Na semana passada, em Maceió (AL), a advogada Janieli Gomes conseguiu reencontrar o juiz Francisco Guerrera para agradecer por um gesto que mudou sua vida e a de sua família.
Na última vez que se viram, ela estava ao lado do pai numa audiência em que o magistrado não só reconheceu um direito trabalhista, antes negado ao seu genitor, mas enalteceu a vida sofrida de um lavrador e sua filha. O juiz ainda eternizou a história oficialmente, nos autos da Justiça.
Era para ser uma audiência comum para julgamento de um pedido de aposentadoria por incapacidade, negado pelo INSS a um trabalhador rural de Santana do Ipanema, Sertão de Alagoas, em abril de 2024.
O juiz federal Francisco Guerrera Neto marcou a reunião presencial para comprovar que José Hilton Firmino Gomes realmente exercia a atividade de lavrador, já que a perícia médica da Justiça já havia reconhecido a incapacidade para o trabalho.
Dias antes da audiência, porém, o advogado informou que o autor precisava participar por videoconferência, porque estava em São Paulo. “Confesso que achei estranho. Não era comum encontrar um agricultor do Sertão alagoano, às vésperas da audiência, na capital paulista”, disse o magistrado.
Mas, na audiência, veio a explicação: Seu José havia viajado para comparecer à formatura da filha que havia se formado em direito, após anos de trabalho duro na roça com o pai, plantando milho e feijão desde pequena, e que com muito esforço conseguiu mudar de estado e se formar.
“Seu José contou que sempre trabalhou na agricultura familiar e precisou interromper os estudos aos oito anos para ajudar a família na lavoura. A filha, Janieli, sempre esteve ao seu lado. Quando ela completou 16, pediu para tentar a vida em São Paulo e ele apoiou”, lembra Francisco.
Janieli estava sentada ao lado de seu José durante a audiência. Ela também deu seu relato e contou que eles viviam de forma muito simples, sem água encanada, sem internet e sem os confortos que muitas pessoas consideram básicos, mas sempre com muito trabalho, honestidade e fé.
Disse também que depois precisou trabalhar como manicure em São Paulo para custear a faculdade, e que após muito esforço ela mesmo pagou a passagem do pai para que ele pudesse assistir à sua colação de grau.
“Concedi a aposentadoria, mas senti que aquela história merecia um registro que fosse além da conclusão jurídica”, disse Francisco, que relatou a história de superação de pai e filha na própria sentença, registrada nos autos.
Confira:
“Além da importante questão jurídica que me trouxe à audiência, não posso deixar de ressaltar um aspecto que transborda os limites deste processo. Vi que se trata de um agricultor sertanejo cuja simplicidade e trabalho árduo são notáveis. Fiquei genuinamente tocado ao ouvir sobre a conquista de sua filha, que está se formando em Direito em São Paulo. É evidente que, além das batalhas enfrentadas nos campos áridos do Sertão de Alagoas, ele também construiu alicerces sólidos para o futuro de sua família.
Este momento de celebração não apenas reflete a determinação e o sacrifício do autor para criar seus filhos em um cenário de tantas dificuldades, mas também destaca a importância da educação como um farol de esperança e de realização.
Expresso, assim, meus mais sinceros parabéns ao autor pela conquista de sua filha, que é motivo de legítimo orgulho e inspiração para ele e para todos nós. Minhas homenagens também à filha do autor pela batalha vencida, que, tenho certeza, foi marcada por muito suor e inúmeras abdicações e que culmina agora com a sua formatura.
Faço votos para que ela tenha muito sucesso na carreira que vier a escolher no Direito. E, se optar pela Magistratura Federal, estarei na torcida para que um dia ocupe esta cadeira em que estou sentado e possa se tornar juíza federal na sua terra natal, o Sertão Alagoano.
É mais uma mulher de Dois Riachos/AL que, assim como a Rainha Marta, alcança o sucesso profissional depois de muita luta.”
Receba no seu email as notícias de Boletim Metrópoles
O reencontro
Dois anos depois, agora na 6ª Vara Federal, em Maceió, o juiz Francisco recebeu uma ligação do colega que hoje ocupa sua antiga lotação. Uma moça de nome Janieli havia aparecido por lá, na semana anterior, perguntando por ele. Ela estava em Alagoas visitando os familiares durante as férias e queria conhecer pessoalmente o juiz que mudou a vida dela e de seu pai.
“Na mesma hora lembrei daquela audiência. Peguei o telefone que ela havia deixado e marcamos um encontro no dia seguinte. Pude recebê-la em meu gabinete e ela me disse que até hoje guarda consigo a sentença impressa, que aquelas palavras a acompanham ao longo da carreira e que fazia questão de agradecer pessoalmente”, contou o magistrado emocionado.
No encontro, Janieli disse que, quando se sentou ao lado do pai naquela audiência, viu sua história ser ouvida, respeitada e reconhecida por um juiz que registrou em sua sentença a luta de um homem simples do Sertão de Alagoas, o orgulho de ver sua filha vencer na vida pela educação e a esperança de que ela pudesse prosperar no Direito.

2 imagens


Janieli, Seu José, a mãe e o marido na lavoura de agricultura familiar, em Doias Riachos, AL
Arquivo pessoal

Janieli, Seu José e a família, em Dois Riachos, AL
Arquivo pessoal
“O que mais me marcou foi que, em meio aos fatos do processo, houve espaço para enxergar o ser humano por trás dos autos. Na sentença que garantiu a aposentadoria do meu pai, o juiz registrou palavras que jamais esquecerei. Minha eterna gratidão ao meu pai, por ter sido meu primeiro exemplo de coragem e dignidade e ao magistrado por ter me mostrado que a Justiça também pode ser feita com sensibilidade, respeito e humanidade”, declarou.
Emocionado, Francisco enalteceu “Os processos chegam ao gabinete identificados por números, classes processuais e documentos. É necessário analisá-los com técnica, imparcialidade e rigor jurídico. Mas sempre existe uma vida inteira por trás daqueles autos. É uma responsabilidade muito grande. Algumas decisões realmente podem deixar marcas que ultrapassam o próprio processo. Às vezes para quem é julgado, às vezes para quem julga”.



