Ah, que peninha Mary Shelley não ter conhecido Flávio Bolsonaro, né? A mocinha pálida poderia escrever os sucessos de um senador reaça e candidato à Presidência com medinho da própria criação, a exemplo de doutor Victor Frankenstein. É claro que falta ao Zero Um a complexidade emocional de criador e criatura da obra da genial moçoila, que namorava um também gênio. Se o sexo era bom, aí viviam a glória. Mais: a tentativa de tomar dos brasileiros o Pix estaria em curso, como já escrevi aqui, com ou sem o Irmão 171-000. Mas o troço se grudou à sua biografia, e agora ele está pulando miudinho.
Nota à margem em momento cultural: “Frankenstein”, escrito, dirigido e produzido por Guillermo del Toro, é um tantinho aborrecido. Mas a meia-hora final é magistral e salva o filme, com uma brilhante atuação de Jacob Elordi, com maquiagem e tudo, em monólogo raro. Adiante.
Lula não teve dúvida: chamou a “Família Metralha” pelo nome, jogou no colo dos valentes o risco de um novo tarifaço — quem nem seria tão amplo assim — e cravou nos brutos a pecha de traidores. Até errou um tantinho: disse que Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da Inconfidência, foi enforcado. Foi não. Viveu rico e feliz em Portugal, com a grana que ganhou pela traição — a propósito: era português de nascimento. Flávio é brasileiro. Quem encontrou a árvores para pendurar o pescoço, presidente, foi Judas. O que motivou duas estrofes espetaculares de Cecília Meireles em “Romanceiro da Inconfidência”, sobre o traidor:
Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros…
— e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glória, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes!
Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério!
Pois ele encontra remorso,
coisa que não te acomete.
Ele topa uma figueira,
tu calmamente envelheces,
orgulhoso e impenitente,
com teus sombrios mistérios.
(Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.)
ERROU DE JOAQUIM SILVÉRIO, MAS ACERTOU DE FLÁVIO
Lula pode ter errado de Joaquim Silvério, mas acertou de Flávio. Eleito ou não, viverá à tripa forra em sua mansão, como viveu o original em Portugal… A menos que seja colhido pelo que andou fazendo em verões passados…
Joaquim Flávio dos Reis gravou um vídeo culpando Lula pelas ameaças feitas pelo Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos e tentou convencer a audiência que ele implorou a Trump que não taxasse o Brasil. Isso quer dizer que, então, debateu o assunto com o seu chapa e foi malsucedido?
Certamente com o patrocínio de Marco Rubio, o tarado ideológico que é Secretário de Estado, Trump publicou em suas redes uma foto em companhia de Flávio no Salão oval. Foi chamado pelo chefão do Declínio do Império Americano de “jovem e inteligente”… Jesus! No dia em que as ameaças se espalharam. Que gol de placa, não, “Tariflávio”? O pré-candidato ainda mandou uma carta em inglês ao presidente dos EUA, pedindo que poupasse os empresários brasileiros…
O embate nas redes foi esmagador — contra o Bolsonaro Filho que é, bem…, oriundo do Bolsonaro pai, como a jaca da jaqueira.
É O PIX, ESTÚPIDO
James Carville, o estrategista da primeira vitória de Clinton — contra Bush pai — explicaria as coisas assim: “É o Pix, estúpido”. É o que querem os americanos. O resto é firula.
No ano passado, esse meio de pagamento movimentou R$ 35,36 trilhões… Por mês, na modalidade pagamento de pessoa física para pessoa jurídica, em compras, chega-se à soma fabulosa entre R$ 350 bilhões e R$ 450 bilhões.
As empresas de cartão de crédito não se conformam. O texto que ameaça o Brasil com tarifas afirma que o “BC atua ao mesmo tempo como regulador e operador do sistema, impondo seu uso e limitando as taxas cobradas por concorrentes”. Quais concorrentes?
Cartões podem cobrar dos associados taxa de até 3%. Digamos que, no caso do Pix, aceitassem, sei lá, apenas 0,1%. E estaríamos falando, vejam que coisa!, de R$ 450 milhões. Por mês!
Como antevi nesta manhã, Flávio deu um ativo eleitoral e tanto para Lula. Mas não o fez por distração. É a sua vocação para servir. É a necessidade de correr daquele cavalo bravo e xucro (prefiro a grafia “chucro”), que, no entanto, não o abandonará.
Mais uma vez, levou um coice na cara ao tentar domar o “Dark Horse”. E ainda sobrou joelhaço no queixo de Trump, meio sem querer. Até estava gostando da flauta, mas é desajeitado.



