Quase 40 anos depois de se desprender da Antártica, o mega iceberg A23a está chegando ao fim de sua longa trajetória. Considerado por anos um dos maiores icebergs do planeta, o enorme bloco de gelo começou a se desintegrar e pode desaparecer completamente nas próximas semanas.
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Quando ainda estava intacto, o A23a impressionava pelo tamanho. No início de 2025, ele pesava cerca de um trilhão de toneladas e tinha aproximadamente 3.672 quilômetros quadrados, uma área quase duas vezes e meia maior que a cidade de São Paulo.
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Nos últimos meses, grandes pedaços se desprenderam da estrutura principal. Alguns fragmentos chegaram a ter cerca de 400 quilômetros quadrados. À medida que o iceberg se desloca por águas mais quentes, novos pedaços continuam se separando, o que também pode representar riscos para embarcações que cruzam a região.
Um dos maiores do planeta
O iceberg A23a tem uma história incomum. Ele se desprendeu da plataforma de gelo Filchner-Ronne, na Antártica, em 1986. Apesar do tamanho gigantesco, o bloco permaneceu praticamente imóvel por cerca de três décadas no mar de Weddell, encalhado no fundo do oceano.
Segundo o professor Gustavo Baptista, do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), as dimensões do iceberg ajudaram a transformá-lo em um dos mais observados pelos cientistas ao longo das últimas décadas.
“Durante esse período ele pesava cerca de um trilhão de toneladas e tinha aproximadamente 4 mil quilômetros quadrados. Para se ter uma ideia, isso representa quase três vezes o tamanho da cidade de São Paulo”, explica.
A situação começou a mudar apenas recentemente. A partir de 2020, o bloco começou a se deslocar lentamente em direção ao norte, carregado pelas correntes oceânicas.
Por que o iceberg está se desintegrando?
À medida que avançou para regiões mais quentes do oceano, o A23a passou a sofrer processos naturais de fragmentação e derretimento.
Em 2024, por exemplo, o iceberg chegou a girar sobre si mesmo sem sair do lugar devido a um fenômeno conhecido como Coluna de Taylor, causado por correntes marítimas que giram ao redor de uma massa submersa.
“A década entre 2015 e 2025 foi considerada a mais quente da história, e 2024 foi o ano mais quente dessa série histórica. Tivemos ainda a influência de um El Niño muito forte e um aquecimento anômalo no oceano Atlântico. Esse conjunto de fatores provavelmente reduziu a massa do iceberg e facilitou seu deslocamento e posterior derretimento”, afirma.
Ele também chama atenção para a velocidade com que o gigante de gelo perdeu volume nos últimos anos.
“Uma massa desse tamanho que ficou mais de 30 anos parada e que até o ano passado era considerada o maior iceberg do mundo perder cerca de 80% da sua massa em pouco tempo não é algo considerado normal”, diz.
De acordo com o pesquisador, imagens recentes da Nasa mostraram que o iceberg chegou a apresentar coloração azul em algumas áreas, sinal de acúmulo de água de degelo em sua superfície.
Impactos no oceano
O deslocamento de icebergs gigantes também pode gerar impactos locais no ambiente marinho. No entanto, esses efeitos costumam fazer parte da dinâmica natural do oceano.
Segundo o glaciologista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a fragmentação de icebergs ocorre regularmente à medida que essas massas de gelo se deslocam para latitudes mais baixas.
“Conforme o iceberg se move para o norte, a água ao redor fica mais quente e ele começa a se quebrar e mudar de forma. Esse é um processo natural que acontece com todos os icebergs”, afirma o pesquisador membro da Academia Brasileira de Ciências.
Ele explica que os efeitos ambientais costumam ser localizados. “O impacto das massas de gelo ocorre principalmente nas áreas próximas onde elas estão derretendo. Existe uma diferença de temperatura na água ao redor, mas os ecossistemas marinhos evoluíram adaptados a esse tipo de fenômeno”, diz.
O pesquisador destaca que problemas maiores poderiam surgir caso a frequência de desprendimento de grandes icebergs aumente significativamente.
“Se começarmos a observar um aumento muito grande na formação de icebergs, isso pode indicar que o manto de gelo da Antártica está perdendo mais massa e liberando mais gelo no oceano”, explica.
Mudanças climáticas
Entre os cientistas, ainda existe debate sobre o quanto eventos como esse estão diretamente ligados às mudanças climáticas.
Para Gustavo Baptista, o processo atual tem relação com o aquecimento global. Ele reforça que relatórios recentes apontam que vários dos limites ambientais do planeta já foram ultrapassados, incluindo a acidificação dos oceanos provocada pelo aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
Já Jefferson afirma que ainda é difícil estabelecer uma relação direta entre a fragmentação de um iceberg específico e as mudanças do clima.
“Em algumas regiões da Antártica Ocidental existem evidências de aumento na formação de icebergs, principalmente em áreas onde as plataformas de gelo estão recuando. Mas isso acontece em regiões específicas que estão aquecendo mais do que a média do continente”, esclarece.



