CRB entre o planejamento possível e o acesso desejado


(Foto: Divulgação/CRB)

No fim de dezembro, a fala de Eduardo Barroca já apontava o tamanho do desafio do CRB para 2026. A ideia era clara, manter a base, dar continuidade ao trabalho e agregar jogadores capazes de decidir partidas equilibradas. A primeira parte foi cumprida. A segunda, não.

A espinha dorsal foi preservada. Dos titulares, saíram apenas Higor Meritão e Mateus Ribeiro. O clube segurou nomes valorizados, manteve o treinador mesmo com assédio de outros mercados e sustentou um ambiente administrativo que hoje é respeitado no futebol brasileiro. O CRB paga em dia, não faz aventuras e não vive mais de improviso. Isso tem valor. E muito.

Mas o campo mostra outra verdade, faltou o diferente.

A necessidade já estava traduzida desde dezembro. O elenco precisava de individualidades capazes de decidir. Basta olhar os números. Mikael tem 10 gols, Douglas Baggio tem 7. O restante mal passa de 2. Danielzinho é talentoso, é o camisa 10 do time, mas nunca foi um meia de invadir área e resolver com gols. Dadá participa de muitas terminações, mas tem apenas 1 gol. Isso fala muito sobre a montagem atual.

No futebol, há jogos que pedem organização. Outros exigem alguém que resolva. Otero decidiu para o Criciúma numa cobrança de falta no último minuto. Ronaldo Tavares, num Athletic de operários, fez três e decidiu sozinho. Esse tipo de jogador muda campeonato. E esse tipo de jogador custa caro.

Aí mora o dilema do CRB.

(Foto: Ailton Cruz)

Ninguém precisa ensinar a Mário Marroquim o caminho do acesso. Ele sabe. Ari Barros sabe. A direção sabe. O ponto é que o jogador que realmente eleva o teto da equipe custa alto, muitas vezes entre 200 e 300 mil. E o pilar central do planejamento foi respeitado do começo ao fim, orçamento.

A diretoria deixou isso claro. Manteve a base de 2025, trabalhou com um elenco de 30 atletas, sendo 26 jogadores e 4 goleiros, e não abriu mão do equilíbrio financeiro. O CRB se tornou um clube respeitado no mercado porque não faz loucura, porque honra compromissos e porque entende que credibilidade também sobe divisão. Só que credibilidade não dribla, não acelera e não decide jogo travado.

No Estadual, foi preciso o choque do 3 a 0 para o ASA para o cofre abrir de forma cirúrgica. Vieram Luís Phelipe, Bressan e Lovat. Os três tiveram impacto direto no penta.

Lovat encaixou rápido e resolveu uma carência evidente na lateral esquerda. Luís Phelipe aumentou a concorrência e fez Mikael sair da zona de conforto. Já Bressan entregou segurança, experiência e outras valências importantes dentro de um elenco, leitura, posicionamento, serenidade e competitividade. Foi útil e ajudou. Mas também ficou evidente uma característica que, na fase final da carreira, tem pesado mais, a imposição física nos duelos. Uma coisa não anula a outra. Ele agrega em aspectos importantes, só não entrega mais com a mesma força aquilo que o jogo atual cobra em certos confrontos.

Mikael sai comemorando o gol do Galo. (Foto: Ailton Cruz)

Depois, a maratona fez o resto. O elenco foi exposto, o desgaste apareceu, e as peças de reposição não têm o mesmo poder para mudar panorama. A comissão fala do nível alto de desgaste, isso incomoda, o ambiente se irrita, e o velho ritual do futebol brasileiro começa, a busca pelo culpado da vez. Ari e Barroca viram alvo. É normal. O dirigente não se tira, então a pressão se concentra onde sempre se concentrou.

Por isso, quando a pergunta surge, houve erro no planejamento?, talvez a resposta mais honesta seja outra, houve limite orçamentário para fazer o que era necessário.

O CRB tem bom time, tem base, tem gestão madura e vai reagir. Vai ganhar jogos, vai competir e tem totais condições de atravessar essa fase. Mas quem vive o futebol por dentro sabe que competir não é a mesma coisa que conquistar. Para subir, quase sempre falta ao time comum aquilo que só o jogador diferente entrega.

Agora, o cenário aponta para dois caminhos, reação imediata e Copa do Brasil. Porque uma classificação pode abrir espaço financeiro para, na próxima janela, trazer justamente os diferentes que o elenco ainda não tem e que podem aproximar o CRB não apenas da disputa, mas do acesso de verdade.



Fonte: Gazetaweb