Gol cedo não se explica só pelo cronômetro


Marlon Araújo

Nos últimos dias, um tema chegou forte pelas mensagens, pelas conversas e pelos debates de pós-jogo: o time sofrer gol cedo.

Teve torcedor trazendo a inquietação com cobrança. Teve amigo de debate daqueles que fazem a gente pensar, estudar e não responder no impulso. Gosto disso. Futebol bom não vive só de grito, vive também de pergunta bem feita.

A pergunta era simples na aparência: existe treinamento para não sofrer gol cedo?

Fui atrás. Conversei com treinadores que conheço. Perguntei se havia literatura específica sobre isso. A maioria riu. Um deles soltou: “só você mesmo para tentar estudar esse assunto”. Eu ri também, mas continuei perguntando, porque o debate merece mais do que a resposta pronta da rede social.

De tudo que já li e ouvi no futebol, encontrei muita coisa sobre gols no fim do jogo, fadiga, queda de intensidade, risco assumido, desorganização emocional e física. Sobre início de tempo, principalmente no segundo tempo, existe discussão sobre perda de temperatura muscular no intervalo e necessidade de uma nova ativação antes da bola rolar. Mas uma fórmula para impedir gol cedo, sinceramente, não encontrei.

Um treinador me trouxe um ponto interessante. O atleta termina o aquecimento cerca de 18 minutos antes do início da partida. Depois vem camisa, oração, túnel, protocolo, hino, cumprimento, foto oficial e toda a liturgia do futebol. Quando a bola finalmente rola, já se passaram quase 20 minutos de desaceleração. Por isso, algumas comissões tentam fazer uma ativação curta antes do início, para recolocar corpo e mente em estado de jogo.

Outro foi mais direto: “Marlon, o treinamento é para não sofrer gol. O tempo do gol a gente não controla.”

Essa frase resume muita coisa.

O treinador pode alertar. Pode cobrar concentração. Pode definir posicionamento. Pode treinar bola parada. Pode organizar zona, marcação individual, cobertura, rebote, bloqueio e saída. Pode passar vídeo, repetir comportamento, simular pressão inicial e preparar os primeiros minutos. Tudo isso é trabalho.

Mas quando a bola vem, alguém precisa atacar. Alguém precisa ganhar o duelo. Alguém precisa cumprir a função.

Se o gol nasce de uma bola parada, por exemplo, e o atleta responsável por determinada zona falha, não dá para transformar automaticamente o minuto do gol em prova contra o treinador. Às vezes, o time não entrou desligado. Às vezes, o desenho estava feito e a execução falhou.

Aí entra o cuidado que falta em muita análise: olhar o lance antes de condenar o relógio.

Gol aos 9 minutos pode ser falta de concentração? Pode.

Pode ser falha individual? Pode.

Pode ser mérito do adversário? Pode.

Pode ser uma bola parada bem batida e mal atacada? Também pode.

O problema começa quando deixa de ser episódio e vira repetição. Se o time sofre sempre cedo, do mesmo jeito, no mesmo setor, com a mesma passividade, aí a pergunta muda. Não é mais apenas quem errou no lance. Passa a ser o que está sendo feito para corrigir o padrão.

Foi o que um técnico me disse em outra conversa: hoje, muitas vezes, o ruído das redes sociais pauta o debate antes da análise. O futebol vira tribunal de 15 segundos. O lance mal acabou e a sentença já está pronta. O treinador é culpado, o jogador é fraco, o time é frouxo, está tudo explicado. Só que não está.

Avaí e Novorizontino, por exemplo, fizeram um jogo com gols nos acréscimos. Quem sofre o empate no fim vira alvo. Quem faz o gol vira símbolo de entrega. O relógio pesa na narrativa. Mas, de novo, o que explica o gol não é apenas o minuto. É o lance.

No fundo, a pergunta mais honesta não é: por que sofreu gol cedo?

A pergunta correta é: como sofreu esse gol?

Foi transição? Foi bola parada? Foi erro de encaixe? Foi perda de duelo? Foi falha na zona? Foi falta de pressão na bola? Foi desatenção coletiva? Foi mérito do adversário?

Sem essa resposta, a crítica vira barulho. Com essa resposta, começa a análise. O relógio mostra o minuto. O lance mostra a verdade.

Quando acontece uma vez, é jogo. Quando se repete, é sintoma. Quando o sintoma aparece, treinador, comissão e atletas precisam responder juntos.

Porque no futebol moderno ninguém escapa sozinho. Nem quem treina. Nem quem executa. Nem quem comenta.



Fonte: Gazetaweb