Quem é que hoje em dia tem tempo
segundo dizem
para gastar seu tempo a se inquietar
com a dor alheia
Já bastariam nossas pelejas
duelos tantos
desassossegos que nos exaustam
no dia a dia
Que cuide cada um dos seus males
alguém sustenta
que lamba cada um as feridas
que o molestam
Quem é que pode curar o mundo
sem ser messias
quem é que pode curar os homens
da própria ira
Mas me pergunto como posso rir
num val de prantos
como cantar com quem desaprendeu
cantar seus cantos
Que se não diga não sobrar tempo
menor que seja
pra enxergar tantos que soluçam
ao seu derredor
Pode bastar uma só palavra
um único olhar
uma só mão que nós estendamos
num gesto franco
Mas como mesmo assim nos vai doer
a dor de outrem
se a indiferença nos adoenta
e nos desalma
Ponta Verde, dezembro de 2024.
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CARLOS MERO
Nasceu em 1949 (Penedo, Alagoas, Brasil). Graduou-se em Direito. Exerceu o magistério jurídico e desempenhou as funções de Desembargador Eleitoral, Promotor de Justiça e Secretário de Estado. Publicou: Um gosto de mulher (Poesia). São Paulo: Scortecci, 1996; O Beco das Sete Facadas e Outras Estórias Alucinadas (Ficção). São Paulo: Marco Zero. 2005; Dias assombrados em Roma (Memórias). São Paulo: Scortecci. 2015; Graciliano Ramos: Un monde de peines (Depoimento). Lille (FR): TheBookEdition. 2015; O Chocalho da Cascavel e outros relatos de maldizer (Ficção). São Paulo: Scortecci. 2016; Contos Covidianos (Ficção). São Paulo: Scortecci; Relato de um delírio – Aconteceu em Lisboa (Ficção). São Paulo: Scortecci, 2025. É Sócio Louvado da Confraria Queirosiana (Vila Nova de Gaia, Portugal), ex-presidente da Academia Alagoana, sócio benemérito da Academia Maceioense de Letras membro da Academia Penedense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL).


