o fotógrafo.
“Nunca me culpei por ter feito aquelas fotos. Já mudei de opinião várias vezes sobre a publicação delas. Hoje, tenho certeza de que pertencem ao lado do entretenimento — e não do jornalismo.”
Cavalcanti também relembra o impacto tardio da tragédia. Só percebeu o tamanho da comoção horas depois, vendo seus primos chorarem diante da TV, no tradicional almoço de domingo na casa dos pais.
“A imagem dos meninos da banda começou a casar com a dos corpos que eu tinha fotografado.”
O fotógrafo conta que, dias depois da tragédia, um homem apareceu na redação com uma mão em decomposição embrulhada num saco plástico. Tinha ido “caçar souvenirs” do acidente e achou a mão no mato. Ao invés de levar para a polícia, entregou ao jornal. “Coitado do Rogerinho, teve que fotografar aquilo”, escreveu.
O jornal também montou uma exposição interna com as “melhores fotos”, que atraiu tanta gente que a segurança precisou suspender a visitação.
“Teve até jornalista querendo fazer cópias das fotos para vender e dividir o lucro.”
Mesmo após o sucesso da cobertura, Cavalcanti não foi contratado. Saiu do jornal, fez frilas para a Folha de S.Paulo e, em menos de um ano, se mudou para Londres.
“Todos os dias publicávamos mortos. Quase sempre pobres”
No relato, Fernando Cavalcanti reflete sobre as capas sensacionalistas com sangue, nudez e tragédias.
“Publicávamos mortos todo dia. Quase sempre pobres. Às vezes havia denúncia. Outras vezes, as fotos só serviam para saciar a curiosidade mórbida dos leitores. E para vender mais jornal.”
Décadas depois, a repercussão das fotos dos Mamonas ainda acompanha o fotógrafo. Quando alguém descobre que foi ele quem fez os registros, a reação é sempre a mesma:
“Nossa, foi você?”


