O gol sai, a torcida explode e o grito vem quase automaticamente. Mas a comemoração pode cobrar um preço da voz quando é intensa e repetitiva. Embora um momento isolado de euforia dificilmente cause um problema grave, exagerar durante toda a partida pode sobrecarregar as cordas vocais e provocar rouquidão, dor e até lesões que exigem acompanhamento médico.
Especialistas explicam que não existe uma forma totalmente segura de gritar, mas alguns cuidados antes, durante e depois dos jogos ajudam a preservar a saúde vocal e reduzem o risco de danos.
Gritos repetitivos aumentam o risco de lesões
A otorrinolaringologista Fernanda Dal Bem Kravchychyn, do Hospital Alvorada Moema, em São Paulo, explica que o principal problema não é um único grito, mas a repetição do esforço ao longo da partida. Durante o grito, as pregas vocais colidem com intensidade muito maior do que durante a fala, o que pode causar desgaste quando acontece diversas vezes.
Após um jogo, é comum sentir rouquidão, cansaço para falar, sensação de garganta arranhando e dificuldade para alcançar sons mais agudos. Na maioria dos casos, esses sintomas desaparecem entre 24 e 48 horas com hidratação e redução do uso da voz.
“A voz costuma dar sinais antes que uma lesão importante apareça. Ignorar uma rouquidão persistente pode transformar um problema temporário em uma alteração que exige tratamento especializado”, afirma Fernanda.
Segundo a médica, pessoas com refluxo, inflamações ou doenças prévias da laringe, além de tabagistas, têm maior suscetibilidade a lesões causadas pelo esforço vocal.
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Hidratação e técnica ajudam a preservar as cordas vocais
A fonoaudióloga Paula Anderle, que atende no Rio Grande do Sul, destaca que a hidratação, as pausas entre os gritos e evitar competir com o barulho da torcida são medidas simples que ajudam a proteger as cordas vocais.
Ela explica que profissionais como atores e cantores utilizam técnicas de projeção vocal com apoio respiratório para reduzir a sobrecarga da laringe. Ainda assim, nenhum grito é completamente livre de riscos.
Entre os sinais de alerta estão rouquidão por mais de duas semanas, perda parcial ou total da voz, dor ao falar, sensação constante de esforço vocal, falhas na voz e necessidade frequente de pigarrear.
“Torcer faz parte da emoção do futebol, mas preservar a voz permite continuar comemorando muitos outros gols sem transformar a festa em um problema de saúde”, alerta Paula.
Quando procurar um especialista
O otorrinolaringologista Gustavo Lara Rezende, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), afirma que a maioria dos episódios de rouquidão melhora espontaneamente em poucos dias, mas alguns casos precisam de avaliação médica.
Segundo ele, perda importante da voz, dor intensa, falhas vocais frequentes e rouquidão persistente por mais de 10 a 14 dias podem indicar lesões como edema, hemorragia ou pólipos nas pregas vocais. Nesses casos, a videolaringoscopia ajuda a identificar o problema.
Para reduzir os riscos, o especialista recomenda manter boa hidratação ao longo do dia, evitar excesso de álcool e cigarro, não pigarrear repetidamente e descansar a voz caso ela já esteja gasta antes do evento.
“Uma comemoração intensa costuma causar apenas uma alteração temporária, mas, quando há lesões prévias ou o esforço é muito grande, o trauma pode exigir tratamento e até cirurgia. A voz merece a mesma atenção que qualquer outra parte do corpo”, afirma Rezende.




