Os desdobramentos das denúncias de abusos dentro do quartel do Exército, em Maceió, ganharam novos contornos com os relatos detalhados das vítimas. Dois ex-soldados afirmam ter sofrido atos de violência e constrangimento durante o período de serviço militar no 59º Batalhão de Infantaria Motorizado (59º BIMtz).
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Um dos denunciantes, o ex-soldado Pablo Vince, relatou que ingressou na corporação motivado, mas que a experiência se transformou em um cenário de abusos e humilhações.
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“O que era felicidade se transformou em pesadelo. Passei por situações de constrangimento durante a formação e também dentro da unidade. Fui vítima de abuso sexual por colegas de farda, dentro da companhia. Chegaram a passar o pênis no meu rosto enquanto eu dormia, e só tive conhecimento dias depois”, afirmou.
Segundo ele, além das agressões, houve tentativa de silenciamento por parte de superiores.
“No primeiro momento, tentaram me coagir, pedindo que eu aguardasse o processo administrativo. Eu esperava apoio da unidade, mas isso não aconteceu. Os outros militares permaneceram normalmente nas funções, enquanto eu e outro soldado fomos afastados”, relatou.
De acordo com a defesa, ao menos outros dois militares também denunciaram situações semelhantes. Em sindicância interna, alguns dos acusados teriam classificado os episódios como “brincadeira”.
O advogado das vítimas, Alberto Jorge, afirmou que a condução do processo administrativo não resultou na responsabilização esperada, o que motivou o acionamento do Ministério Público Federal.
“A gente esperava a responsabilização com base no Código Penal Militar, mas isso não ocorreu ao final da sindicância. Por isso, buscamos o Ministério Público Federal para que haja apuração criminal e eventual denúncia contra os envolvidos”, explicou.
Ainda segundo a defesa, ao menos sete militares são citados nos autos, entre soldados e superiores hierárquicos.
Outro caso relatado envolve um segundo ex-soldado, que teria sido submetido a agressões dentro de uma câmara fria da unidade.
“Ele foi chamado por um sargento e, ao chegar ao local, foi despido, imobilizado e colocado de cabeça para baixo. Em seguida, sofreu agressões físicas enquanto os outros riam, tratando a situação como se fosse uma brincadeira. Isso, para nós, configura tortura”, afirmou o advogado.
A defesa também informou que Pablo Vince foi afastado definitivamente do Exército, mesmo após laudos indicarem a necessidade de acompanhamento psicológico.
“Estou em tratamento psicológico e psiquiátrico, fazendo uso de medicação e sessões terapêuticas, tudo devidamente registrado”, disse o ex-militar.
As vítimas afirmam esperar que o caso incentive outros militares a denunciarem situações semelhantes.
“Espero que outros que passaram por isso também procurem seus direitos. Hoje, eu busco justiça”, declarou Vince.
Em nota, o Exército informou que instaurou procedimento administrativo em julho do ano passado para apurar os fatos. Após a conclusão, cinco militares foram presos e desligados do serviço ativo.
A instituição também declarou que, em outro caso, dois militares foram excluídos das fileiras, com respeito ao contraditório e à ampla defesa. O Exército reforçou ainda que não admite condutas que violem seus princípios e valores.


