Estudos técnicos produzidos pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontam que o fim da escala 6×1 poderia gerar um aumento de até 13% nos preços finais ao consumidor. O debate sobre a mudança na escala de trabalho no país tem aparecido como um ponto de divergência entre o governo federal e parte importante do empresariado brasileiro.
Em entrevista ao Metrópoles, o presidente do sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defendeu que a necessidade de contratações adicionais para cobrir os turnos e o aumento imediato da folha de pagamento criam uma pressão financeira insustentável para muitas empresas.
“Para manter a viabilidade do negócio com outras escalas ainda não praticadas hoje, o empresário do varejo e de serviços tende a repassar esses custos operacionais ao preço final dos produtos e serviços, penalizando ainda mais o já defasado poder de compra da população”, explica Trados.
De acordo com Trados, o impacto mais imediato com a aprovação do fim da escala 6×1 seria na elevação do custo operacional, que estudos técnicos da CNC apontam poder chegar a R$122 bilhões no comércio e R$ 235 bilhões nos serviços.
Na avaliação do estudo, reduzir a jornada sem o correspondente aumento de eficiência colocaria em risco a saúde financeira de milhões de estabelecimentos que operam com margens estreitas.
Diante desse possível cenário, a CNC vê com preocupação qualquer tentativa de imposição de uma jornada única e uniforme para todo território brasileiro por meio de lei nacional.
“Defendemos que a definição da escala de trabalho deve ser mantida no âmbito dos acordos e convenções coletivas, respeitando o princípio do “negociado sobre o legislado” estabelecido pela Reforma Trabalhista de 2017, que permite soluções personalizadas para cada realidade produtiva”, ressalta Trados.
Setores mais impactados
A maior preocupação recai sobre atividades que operam de forma ininterrupta e dependem da presença física do trabalhador. Bares, restaurantes, hotéis e o comércio varejista de gêneros essenciais seriam os mais atingidos.
Para esses estabelecimentos, a escala 6×1 é vista como uma “âncora” que permite o revezamento sem inviabilizar a operação. Sem esse modelo, o risco não é apenas o aumento de preços, mas o fechamento de comércios de bairro aos finais de semana e feriados.
“A população conta com a abertura desses estabelecimentos para suprir necessidades básicas como alimentos, medicamentos e combustíveis”, alerta Tadros.
Além da inflação, a CNC aponta para um efeito colateral no mercado de trabalho. A incapacidade de arcar com os novos custos pode forçar empresas a reduzir quadros de funcionários, migrar para a informalidade como estratégia de sobrevivência e reduzir renda de trabalhadores que dependem de comissões e produtividade.
“Imposição abrupta”
A posição da CNC é de que o verdadeiro benefício para o trabalhador e para o país vem do crescimento econômico sustentável e da alta produtividade. Para a Confederação, benefícios sociais devem ser fruto de negociações voluntárias e maduras entre as partes.
Tadros defende que a rigidez de uma lei nacional desconsidera as peculiaridades de cada município e setor, ferindo os avanços da Reforma Trabalhista de 2017.
“O verdadeiro benefício para o trabalhador vem do crescimento econômico e da alta produtividade. Uma imposição abrupta traria mais riscos de desequilíbrio macroeconômico do que ganhos efetivos de qualidade de vida”, conclui.
O caminho da PEC
O fim da escala 6×1 é uma das bandeiras que devem ganhar destaque na provável campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Popular, o tema mobilizou mais de 1,5 milhão de assinaturas em um abaixo-assinado do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende a redução da jornada máxima semanal.
Dentre as muitas propostas sobre mudanças na jornada de trabalho no Brasil, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), direcionou o assunto para a Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Casa na última semana e prevê apreciação do tema até maio em plenário.
Paralelo a isso, no Senado, também tramita uma PEC semelhante, apresentada pelo senador Paulo Paim (PT-RS).
A PEC de Erika Hilton propõe reduzir a jornada máxima para 36 horas semanais, distribuídas em quatro dias de trabalho. Atualmente, a Constituição fixa o limite em 44 horas semanais, sem definir a divisão por dias — brecha que permite a adoção de escalas como a 6×1.
Independentemente da texto que avançar, o governo trabalha com três pontos considerados essenciais: mínimo de 40 horas semanais, escala mínima de 5×2; e sem redução de salário.


