Tem treinador que ganha taça e pronto. Tem treinador que ganha taça deixando marca, elevando o nível do ambiente, e fazendo a ideia sobreviver ao barulho.
Eduardo Barroca entrou para a história do CRB como o técnico do penta. E tem um peso especial nisso: é o primeiro título estadual dele como treinador principal. O destino tem dessas ironias boas: o cara que vive de estudar futebol, que transformou rotina de trabalho em livro, foi encontrar esse troféu exatamente em Alagoas, onde paixão não tem filtro, e cobrança costuma ser 4K.
Estive no Rio no lançamento do livro “Modelo de Trabalho”, em outubro do ano passado. Ali ficou claro: não é vaidade, é compromisso. A frase clássica de quem escreve um livro é “eu queria deixar algo que ficasse”. No caso do Barroca não é frase pronta, é jeito de viver. Ele não escreve para aparecer, ele escreve porque acredita que o futebol precisa ser tratado com responsabilidade.
A taça não apaga as crises, ela explica como ele atravessou. Em 2025, na Série B, quando o time encarou aquele período duro sem vencer, a resposta não foi desculpa: foi ajuste, repetição, campo, trabalho. Neste estadual, quando vieram tropeços que ninguém queria engolir, a senha foi a mesma: trabalho.
Tem uma cena que explica muito. Depois de uma derrota, no meio daquela avalanche, ele resolveu blindar a família do barulho. Pediu o lanche no iFood no nome da esposa, e nem desceu para pegar, para não alimentar ruído. Parece pequeno, mas não é. É cabeça fria em dia quente. É entender que a pressão não é só arquibancada, é o que a pressão tenta fazer dentro de casa.
E aqui entra a raiz que explica muita coisa: Dona Conceição, mãe do Barroca. Não é só “mãe do técnico”. É a primeira incentivadora, a base emocional, a mão firme que segurou quando o sonho ainda era motivo de crítica.
No prefácio do livro, ela entrega uma imagem que vale por mil discursos: ele ainda menino, comandando campeonato com time de botão em cima de um campo de madeira. Fazia papel de técnico, gritava, gesticulava, vivia aquilo com uma intensidade fora do normal. Ali já estava tudo, só faltava o mundo enxergar.
Ela lembra também do Botafogo que ele carregava no corpo: bandeira, boné, camiseta, e o dinheiro do lanche virava jornal para acompanhar o time. E ela, que nem gostava de futebol na época, ficando irritada, e mais ainda quando ele chorava nas derrotas. Isso é bonito porque dá contexto: ninguém vira treinador do nada. Tem lágrima antes da prancheta.
E tem a frase de mãe que vira bússola: “Eu faço a minha parte, você faz a sua. Estude, e tudo vai dar certo.” Pronto. A carreira dele cabe aí: disciplina, estudo, e uma fé que não é discurso, é rotina.
Barroca é estudioso de verdade. Não é pose. É professor, é obsessão pelo detalhe, é respeito por processo e por gente. Talvez por isso ele tenha uma coisa rara: ele é técnico, mas antes disso ele é humano. E humano se mede no dia ruim, não no dia de taça.
Que o diga Dadá Belmonte, que ouviu vaia, cobrança, e não foi largado na esquina. Que o diga Mikael, atacado no barulho, e sustentado no trabalho, quando o ambiente pesa e a ansiedade vira inimiga, Barroca não compra a histeria: ele segura o jogador, protege, cobra por dentro, e banca por fora. Essa é a diferença entre “gerir elenco” e cuidar de gente.
E tem o lado de quem abre porta. Foi com ele que Maycon, lateral esquerdo, estreou no profissional e já marcou o primeiro gol. Isso não é sorte: é ambiente, é confiança, é treinador que enxerga momento e não trata atleta como número.
O penta é taça. Só que, para ele, é mais: é prova, é carimbo, é confirmação de um caminho.
E eu aposto que, no silêncio depois da festa, vai passar uma cena na cabeça dele: aquele menino no campo de madeira, com time de botão, acreditando antes de todo mundo, e Dona Conceição dizendo, estude, siga, vai dar certo.




