Jovem relatou ameaça do ministro Buzzi após assédio sexual na praia


O “conselho” veio depois do que uma jovem de 18 anos descreve como investidas sexuais dentro do mar. Segundo a vítima, o ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a advertiu para que fosse “menos sincera”, porque isso poderia lhe trazer problemas — uma fala que, no depoimento da garota, soou como aparente ameaça à estudante.

O episódio, relatado à Polícia Civil de São Paulo e ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), envolve a estudante de Direito que atribui ao magistrado do STJ dois episódios de contato íntimo sem consentimento.

De acordo com os registros, o caso teria ocorrido no dia 9 de janeiro, em Balneário Camboriú (SC), onde a jovem estava hospedada havia dois dias, junto com os pais, em uma casa do ministro próxima à praia do Estaleiro. Em seu depoimento, ela afirmou que conseguiu sentir o pênis do magistrado nas duas ocasiões em que ele teria se aproximado fisicamente. O relato foi reiterado em nova oitiva prestada à corregedoria do CNJ na quinta-feira (5/2).

Após o surgimento da denúncia, Marco Buzzi se afastou temporariamente das funções, apresentando atestado médico de dez dias. Por meio de nota divulgada por sua defesa, o ministro negou o crime e afirmou que pretende apresentar provas contra as acusações no momento adequado (leia íntegra abaixo).

Avô e confidente

A estudante relatou que conhecia o ministro desde a infância e o via como uma espécie de avô e confidente, por ser amigo de seus pais. A mãe dela é uma advogada ativista conhecida pela atuação nos tribunais superiores. A estudante disse ainda que o magistrado costumava aconselhá-la, inclusive contribuindo para ela decidir ingressar na faculdade de Direito.

Dois dias antes do episódio principal, ocorrido em 9 de janeiro, a jovem foi à casa de praia do ministro acompanhada da mãe, a convite do magistrado e da esposa dele. No dia seguinte, afirmou que foi questionada por Buzzi se seria lésbica e se não sentia atração por homens, já que tinha uma namorada. A estudante respondeu que é bissexual. Em 9 de janeiro, o pai dela também chegou ao local para se juntar à família.

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Ministro do STJ Marco Aurélio Gastaldi Buzzi
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Divulgação/STJ

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Sérgio Amaral/STJ

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Ministro do STJ Marco Buzzi

Sérgio Amaral/STJ

Segundo o depoimento, a jovem usava biquíni e estava sentada em uma cadeira em frente ao condomínio, mexendo no celular e em um livro enquanto resolvia assuntos ligados ao estágio. Ao terminar, teria visto o ministro à sua frente, convidando-a para entrar no mar. Ela estranhou quando ele sugeriu que se afastassem cerca de 400 metros do guarda-sol, sob o argumento de que ali a água estaria mais calma.

Ela pontuou, contudo, que o mar já estava tranquilo perto de onde se encontravam e que o ponto para onde foram não ficava visível para quem permanecia na areia.

“Isso pode te prejudicar”

Dentro da água, ainda conforme o relato, o magistrado comentou sentir frio e apontou para duas pessoas que estavam um pouco distantes, dizendo que “deve ser por isso que eles estão abraçados”. Em seguida, segundo a jovem, ele a puxou pelo braço, virou-a de costas e pressionou o quadril e as nádegas dela contra o próprio pênis, dizendo que a achava “muito bonita”.

Ela tentou se soltar, segue o relato, mas teria sido puxada novamente, com a mão dele tocando suas nádegas. A estudante afirmou que sentiu o órgão genital do ministro nas duas ocasiões e que ele ainda tentou segurá-la outras vezes.

Depois das investidas, veio o diálogo que a vítima destacou às autoridades. O magistrado teria perguntado se poderia lhe dar um conselho e dito: “Você é muito sincera, deveria ser menos sincera com as pessoas. Eu só vejo a sua relação com a sua mãe, mas você é muito sincera, deveria ser menos. Isso pode te prejudicar”.

Após a conversa, ambos saíram do mar. Ao saber que a mãe da jovem estava por perto, o ministro informou que iria caminhar até o final da praia. A família, ao tomar conhecimento do que a filha teria passado, deixou a casa da praia e seguiu para Curitiba (PR). Depois, rumou para São Paulo, onde a denúncia foi formalizada.

Desde então, segundo a estudante, ela não consegue dormir, tem “pesadelos constantes” relacionados ao episódio e passou a ser acompanhada por uma psicóloga e uma psiquiatra.

O que diz o ministro

“É inaceitável retrocesso civilizacional a tentativa de julgar e condenar uma pessoa antes mesmo do início formal de uma investigação.

Vazamentos instantâneos de informações sigilosas sobre fatos não verificados é um truque sórdido.

Tribunais, com magistrados experientes e ritos depurados ao longo de séculos, não podem ser substituídos por ‘juízes’ e opiniões inflamadas e quase sempre anônimas no noticiário.

Não é demais pedir serenidade e respeito ao devido processo legal.

A defesa aguarda o momento oportuno para esclarecer os fatos e apresentar suas provas.

Joao Costa, João Pedro Mello e Maria Fernanda Saad, advogados do ministro Marco Buzzi”.



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